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quarta-feira, 28 de abril de 2021

As sacerdotisas gala de Inanna e o desatino de Fírmico Materno

 

“Destruir e construir,
levantar e abaixar,
são seus, Inanna.
Transformar um homem em uma mulher,
uma mulher em um homem,
são seus, Inanna.”

Enheduana, séc. 23 AEC

Travesti Socialista, colunista do Esquerda Online.

“Eles dizem que não são homens, e não são. Querem que se acredite que são mulheres, mas um certo aspecto de seu corpo atesta o contrário”. Isso está no capítulo 4 do livro ‘O Erro das Religiões Profanas’ (entre 343 e 350 EC), onde Júlio Fírmico Materno descreve uma crença na Assíria e em parte da África (sic). Há uma hipótese plausível que ele confundiu Assíria com Síria, e que, portanto, trata-se de uma descrição das gallae que adoravam Atargatis e Átis na Síria. Penso que, pelo contrário, são as gala da Mesopotâmia que adoravam Inanna.

Utilizo as traduções de Richard Oster Jr. (1971) e Clarence Forbes (1970), bem como a edição de Matthias Flacius Illyricus (Firmici Materni, 1952), que é a mais antiga.

Sobre as gallae, ver meu artigo anterior. https://esquerdaonline.com.br/2020/12/24/as-gallae-sacerdotisas-transgenero-e-a-opressao-do-imperio-romano/



Capítulo 4

“[A1] Os assírios e parte dos africanos desejam que o ar tenha a liderança dos elementos e veneram ele com uma representação alegórica imaginária. [A2] Pois eles consagraram essa mesma coisa – isto é, o ar – com o nome de Juno ou a Virgem Vênus, supondo que em algum momento a virgindade era satisfatória para Vênus. [A3] Naturalmente, eles transformaram Juno (para que nem mesmo aqui falte incesto) de irmã de Júpiter em sua esposa. [A4] Na verdade, eles afeminaram esse elemento, tendo sido influenciados por uma devoção que eu desconheço.
“[B1] Porque o ar é colocado entre os mares e o céu, eles se dirigem a ele com vozes afeminadas dos sacerdotes. [B3] Conte-me! É uma divindade que busca o feminino no masculino? [B4] É uma divindade a quem o coro de seus próprios sacerdotes não pode servi-la, a não ser que façam seu rosto parecer o de uma mulher, polindo sua pele e envergonhando o sexo masculino com ornamentos femininos? [B5] Pode-se ver zombarias miseráveis, com lamentação pública, nesses mesmos templos. [B6] Os homens toleram coisas femininas e revelam essa mácula de um corpo impuro e impudico com uma exibição orgulhosa. [B7] Eles tornam públicas suas próprias más ações e confessam com a máxima mácula de deleite o crime de seu corpo contaminado.
“[C1] Eles arrumam o cabelo bem cuidado como o de uma mulher e, tendo-se vestido com mantos delicados, é com dificuldade, com o pescoço cansado, que erguem a cabeça. [C2] E então, quando eles se tornaram totalmente diferentes dos homens, tendo sido inspirados por uma canção das flautas, eles chamam a sua própria deusa para que, tendo sido preenchidos com um espírito hediondo, predizem o futuro, por assim dizer, para os homens crédulos. [C3] O que é esse monstro ou o que é essa besta? [C4] Eles negam que são homens, e não são. [C5] Eles desejam que se acredite que são mulheres, mas um certo aspecto do corpo atesta o contrário. [C6] Deve-se considerar também que tipo de divindade é aquela que se encanta pela associação de um corpo impuro, que segue os membros impudicos e que se agrada da contaminação poluída do corpo.
“[D1] Envergonhem-se perante o Maior, ó miseráveis! [D2] Deus os fez diferentes disso. [D3] Quando o seu grupo se aproxima do tribunal do Deus examinador, vocês não trarão nada que o Deus que os criou possa reconhecer. [D4] Abandone o erro de tal calamidade e abandone de uma vez por todas a inclinação de uma mente ímpia! [D5] Não condene o corpo, que Deus fez, com a lei profana do diabo! [D6] Venha em auxílio do seu desastre enquanto o tempo ainda permite! [D7] Deus perdoa gratuitamente e sua misericórdia é rica.
“[E1] Depois de deixar as noventa e nove ovelhas, ele procura a que está perdida. [E2] Quando o filho pródigo retorna, o pai dá roupas e prepara o jantar. [E3] Não quero que o grande número de crimes faça vocês se desesperarem. [E4] O Deus Maior, por meio de seu próprio Filho Jesus Cristo nosso Senhor, absolve os que o desejam e perdoa gratuitamente os que se arrependem. [E5] Ele não exige muito para perdoar. [E6] Com apenas fé e arrependimento você poderão redimir tudo o que vocês destruíram por causa da perversa persuasão do diabo.”

(Oster, p. 15-8; Forbes, p. 50-1; Firmici Materni, n. 27-8)



O que Fírmico queria?

Júlio Fírmico Materno, um senador cristão, escreveu esse livro entre 343 e 350 EC (Forbes, p. 9), pedindo aos imperadores Constante (em Roma) e Constâncio (em Constantinopla) que exterminassem as ‘religiões profanas’, com foco nas religiões asiáticas e africanas. Ao criticar crenças greco-romanas, jogava a culpa nas “superstições estrangeiras com seus costumes relaxados” que apenas iludiam “os homens velhos e as mulheres inebriadas”, elogiava reis, imperadores e o Senado porque reprimiam com violência os rituais, investigando pela tortura e aplicando uma “punição digna do nome romano” – a pena capital (Oster, p. 29-33).

Resumindo, Fírmico é um dos idealizadores da Santa Inquisição.



As sacerdotisas do capítulo 4 seriam as gallae?

O capítulo 3 do livro (Oster, p. 10-4; Forbes, p. 47-8; Firmici Materni, n. 23-6) critica os “frígios que habitam Pessino às margens do rio Gallus”. Resumindo, a crença que ele critica é uma mistura de uma versão da história de Cibele e Átis (tão distorcida e confusa que parece ser um boato que ele ouviu bêbado) com o Hino Homérico 30, uma homenagem à deusa Terra (ou Gaia), “a mãe de tudo”. Tanto a história que ele conta quanto a associação de Cibele a Gaia são invenções romanas (Lucker, p. 26-8). Isso e um trecho do capítulo 18 (Oster, p. 99; Forbes, p. 81) mostram que Fírmico não conhecia às gallae, provavelmente nem de Roma.

