Armadilha da Identidade, de Asad Haider, é um livro da esquerda revolucionária que se tornou um estandarte sectário contra os movimentos negros, feministas e LGBTs
Um título escandaloso
O título original do livro de Haider é Mistaken identity: Race and class in the age of Trump, ou Identidade equivocada: Raça e classe na era Trump. Numa edição posterior, o subtítulo foi alterado para Mass movements and racial ideology (Movimentos de Massa e Ideologia Racial). Evidentemente, o título dado à edição brasileira tem um tom bem sectário, ironicamente coincidindo com o título do livro de Yascha Mounk (na edição brasileira, A armadilha da identidade: uma história das ideias e do poder em nosso tempo, uma tradução literal da edição original The identity trap: A story of ideas and power in our time).
A posição política de Yascha Mounk é, de fato, bem diferente da de Haider. Mounk defende que pautas identitárias (ou seja, demandas específicas levantadas pelos movimentos das minorias sociais) são um obstáculo para a esquerda porque atrapalham a obtenção de votos. Ai que preguiça! Se falta a coragem para Mounk enfrentar preconceitos e temas espinhosos, sobra-lhe a audácia de usar a própria covardia como argumento, e a mesma crítica vale para milhões de outros esquerdistas.
É verdade, como diz um ditado, que não se julga um livro pela capa, mas a capa faz parte do livro e o título da edição brasileira induz uma posição política similar à do conteúdo do livro de Mounk. Numa palavra, o título é uma “lacração”.
“Políticas de identidade” versus “identitarismo”
O livro de Haider tem por objetivo criticar as supostas “políticas de identidade” ou “políticas identitárias” (identity politics). O prefácio escrito por Silvio Almeida dá a entender que isso seria chamado “identitarismo” aqui no Brasil, o que se aproxima da palavra inglesa identitarianism, que denota movimentos de extrema-direita europeus que defendem que povos estrangeiros sejam expulsos de suas terras para a criação de estados étnicos na Europa. Tais grupos defendem a preservação da identidade branca europeia, que estaria sob ameaça, são movimentos chauvinistas que se confundem com fascistas e supremacistas brancos.
Almeida, apesar de colocar o termo “identitarismo” entre aspas, comete o erro de equiparar movimentos de minorias sociais oprimidas a movimentos de supremacia branca, ultranacionalistas e similares:
O capitalismo não é plenamente compreensível dentro do binômio esquerda-direita, que é ideológico. Há uma esquerda “identitária” e uma esquerda “anti-identitária”, como falamos. Há também uma direita “identitária” (“pelo direito de ser branco”, “América para os americanos”, “Brasil acima de todos, Deus acima de tudo”), mas há uma direita “anti-identitária”, liberal, iluminista e universalista (Haider, 2019, p. 16).
De fato, o binômio esquerda-direita é ideológico, assim como esse livro, incluindo título e esse prefácio. Isso em si não é um problema, pois toda disputa política se materializa, em primeiro lugar, através de discussões ideológicas, embates de ideologias. O problema está em Almeida fingir que não está a fazer um debate ideológico. Colocar no mesmo saco um movimento negro, ainda que limitado às questões de raça, e um movimento xenofóbico do tipo “América para os americanos” é sim uma ideologia, e mais ainda, é perversa.
Esse não é o único problema do prefácio, infelizmente não conseguirei expor tudo neste curto texto.
Um problema generalizado na esquerda (mas não só na esquerda)
Em entrevista à Carta Capital, Haider comenta sobre sua experiência após a publicação de seu livro:
Nos primeiros seis meses, eu fui atacado por não levar raça e gênero suficientemente a sério, e depois, [nos outros seis meses], eu fui atacado por levá-los muito a sério, por estar muito centrado neles (Carta Capital, 2019).
Infelizmente, há uma certa parcela da população que se acha polícia dos assuntos que outras pessoas escolhem discutir. Funciona assim: se você fala em feminismo, um juiz lhe manda você se preocupar com a fome na África; se você fala da fome na África, outro juiz aparece e manda você se preocupar com a fome no Brasil; e se você fala da fome no Brasil, alguém lhe grita: “Vai trabalhar, petista vagabundo!” Os juízes de assunto só se satisfazem quando você se cala. Trata-se de um comportamento autoritário cujo objetivo é o silenciamento.
Criticar um livro por seu tema ou por dar maior peso a uma questão que a outra é atitude de quem quer fugir de qualquer debate qualificado feito com base em evidências e argumentos. Infelizmente, tornou-se banal fazer “críticas” como essa, ou até piores, repletas de xingamentos, lacrações, frases de efeito, “fatos” sem fonte, é uma verdadeira epidemia da síndrome do pombo enxadrista.
Eu não sou “polícia de assunto” nem pombo enxadrista, critico argumentos com argumentos.
Ainda não acabou...
Para uma crítica melhor embasada, eu teria que abordar os seguintes aspectos, o que deve ser temas de futuros textos.
A rigor, todas as políticas são identitárias, no sentido de que toda política lida com identidades. “Socialista”, “trabalhador”, nacionalidades, etc, são identidades que moldam a forma como as pessoas interagem e se posicionam na sociedade. Haider defende uma política que supostamente não teria base numa identidade, mas aparentemente defende uma política baseada numa identidade abstrata, “homem” (sic), que é totalizante e reducionista, um viés liberal que ignora as múltiplas identidades que determinam a realidade social. A meu ver, a única universalidade que não é totalizante e reducionista é aquela que é uma síntese dialética das particularidades.