O capítulo 4, pelo contrário, parece o relato de uma testemunha ocular. Não é inventado, pois há características de cultos da época das gallae e das gala: os rituais de lamentação, [B5] o canto [B4] com vozes agudas [B1] e flautas [C2], o uso de roupas femininas [C1], cuidado da pele [B4] e dos cabelos, que eram descoloridos [C1], os romanos não as consideravam homens [C4] nem mulheres [C5], mas tinham papel e aparência feminina [C5].

Considero plausível a tese de que esse capítulo é sobre as gallae que adoravam Atargatis (Forbes, p. 150), mas há detalhes que não se encaixam bem. Atargatis era associada ao mar, não ao ar, e era muito associada a Reia ou Cibele (Lucker, p. 30), o que provavelmente levaria Fírmico associar essas sacerdotisas às gallae. Símbolos muito associados às gallae estão ausentes (Átis, tímpano, leões, natureza, coroa com torres – Lucker, p. 31) e não há menção a frenesi ou barulho.

Clarence Forbes defende também que a deusa associada a Juno era Tanit, uma deusa dos povos púnicos do Norte da África conhecida como Juno Caelestis (p. 150). Tanit era associada a Astarte, a versão grega de Inanna.



As gala de Inanna

Inanna, adorada pelas sacerdotisas gala ou gala-tur, era a principal divindade da Suméria desde pelo menos o quarto milênio AEC, quando ainda era matrilinear. Inanna era conhecida como Rainha do Céu e manteve sua importância mesmo após a transição ao patriarcado (entre 3000 e 2000 AEC, quando, por exemplo, as cidades passaram a ser governadas por reis).

Reproduzo uma tese de Collins (p. 110-1). Os povos semíticos que habitavam a Suméria cultuavam duas divindades: Ishtar (derivado de Attar, nome masculino que designava a Estrela D’Álva), e Ashtart (derivado de Attart, nome feminino que designava a Estrela Vésper). Como ambas estrelas são duas formas do planeta Vênus, as duas divindades eram associadas, causando ambiguidade de gênero. No século 23 AEC, Ishtar e Ashtart foram identificadas com Inanna, tornando-se uma deusa.

As gala de Inanna/Ishtar difundiram-se pela Mesopotâmia (região entre os rios Eufrates e Tigre, onde ficavam Suméria, Assíria, Acádia e Babilônia – os romanos chamavam toda a região de Assíria). Em acadiano, gala (ou gala-tur) era pronunciado como kalu (ou kalaturru) (Lucker, p. 22, 69) e assim eram conhecidas na Assíria (Gabbay, p. 116).

O livro Matheseos de Fírmico Materno é texto mais extenso sobre astrologia romana que se tem conhecimento e é baseado em astrologia egípcia e babilônica. Então é lógico que ele conheceria Ishtar, a principal deusa da Mesopotâmia.

Se a Vênus do capítulo 4 era Ishtar, a ridicularização da “Virgem Vênus” [A2] era uma polêmica com as cristãs que associavam Ishtar com a Virgem Maria e que transformaram os poemas que retratavam a agonia Ishtar pela morte de Tammuz em lamentos da Virgem Maria pela morte de seu filho.

Ao falar em incesto [A3], Fírmico pressupõe que Juno e Júpiter, adoradas por essas sacerdotisas, são as mesmas divindades romanas. As divindades associadas a Juno e Júpiter, na Mesopotâmia, eram Antu e An e, nos povos púnicos, Tanit e Baal-Hamon. Em ambos os casos, eram consortes, não irmã e irmão. Essa confusão era comum devido a séculos de sincretismo religioso romano.



A explicação mais simples

Ishtar era conhecida por ser capaz de transformar homens em mulheres e mulheres em homens (Lucker, p. 52). As crenças religiosas não existem no vácuo, elas são parte da vida social (Lucker, p. 72-3). Há, por exemplo, um texto relatando um ritual de iniciação de um kurgarru (uma mulher que se transforma num homem) e de uma pili-pili (um homem que se transforma numa mulher) (Lucker, p. 20-1).

Se, conforme a crença, Inanna tinha o poder de transformar o gênero das pessoas e isso se expressava em rituais religiosos, é de se esperar que o ritual de iniciação das gala (ou de uma parte delas) as transformasse em mulheres. Elas desempenhavam um papel feminino, uma função religiosa feminina, cantavam lamentos em eme-sal, um dialeto feminino, e uma parte delas adotavam nomes femininos (Lucker, p. 21, 51-2).

Era dissimilar à época um cristão romano afirmar que sacerdotisas transgênero eram não-homens [C3,C4], e que elas “querem que se acredite que são mulheres” [C5]. Fírmico está embaraçado de ter de afirmar isso. Se ele o diz, é porque era necessário polemizar. Seria uma polêmica com ninguém?

Podemos fazer uma interpretação improvável para a estranha escolha de palavras. Assim como é possível dar centenas de explicações distintas a centenas de evidências, o que faríamos desejássemos sustentar o dogma que todas as pessoas da Antiguidade eram cisgênero.

Há uma explicação mais simples e racional. Fírmico está polemizando com crenças populares de sua época (Oster, p. i). Faz sentido que fosse relativamente popular considerar as gala de Inanna (ou uma parte delas) como mulheres. Logicamente, isso significa que elas (ou uma parte delas) se consideravam mulheres. Se o critério de dissimilaridade tem algum valor como argumento histórico, é difícil encontrar melhor exemplo que um cristão ter de admitir, em pleno patriarcado romano, que se acreditava que as sacerdotisas transgênero da Assíria e do norte da África eram mulheres.

E o mais curioso: o livro é escrito num contexto de polêmicas dentro do cristianismo.



Referências

[1] Oster Jr., Richard E, 1971. Julius Firmicus Maternus: De Errore Profanarum Religionum. Introduction, Translation And Commentary. Houston, Texas: Rice University. Acessado em 29/12/2020. Disponível em: https://scholarship.rice.edu/bitstream/handle/1911/89943/RICE0978.pdf

[2] Forbes, Clarence A., 1970. Firmicus Maternus: the error of the pagan religions. New York, NY: Newman Press. Acessado em 29/12/2020. Disponível em: https://archive.org/details/firmicus-maternus/page/49/mode/2up

[3] Firmici Materni V.C., Iulij, 1562. De Errore Profanarum Religionum Ad Constantium & Constantem Augustos Liber: Nunquam Antehac In Lucem Editus. Matthias Flacius Illyricus. Apud Paulum Machaeropoeum: Argentina. Acessado em 31/12/2020. Disponível em: http://access.bl.uk/item/viewer/ark:/81055/vdc_100031064402.0x000001#?c=0&m=0&s=0&cv=26&xywh=-52%2C-1%2C2552%2C1824

[4] Lucker, K. A, 2005. The Gallae: Transgender Priests Of Ancient Greece, Rome, And The Near East. Bacharel Thesis. Sarasota: New College of Florida. Acessado em 22/12/2020. Disponível em: https://s3.amazonaws.com/arena-attachments/539632/d6348aa09f4510eb5704b6da501f9e7d.pdf

[5] Martin, Dale B., 2009. The Greco-Roman World [vídeo]. Acessado em 22/12/2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Ecpn3bkVvv0&list=PL279CFA55C51E75E0&index=3

[6] Collins, P., 1994. The Sumerian Goddess Inanna (3400-2200 BC). Papers from the Institute of Archaeology, 5, pp.103–118. Acessado em 31/12/2020. Disponível em: http://doi.org/10.5334/pia.57

[7] https://www.academia.edu/10083707/The_kalu_Priest_and_kalutu_Literature_in_Assyria_Orient_49_2014_

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Não foram os aliens – um debate sobre o conhecimento de sociedades antigas

 De acordo com o conhecimento atual, há seis regiões consideradas “berços da civilização”: Mesopotâmia (atual Iraque), Egito, China, Mesoamérica (povo maia), Vale do Indo (atual Paquistão e norte da Índia) e Peru (povos andinos) [1]. Isso porque, de maneira mais ou menos independente e em diferentes épocas, povos dessas regiões inventaram a agricultura e a escrita. Alguns “estudiosos” afirmam que o “avançado conhecimento” dessas sociedades (em matemática, astronomia, engenharia, etc) só se explica com a “ajuda dos aliens”. Será que elas não eram “inteligentes o bastante” para desenvolver seu próprio conhecimento?

Este texto não é uma crítica ao estudo da História e da elaboração de interpretações diversas. Minha crítica é à forma como isso é feito e com os pressupostos implícitos nessas teorias que são preconceituosos em relação aos povos não-europeus.

A discussão deste texto é sobre formas de conhecimento que pressupõem a invenção da escrita, mas há formas de conhecimento das sociedades áglifas (sem escrita) e que estão ausentes na nossa. Os maiores problemas existentes na sociedade capitalista – acumulação descontrolada de capital, exploração do trabalho, descontrole do poder político, desigualdade social, destruição dos recursos naturais, individualismo e desrespeito à coletividade, etc – são causados pela ausência de conhecimentos que são comuns em sociedades áglifas.



O racismo velado

Note que os povos dessas regiões eram não-europeus. A partir de uma visão de mundo eurocêntrica de mundo, pressupõe-se que todas as grandes descobertas só poderiam ter acontecido na Europa. Parece espantoso, talvez assustador, considerar que, na Antiguidade, as civilizações europeias se desenvolveram de forma tardia.

Na verdade, a Antiga Suméria (sul da Mesopotâmia) e o Egito se desenvolveram de maneira relativamente rápida. Formou-se uma rota comercial da Suméria ao Egito na chamada Crescente Fértil, o que favoreceu a disseminação dos saberes, levando ao surgimento de civilizações ao longo dessa rota, que se desenvolveram de maneira desigual e combinada. Os povos europeus não precisaram ‘reinventar’ essas tecnologias porque tinham com quem aprender.



Sociedades que nos parecem estranhas

Nós, que fomos criadas numa cultura europeia, temos bastante contato com as antigas Roma e Grécia. Nas aulas de História. Na nossa língua, que é latina e com muitas palavras de origem grega. Na arte, no direito, na “democracia”.

Por outro lado, raramente temos contato com os povos considerados berços da civilização. Seus valores, histórias, religiões e culturas nos parecem estranhas, esquisitas, bizarras – como se viessem de outro mundo.

Isso é um prato cheio para os pseudo-historiadores. Há muitas histórias que eles podem ‘traduzir’ e ‘interpretar’ de maneira forçada para ‘provar’ suas teses. Se os alienólogos defendessem que os anjos na Bíblia eram alienígenas e Iavé era o seu líder, não teriam tanta audiência. Tem mais apelo dizer que os Annunaki eram alienígenas e que Anu era seu líder – porque quase ninguém conhece as histórias da Suméria.



Agricultura, cidade, escrita, matemática

Para que a agricultura seja inventada, as únicas condições absolutamente necessárias são os recursos naturais (água, terra fértil, sementes) e a racionalidade humana. Ambas as condições já existiam, há dezenas de milhares de anos, em todo o globo – daí a razão de sua invenção por diversos povos, em locais e épocas distintas. [2] Esta permitiu que povos antes nômades formassem assentamentos que, em alguns casos, cresceram e se tornaram cidades. [3] A contabilidade necessária para lidar com a logística da produção e das relações comerciais favoreceu o surgimento da escrita por volta de 3.000 AEC. [4]

Esses povos passaram milhares de anos fazendo contas, logicamente ficaram muito bons nisso. Não à toa, a Matemática Babilônica é bastante conhecida por sua forte aritmética e pelas várias tabelas que utilizavam para fazer contas e resolver variados tipos de problema. Por exemplo, na Babilônia, já se conhecia:

  • O método da diagonal (ou “Teorema de Pitágoras”) 1.000 anos antes de Pitágoras; [5]

  • O método da raiz (ou “Método de Heron”) 1.500 anos antes de Heron; [6]