Há falta de consistência e objetividade nas definições (e/ou caracterizações) do termo “políticas identitárias” apresentadas tanto por Silvio Almeida quanto por Asad Haider. Nenhuma delas define uma ideologia concreta, seja por serem muito vagas (ou seja, abstratas), seja porque não se encaixam em algum exemplo dado. Algumas dessas definições são tão amplas que abrangem uma infinidade de interpretações. Isso faz com que a “política identitária” ali criticada se torne um ótimo espantalho para se rotular qualquer adversário político que se queira deslegitimar, contribuindo assim para debate público repleto de sectarismos e reducionismos, ou seja, de “cancelamentos” e “lacrações”.
A política do Coletivo Combahee River é centrada na identidade da mulher negra. Isso não significa que o coletivo defende apenas interesses particulares deste grupo, mas esse aspecto é oportunamente ignorado tanto por Silvio Almeida quanto por Asad Haider quando ambos criticam uma política que tome alguma identidade como centro. Este é o único grupo apresentado por Haider que abertamente reivindica a política identitária. Portanto, este é o único exemplo legítimo de política identitária, mas Haider, ironicamente, não o toma como exemplo de seu espantalho de “política identitária”, o que demonstra uma falta de compreensão da complexidade e das nuances que cercam essa discussão.
Há outras definições de “identitarismo” e/ou “políticas identitárias” apresentadas por aí que também são espantalhos. Seria interessante um texto que apresente as melhores que eu encontrar e para analisar se são, de fato, espantalhos ou se são reais.
Um problema que Haider reproduz de Judith Butler e Michel Foucault é não distinguir entre identidade e rótulo (rótulo é atribuído, identidade é assumida). Isso o leva à conclusão que todas as identidades são “totalizantes e reducionistas”, um viés pós-estruturalista que ignora a necessidade das estruturas (isto é, estruturas de pensamento, conceitos, definições, etc) nas disputas políticas concretas.
Crítica à ideologia de que a existência de lideranças negras no sistema capitalista seriam um obstáculo para o movimento negro. Essa ideologia defendida por Haider contradiz os exemplos que ele mesmo apresenta, nos quais a presença de lideranças negras inspirou coragem para a mobilizações massivas contra a opressão racial, ainda que tais mobilizações fossem, em última instância, contrárias aos interesses dessas lideranças.
Crítica à oposição entre reforma e revolução presente ao longo do livro. Haider afirma, por exemplo, que “reivindicar inclusão na estrutura da sociedade como ela é significa se privar da possibilidade de mudança estrutural” (Haider, 2019, p. 48). Na linguagem socialista, “inclusão na estrutura da sociedade” é sinônimo de reforma. Este é um dos vários trechos do livro que criam essa falsa oposição entre reforma e revolução. A crítica de Engels aos blanquistas, a de Rosa Luxemburgo a Bernstein, a de Lenin a vários grupos no livro Esquerdismo: doença infantil do comunismo, etc., mostram que não há oposição entre reforma e revolução, mas pelo contrário: para os marxistas clássicos, a luta por reformas é o único caminho para a revolução socialista. Este argumento, apesar de ser frequentemente ignorado ou mal compreendido, é essencial para entender a dinâmica da luta de classes e a necessidade de transformação social. Não tomo as posições dos marxistas clássicos como “palavra sagrada”, mas elas mostram que é equivocado simplesmente pressupor que devemos rejeitar lutas por reformas, pois estas desempenham um papel significativo no avanço da consciência de classe e na mobilização popular em prol de mudanças estruturais mais profundas.
Haider menciona uma intriga política entre Bernie Sanders e Hillary Clinton, mas Bernie Sanders tinha contradições com relação às pautas identitárias por seu viés economicista e Hillary Clinton explorou isso, utilizando essa diferença como uma estratégia em suas campanhas, visando conquistar o apoio dos grupos eleitorais “identitários”. Concordo que, na sua totalidade, o programa de Sanders era melhor do que o de Clinton, mas ele demorou a criar um programa coerente com as demandas ansiadas pelo movimento Black Lives Matter, que se tornou central nas discussões sobre justiça racial e que demandava respostas eficazes dos candidatos.
O texto citado de Michelle Alexander, Por que Hillary Clinton não merece o voto negro, defende uma política equivocada. Ainda que seja neoliberal (sinceramente não sei se é), Hilary Clinton não é igual a Donald Trump! Trump representa uma ideologia neofascista, o que o distancia da direita clássica, em particular a política de incentivar um setor da população para reprimir minorias sociais com as próprias mãos (através de linchamentos, milícias, etc), minorias estas que são transformadas em bodes expiatórios dos problemas sociais. Também não podemos ignorar a política recentemente implementada de censurar discussões políticas e até pesquisas científicas (!) que envolvam questões de gênero e sexualidade (Dawson; Kates, 2025) e aquecimento global (Nilsen; Paddison, 2025). Até onde sei, a última medida similar ocorreu na década de 1930 na Alemanha Nazista.
Referências
CARTA CAPITAL. Esquerda é branca e classe média demais? Asad Haider fala sobre políticas identitárias. YouTube. Jul. 2019. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=6ElKDnwgYaA>. Acesso em: 4 mar. 2025.
DAWSON, Lindsey; KATES, Jennifer. Overview of president Trump’s executive actions impacting LGBTQ+ health. KFF. Mar. 2025. Disponível em: <https://www.kff.org/other/fact-sheet/overview-of-president-trumps-executive-actions-impacting-lgbtq-health/>. Acesso em: 5 mar. 2025.
HAIDER, Asad. Armadilha da identidade. Tradução: Leo de Vinicius Liberato. 1. ed. São Paulo: Veneta, 2019.
NILSEN, Ella; PADDISON, Laura. Trump bars federal scientists from working on pivotal global climate report. CNN. Mar. 2025. Disponível em:
<https://edition.cnn.com/2025/02/21/climate/trump-blocks-scientists-ipcc/index.html>. Acesso em: 5 mar. 2025.