  • A raiz de 2, com 3 dígitos sexagesimais (ou 5 dígitos decimais); [7]

  • Resolução de “equações quadráticas” 2.500 anos antes de Bháskara; [8]

  • Resolução de alguns tipos de “equações cúbicas”; [9]

  • Um tipo do método do trapezóide 1.400 anos antes do mesmo ser (re)descoberto na Europa; [10]

  • Uma tabela trigonométrica 1.000 anos antes de Hipparchus. [11]



As pirâmides do Egito e a tecnologia egípcia

Comparativamente ao mesopotâmico, o povo egípcio tinha maior acesso a recursos minerais. Isso os permitiu desenvolver diversas ferramentas, possibilitando construções cada vez mais complexas, como as famosas pirâmides. Sem dúvida, são impressionantes, ainda mais considerando a época em que foram construídas. Eu, por exemplo, nunca estudei engenharia, então não sei como eram feitas. Mas é lógico que no Egito Antigo havia especialistas com conhecimento muito maior que o meu para encontrar soluções que, do meu ponto de vista, parecem impossíveis.

De fato, há evidências históricas de algumas soluções engenhosas. Uma delas é sobre o transporte de enormes estátuas de pedra pelo deserto – há pinturas que mostram estátuas sobre trenós de madeira sendo transportadas enquanto alguém derrama água à frente dos trenós. Cientistas, a partir de experiências, verificaram que isso facilita o transporte de objetos pesados sobre a areia. [12]

Há o lado negativo, como mostra a pintura: centenas ou milhares de pessoas escravizadas. É lógico que, se o povo egípcio tivesse uma tecnologia alienígena para transportar as enormes estátuas, isso não seria necessário.

Um estudo de Akyo Kato apresenta uma teoria factível sobre o processo de construção da Grande Pirâmide de Giza. A maioria das pedras (internas) eram cortadas em formato octagonal, o que facilitaria seu transporte (eram roladas). Os pedaços removidos formavam prismas trapezoidais que seriam utilizados para rolar as pedras cúbicas da parte externa. Um sistema de polias (encontrados em estudos anteriores) seria utilizado para construir um tipo de elevador, com a ajuda de contrapesos para levantar as pedras aos níveis mais altos. [13]



Milhares de anos de História

Sintetizar milênios de História em um texto deste tipo é bastante difícil e falar de todas as sociedades que são utilizadas nas teorias dos alienólogos seria impossível. O enfoque desse texto (no Egito e na Mesopotâmia) não é o único possível, e talvez não seja o melhor. De qualquer forma, espero que esse texto ajude a mostrar quantos diversos povos da antiguidade tinham avançados conhecimentos em diversas áreas – e que não precisamos de alienígenas para explicar essa inteligência.



Notas

[1] https://mapscaping.com/blogs/geo-candy/mapped-the-6-cradles-of-civilization

[2] Algumas condições ambientais (como a escassez de fontes naturais de alimentos) ajudam a explicar a invenção da agricultura em alguns casos. No entanto, essa não é condição absoluta – o povo maia, por exemplo, inventou a agricultura vivendo em uma floresta.

[3] https://www.nationalgeographic.org/article/development-agriculture/

[4] No período de 3.500 a 3.000 AEC, aparecem tablets de argila com pictogramas (pequenos desenhos) e marcas dos tokens que representavam números. Em cerca de 3.000 AEC, os sinais passaram a ser utilizados para representar sons (como sílabas) para formar nomes, o que originou a escrita. Recomendo a explicação de Irving Finkel sobre a escrita cuneiforme e sua decifração:

https://www.youtube.com/watch?v=PfYYraMgiBA

[5] O método da diagonal aparece em alguns problemas envolvendo largura, altura e diagonal de retângulos. O conceito ‘teorema’ não existia na Babilônia, mas o procedimento de resolução dos problemas é matematicamente equivalente ao Teorema de Pitágoras. Alguns exemplos:

https://mathshistory.st-andrews.ac.uk/HistTopics/Babylonian_Pythagoras/

[6] O método da raiz, utilizado para calcular aproximadamente a raiz de um número, aparece em problemas didáticos sobre calcular uma raiz ou envolvendo o método da diagonal, que são citados no artigo em [11].

[7] Numa lista de constantes, há uma linha com a frase “a diagonal do quadrado é 1;24.51.10”. Essa é a melhor aproximação possível de √2 com três dígitos sexagesimais. O mesmo valor num cálculo para encontrar a diagonal de um quadrado de lado 30 – que dá 42;25.35. Como não havia vírgula sexagesimal na Babilônia, então é possível interpretar isso como 1/√2, que, em base sexagesimal, é 0;42.25.35.

https://arxiv.org/ftp/arxiv/papers/1305/1305.0865.pdf

https://www.maa.org/press/periodicals/convergence/the-best-known-old-babylonian-tablet

[8] Não havia, na Babilônia, o conceito ‘equação’. Mas há resolução de problemas sobre encontrar um retângulo dada sua área e a diferença (ou soma) entre a largura e a altura – isso, na ponta do lápis, dá uma equação quadrática.

https://mathshistory.st-andrews.ac.uk/HistTopics/Babylonian_mathematics/

[9] Há problemas resolvidos sobre descobrir as dimensões de um poço a partir do volume de terra removida e relações entre largura, altura e profundidade do poço – isso dá um tipo de equação cúbica. Não há evidências de resolução de uma equação cúbica no caso geral.

https://arxiv.org/ftp/arxiv/papers/1905/1905.08034.pdf

[10] O assiriólogo Mathieu Ossendrijver traduziu um texto encontrado recentemente que contém um procedimento de cálculo em Matemática Astronômica Babilônica. O procedimento tinha como objetivo prever a posição da estrela Júpiter no céu ao longo de 60 dias, a contar do dia em que ela aparece como Estrela da Manhã. Isso envolve o cálculo da área de um trapézio.

https://phys.org/news/2016-01-babylonian-astronomers-position-jupiter-geometric.html

[11] Trata-se de uma complicada tabela chamada Plimpton 322. Existem divergências, porque só temos uma parte dela (ela se quebrou e o lado esquerdo se perdeu), além de danos e de alguns erros (de cálculo e de cópia). Só sobrou uma parte da tabela (ela se quebrou e o lado esquerdo se perdeu), além de danos e de alguns erros (de cálculo e de cópia). Como não sabemos quantas colunas na parte esquerda, convencionou-se numerar as colunas I’, II’, III’ e IV’. Chegou-se a um consenso de que a tabela contém medidas de retângulos (ou, equivalentemente, de triângulos retângulos), a divergência é sobre as colunas que existiam à esquerda, o procedimento para criar a tabela e sua utilidade prática.

A melhor explicação é do estudo de Mansfield e Wildbeger, no link abaixo. Seria uma tabela trigonométrica, ou “retangulométrica”, pois contém medidas de retângulos normalizados (com comprimento 1). Haveria mais duas colunas à esquerda: uma com a base e outra com a diagonal, ambas em ordem decrescente. A coluna I’ seria a terceira, com o quadrado da diagonal, o que explica seu rótulo: “o quadrado da diagonal do qual se subtrai 1 para obter o (quadrado) da base”. As colunas II’ e III’ são escalonadas para formar números inteiros, daí o sentido dos rótulos: “resultado da base” e “resultado da diagonal”.

Portanto, seria uma tabela criada para lidar com problemas envolvendo retângulos (ou triângulos retângulos). Isso é possível, pois na Babilônia havia a noção de semelhança de retângulos (e de triângulos). Essa a teoria que melhor se encaixa nos conceitos e convenções da matemática babilônica e que melhor explica a ordem das linhas e a utilidade da tabela.

Eu diria mais: é a única teoria que se encaixa na matemática babilônica.

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0315086017300691

[12] http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/05/cientistas-explicam-tecnica-de-egipcios-para-construir-piramides.html

http://www.sci-news.com/physics/science-ancient-egyptians-wet-sand-01894.html

[13] A apresentação detalhada encontra-se aqui:

https://www.researchgate.net/publication/338315897_How_They_Moved_and_Lifted_Heavy_Stones_to_Build_the_Great_Pyramid



quarta-feira, 1 de julho de 2015

Ele ou ela? As gallae na Antiga Roma (texto do séc. I a.C.)

Estátua de Átis, em uma dança
num ritual de adoração
O poema abaixo, de Cattulus, século I a.C., é uma estória mitológica que envolve uma tradição sacerdotal na Frígia, no território romano. O poema mostra que tanto o gênero quanto a transgeneridade variam ao longo da história e mudam, em especial conforme as condições socioeconômicas da época, mas também de acordo com a ideologia dominante.

O texto foi traduzido de duas fontes (1, 2), com algumas diferenças que serão aqui ignoradas (considero que a 2 seja mais precisa, mas também mais confusa).

[Veja também o texto "Não fale de mim como se eu fosse uma mulher!, sobre um homem trans no século II].

Cattulus, Poema 63

Trazido em sua barca ágil através de oceanos profundos
Átis, quando ansiosamente alcançou o bosque da Frígia com seus pés ligeiros
e entrou nas moradas da deusa, sombrias, coroadas pela floresta;
lá, aguilhoado por uma furiosa loucura, desnorteado na mente,
ele arrancou de si com uma afiada pedra sílex a carga de seu membro.
Então, quando ela sentiu que os membros dela perderam sua masculinidade,
ainda com sangue fresco umedecendo a face da terra,
rapidamente ela pegou o leve tamboril com mãos brancas,
seu timbre, Cibele, seus mistérios, Mãe,
e agitando com os dedos moles o couro de boi oco
assim começou ela a cantar para suas companheiras, trêmula:
Estátua de uma galla
ou um gallus
"Venham vocês, gallae, vão para as florestas da montanha de Cibele juntas,
vão juntas, rebanho peregrino da senhora de Díndimo
que rapidamente buscam casas alheias como exiladas,
seguidas por minhas regras conforme eu as guio em meu trem,
suportaram a salmoura que flui rápido e os mares selvagens,
e descarregaram de seus corpos a aversão absoluta ao amor,
alegrem o coração de sua Senhora com rápida peregrinação.
Deixem o atraso enfadonho afastado de suas mentes; andem juntas, sigam
para a casa frígia de Cibele, para as florestas frígias da deusa,
onde o barulho dos címbalos soarem, onde os tamboris reecoarem,
onde o flautista frígio sopra uma nota profunda em seu caniço curvo,
onde as ménades com suas coroas de hera atiram suas cabeças violentamente,
onde com gritos estridentes elas chacoalham emblemas sagrados,
onde aquela comitiva peregrina da deusa está afeita a vaguear,
até onde é justo para nós acelerar com danças vivas."

Tão logo Átis, mulher, mas não de verdade, cantou assim para suas companheiras,
os foliões, de repente, com línguas tremulantes, gritaram alto,
os tamboris leves soam novamente, os címbalos ocos se colidem novamente,
rapidamente o tumulto, com seus pés apressados, vai ao verde Ida.
Então também Átis, frenética, ofegante, incerta, arfante,
sua líder, acompanhada pelos tamboris, peregrina pelas florestas escuras,
assim como uma novilha indomada correndo à parte do jugo de seu próprio fardo.
Rapidamente as gallae seguem sua líder com seus pés ligeiros.
Então, quando elas ganharam a case de Cibele, fatigadas e exaustas,
depois de muito trabalho elas descansam sem pão;
o sono pesado cobre seus olhos com o cansaço que as abate,
a loucura delirante de suas mentes se partem em sono leve.
Mas quando o sol com seus olhos radiantes de sua face dourada
iluminaram o céu límpido, das terras firmes, o mar selvagem,
e afugentou as sombras da noite com corcéis impacientes renovados, cavalgando,
então o Sono fugiu de Átis despertado e rapidamente se foi;
a deusa Pasitea recebeu ele (sic) em seu seio tremulante.
Então, depois do sono leve, livre da loucura violenta,
assem que o próprio Átis reviu em seu coração seu próprio dever,
e viu com a menta clara que mentira havia perdido e onde ele estava,
com a mente afluindo novamente ele se acelerou de volta para as ondas.
Ali, olhando sobre os mares vazios,
e então dirigiu-se com lamentos o país dela com voz chorosa:

"Ó, meu país que me deu vida! Ó, meu país que me gerou!
A quem deixo, toda desgraçada! Como servas fugitivas deixam seus mestres,
eu trouxe meu pé para as florestas de Ida,
para viver entre as neves e as tocas congeladas das feras selvagens,
e visitar no meu frenesi todas as tocas de espreita,
- Onde então ou em que região eu penso ser teu lugar, ó meu país?
Meus olhos há muito perdidos contemplam a ti
enquanto por um curto espaço minha mente fica livre da frenesi selvagem.
Eu, devo eu ser levada para longe de minha própria casa, para dentro dessas florestas?
Do meu país, dos meus bens, meus amigos, meu país, devo eu ficar longe?
Ausente do mercado, dos campos de batalha, do hipódromo, do campo de jogos?
Infeliz, de coração todo infeliz, de novo, de novo tu deves reclamar.
Pois que tipo de figura humana existe e que eu não poderia ser?
Eu, para ser uma mulher -- eu que era um rapaz, um jovem, um menino,
eu era a flor do campo de jogos, eu era uma vez a glória do palestra;
eram minhas as portas lotadas, meus eram os calorosos limiares,
minhas as guirlandas floridas que enfeitavam minha casa,
quando eu estava para deixar meu aposento ao raiar do dia.
Eu, como devo eu ser chamada agora? Uma serva dos deuses, uma ministra de Cibele?
Devo ser uma ménade, parte de mim, um homem estéril devo eu ser?
Eu, devo eu habitar em regiões cobertas de neve do verdejante Ida?
Passar a minha vida sob os altos cumes da Frígia,
com a corça que assombra a floresta, com o javali que percorre a floresta?
Agora, agora eu lamento meu dever, agora, agora eu gostaria que isso fosse desfeito."

Assim que estas palavras foram emitidas dos lábios rosados,
trazendo uma nova mensagem para as orelhas dos deuses,
então Cibele, afrouxando o laço apertado de seu leão,
aguilhoando aquele indivíduo do rebanho que ia para a esquerda, fala deste modo:
"Vem agora", diz ela, "venha, vai ferozmente, deixe a loucura caçá-lo
manda-o, portanto, pelo golpe da loucura, apressar-se para as florestas de novo
aquele que seria livre demais e fugiria da minha soberania.
Vem, chicoteia para trás com tua cauda, suporta tua própria flagelação,
faz tudo ao seu redor ressoar com um rugido retumbante,
sacode ferozmente sua juba avermelhada com seu musculoso pescoço."
Assim diz a furiosa Cibele, e com sua mão desprende o laço.
O monstro atiça sua coragem e desperta a fúria de seu coração;
ele acelera, ele ruge, com passos largos ele quebra o matagal.
Mas quando ele veio às águas estendidas da costa branca reluzente,
e viu o gentil Átis pelos terrenos planos do mar,
ele corre na direção dele - Átis se voa loucamente para a floresta selvagem
lá para todo o resto de sua vida ele foi uma serva.
Deusa, grande deusa, Cibele, senhora de Díndimo,
esteja toda tua fúria longe de minha casa, ó minha rainha
que outros conduzam a ti em frenesi, outros levem tu à loucura.

Quem eram as gallae?

Relevo funerário de um archigallus
As gallae eram sacerdotisas que adoravam a deusa Cibele, conhecida como "Mãe dos Deuses", deusa da natureza, e Átis, seu/sua cônjuge. Uma sacerdotisa era chamada de galla (feminino) em vez de gallus (masculino) para denotar que a castração já foi realizada. O poema mostra como a galla era destinada ao papel de sacerdotisa, como uma "falsa mulher", para o resto de sua vida. Elas usavam vestes femininas, cabelos longos e eram castradas [Antologia Grega, 219, 220, 234], além de usarem pingentes, brincos e maquiagem pesada [fonte]. Átis é sempre retratado como uma divindade inferior a Cibele, como no poema, em que Átis é sacerdote ou sacerdotisa de Cibele. A mitologia sobre a castração de Átis era usada como justificativa para a castração no ritual de adoração de Cibele e Átis.

Cibele era uma divindade oficial do Império Romano que era bastante adorada, mas apenas os "galli" eram celebrantes oficiais, reconhecidas e financiadas pelo império desde 204 a.C. Apesar disso, os cidadãos romanos eram proibidos de se tornarem gallae, uma vez que elas eram vistas como "homens" que deliberadamente abriam mão de sua fertilidade e de sua masculinidade. O Império as via como maus exemplos para os cidadãos. As gallae eram frequentemente chamadas de pathicus (lascivo), mollis (mole, delicado) ou cinaedus (termo usado para homens adultos com comportamento afeminado ou que gostavam de ser penetrados). Apenas estrangeiros (que eram vistos como inferiores aos romanos) poderiam exercer este papel.

No final do século I, a castração foi proibida pelo império. Mais tarde, o cristianismo se utilizou dos galli para demonizar a religião pagã pela prostituição feminina e pela "sodomia" (sexo anal), como parte da campanha ideológica para a criminalização da "sodomia" (tornou-se crime um homem ser penetrado por outro no século IV, no século VI um homem que penetrasse outro homem também passou a ser considerado criminoso).

O jurista romano Ulpiano descreveu 5 tipos de vestes romanas:
  1. Vestimenta virilia, a roupa do paterfamilias, do pai e chefe da família;
  2. Muliebria, a roupa da materfamilias, a mãe da família;
  3. Puerilia, a roupa das crianças, dos e das menores de idade;
  4. Communia, as vestes comuns usadas tanto por cidadãos como por cidadãs;
  5. Familiarica, a roupa da familia, ou seja, de servas, servos, escravas e escravos.
Um plebeu, uma mulher romana e um senador [fonte]
Ulpiano não distingue o nome dado às roupas das crianças e das servas ou servos por gênero. Apenas da mãe e do pai. Segundo Ulpiano, um homem que usa roupas femininas seria objeto de escárnio. Entre as mulheres, apenas as prostitutas usavam roupas masculinas.

Sendo assim, as vestes estavam ligadas diretamente ao papel das pessoas dentro da família e também sua classe social: o pai, chefe da família, que administrava a propriedade privada; a mãe, cujo papel era reproduzir e gerar herdeiros para as propriedades; as crianças, que eram herdeiras das propriedades (sejam meninos ou meninas); e as pessoas das outras classes (não-cidadãs), que não tinham ou que eram propriedade privada.

Qual é, portanto, o "escárnio" para um homem? Vestir uma roupa da mulher cidadã, quem não era chefe da família, que não tinha direito a administrar nem mesmo a sua própria propriedade privada (a não ser que não tivesse pai ou marido). Vestir a roupa de quem exercia o papel reprodutivo, limitada à esfera privada.

É por isso que as gallae não se viam nem eram vistas como mulheres, no máximo eram vistas como "falsas mulheres". Por mais que quisessem, por mais que tentassem, não conseguiriram exercer o papel social de uma mulher cidadã. Uma galla poderia se tornar sacerdotisa ou prostituta, mas não poderia ser uma materfamilias. Por causa disso, eu acredito que não existiam condições socioeconômicas para que a identidade transgênera pudesse existir socialmente.

[Observação: Pode ser que tenha sido possível a existência de uma identidade transgênera masculina, como a de Megillus, em cidades gregas onde a mulher poderia se tornar a chefe da família, mas acredito que, mesmo assim, eram casos isolados. Vale notar que mesmo a identidade masculina de Megillus na estória era privada, não social.]

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Em defesa dos "homens de saia" e das fantasias carnavalescas

Piu, passista da beija-flor que foi
assassinada este ano.
É carnaval! A festa é feita bem no meio da rua com seus blocos, fantasias, músicas e danças. Até o povo mais pobre das periferias aproveita para ocupar a rua, festejar, enfrentando muitas vezes a violência policial por conta disso. Durante a festa, muitas pessoas aproveitam para fazer aquilo que a moral hipócrita da nossa sociedade não permite. Aquilo que também acontece de forma escancarada durante a Parada LGBT, no carnaval, também acontece de forma mascarada: o ato de travestir-se.

Evidentemente, isso não acontece sem contradições. Muitos homens, ao usarem uma roupagem feminina, ridicularizam a figura feminina e tornam-se alvo de chacota intencionalmente. Essa chacota não se dirige ao homem que se veste, mas sim à travesti que não está lá, à travesti que "não existe". Por conta disso, muitas pessoas, tendo em vista a defesa das pessoas trans, estão espalhando que não apenas a ridicularização do feminino e da travesti, mas até o próprio ato de travestir-se (ou transvestir-se) é uma atitude transfóbica. "O homem de saia apaga a travesti", dizem. "A fantasia não vale mais que a identidade".

Mas, afinal, onde está a transfobia e a misoginia: no ato de vestir-se ou no ato de ridicularizar-se? E se é possível vestir-se sem ridicularizar-se, o ato de vestir-se por si só é transfóbico? Existe algum mal por trás do fato das travestis não serem tão facilmente distinguíveis em época de carnaval como são ao longo do resto do ano? Vamos limpar o terreno!

Travestilidade e fantasia na antiguidade

Vejo muitos textos por aí que dizem que é equivocado afirmar que existiam travestis desde a antiguidade porque os gêneros trans da antiguidade eram diferentes dos gêneros trans da atualidade. Esses mesmos textos, entretanto, admitem que haviam mulheres na antiguidade e as chamam assim, mulheres. Também admitem que haviam homens e os chamam de homens. Não são as mulheres e os homens da antiguidade diferentes das atuais? Não sigo essa ideologia que prega que os gêneros cis são eternos e os gêneros trans são episódicos.

"Afrodito"
Na Grécia Antiga, pelo menos desde o século V a.C., existiam estátuas de Afrodite em que ela levanta o vestido para mostrar um falo. Essa versão de Afrodite era também chamada de Afrodito. Acreditava-se que o ato da Afrodite levantar o vestido tinha o poder mágico de espantar os demônios e conferir boa sorte. Os festivais de culto a essa Afrodite eram caracterizados com rituais de travestilidade. Esse tipo de ritual existia e continua existindo em diversas sociedades, o que mostra que provavelmente têm uma raiz em comum há milhares ou dezenas de milhares de anos atrás. Afrodite, entretanto, virou Hermafrodito, filho de Hermes e Afrodite, já que uma deusa importante como Afrodite não poderia ser travesti numa sociedade travestifóbica.

Em Roma, na Gália, existia uma linhagem sacerdotal em que a travestilidade não era momentânea, mas sim permanente. Elas chamavam a si mesmas de gallae, mas eram e são chamadas de galli, masculino de gallae. Sua tradição consistia na castração (momento no qual passava a ter uma identidade feminina reconhecida), além do uso de nomes e roupas femininas. Uma galla era vista como uma "falsa mulher" e sua identidade feminina era ora encarada como uma escolha, ora como uma obrigação religiosa. As gallae eram vistas como a afronta máxima aos ideais romanos de virilidade. As gallae foram perseguidas e criminalizadas pelo Império Romano e sua tradição chegou ao fim. Afinal, a deusa mãe Cibele era importante demais para ser cultuada por travestis.

Vemos, aqui, que a travestilidade momentânea, ao longo do tempo, se transformou (e continua se transformando) em travestilidade permanente. Na verdade, não é necessário recorrer à antiguidade para mostrar isso: até hoje, muitas pessoas que hoje são travestis, na adolescência ou na infância eram "meninos" que gostavam de usar saia. É como se o processo individual de transformação para o gênero travesti imitasse, em essência, o processo histórico e social que criou o próprio gênero travesti.

Félix e a borboleta no casulo

Ao longo de 2013 e no começo de 2014, o nosso país assistiu, pela primeira vez, um romance gay numa novela da Globo em horário nobre. Foi um marco na história LGBT. A maioria de nós vibrou quando Félix e Niko, no capítulo final da novela Amor à Vida, se beijaram. Finalmente! Depois de tanto tempo de luta, a Rede Globo foi forçada pela pressão popular a admitir que existem homossexuais e que eles também amam. Apesar de todas as contradições da novela, essa visibilidade foi uma vitória para as LGBTs.

Gostaria de trazer de volta um capítulo desta novela. Quem quiser, pode assistir aqui, pretendo discutir as cenas 5 e 6.

Na cena 5, Edith, que está para se divorciar de Félix, se reúne com a família dele para conseguir um bom contrato de divórcio. Para isso, ela ameaça "fazer um escândalo", ou seja, revelar publicamente que Félix é gay. Félix, então, comenta:

- Se quer fazer um escândalo, Edith, faça, eu não me importo! [...] Eu estou como uma borboleta pronta pra sair do casulo.
- Entre nesse casulo. Agora! - ordena seu pai. Félix se silencia.

Na cena seguinte, mais uma vez Edith ameaça:

- Eu vou te dar alguns dias pra você me oferecer um bom acordo ou senão sua vida íntima vai se tornar pública.
- Melhor assim! - responde Félix - Daqui pra frente se eu sair no carnaval com esplendor de plumas e purpurina, ninguém vai se surpreender!
- Félix, cale-se! - ordena seu pai mais uma vez.

O machismo nesse episódio é evidente. Edith é o estereótipo de mulher louca, chantagista, que quer arrancar posses do seu marido e que não pensa em nada além do dinheiro. Ela, inclusive, quer se aproveitar da homofobia para esse fim e não demonstra ter nenhum peso na consciência por isso.

Mas... e quanto a essa tal borboleta que César, o pai de Félix, tem tanto medo que saia do casulo? Em quê consiste esse tal "esplendor de plumas e purpurina"? Estamos falando de homossexualidade? Isso foge ao espectro da sexualidade. Este capítulo faz uma alusão à travestilidade momentânea. Félix não queria expressar apenas sua sexualidade, mas também o seu lado que estava preso dentro do casulo. César, um "respeitável burguês", não quer ter a vergonha de que saibam que seu filho tem um lado "feminino", muito menos que ele se permita ter qualquer semelhança às pessoas consideradas mais abjetas pela sociedade. Ele é tão travestifóbico quanto o seu xará da antiguidade.

A Rede Globo não quis mostrar, em momento algum, a borboleta saindo do seu casulo. Félix, sendo uma caracterização positiva da homossexualidade, foi embranquecido e higienizado de qualquer característica "feminina", por mais passageira que fosse.

O pessoal é político?

Nós, LGBTs, em especial as pessoas trans, sabemos que, para existir, precisamos travar uma batalha política constante pelo nosso direito à existência e pelo reconhecimento da nossa identidade. Caso contrário, a tendência é que as pessoas nos isolem e nos marginalizem e que nossa vida se torne insuportável. Até mesmo os setores mais progressistas da sociedade acabam fazendo isso.

Pai veste saia para apoiar filho que gosta de vestidos.
A criança precisa identificar-se como trans para ter
direito a usar vestidos?
Muitas pessoas, às vezes baseadas na tese subjetivista  de que "o pessoal é político", acabam acreditando que o problema não está na opressão que nós sofremos, mas sim na subjetividade alheia. Por exemplo, é muito comum dizerem que os homofóbicos são homossexuais enrustidos. Ou seja, "xingam" os homofóbicos dizendo que são gays. Isso é reproduzir a homofobia. Até Jean Willys embarcou nesta onda. Durante a Parada LGBT de Campinas, um dos blocos, em vez de criticarem a homofobia de Marina Silva, cantaram uma marchinha dizendo que ela deveria experimentar sexo anal. Ditar regras sobre a vida sexual de uma mulher é machismo.

A opressão LGBTfóbica é objetiva. Sua base de sustentação é a desigualdade social que se manifesta não só nas diferenças de direitos, mas também nas diferenças salariais, na expulsão de espaços públicos, nos assédios que LGBTs sofrem no mercado de trabalho, na patologização da nossa identidade, etc. Não é possível combater essa opressão atacando a subjetividade alheia. Muito pelo contrário, assim acabamos reforçando os estereótipos e reproduzindo as opressões. Não adianta nada "chocar a sociedade" se isso não servir para despertar a consciência de que nós somos oprimidas, que somos vítimas da desigualdade, da violência e da injustiça.

A higienização da sociedade

As sociedades patriarcais, ao longo da História, às vezes incorporaram algum setor LGBT na sociedade, mas de forma limitada. Por exemplo, nos países capitalistas desenvolvidos, em consequência da Revolta de Stonewall em 1969, que deu origem à tradicional Parada LGBT, homens gays e bissexuais foram mais ou menos incorporados na sociedade (mas são levados a formar casais heteronormativos), dependendo da região. As mulheres LGBTs e as travestis continuam à margem da maioria dos espaços sociais. As pessoas trans concentram-se na prostituição em zonas periféricas.

Conforme o movimento avança e obtém conquistas, a burguesia, através de seus instrumentos (Estado, instituições científicas, mídia, sistema educacional) pressiona para que o movimento se divida e retroceda. O movimento LGBT também acaba, por pressão da sociedade, reproduzindo essa mesma lógica. Quando a travesti é usada como um ícone LGBT que é estereotipado e ridicularizado pela mídia e também pela medicina, a população LGBT busca livrar-se deste estigma se diferenciando das travestis e deixando-as à margem.

A medicina denomina a travestilidade momentânea de "travestismo fetichista" e a travestilidade permanente simplesmente de "travestismo" ou de "travestismo bivalente". Ambas as formas são consideradas patologias pela medicina. Enquanto o "travestismo bivalente" é classificado como transtorno de identidade de gênero, o "travestismo fetichista", como transtorno de preferência sexual. Quem não tem problemas em sentir ânsia de vômito pode encontrar uma teoria "científica" sobre "travestismo fetichista" nesta página. Muitas pessoas (inclusive alguns setores da medicina) consideram como patologia apenas o "travestismo fetichista".

Algumas pessoas reproduzem essa mesma lógica e criam uma barreira entre travestilidade momentânea e permanente, como se uma fosse oposta à outra. Assim como a medicina, querem classificar como prejudicial a travestilidade que não é decorrente de uma identidade de gênero. A realidade, entretanto, é que muitas vezes a travestilidade momentânea precede e se transforma em identidade. Conheço muitas travestis com as quais isso ocorreu.

No carnaval ocorrem muitos casos de opressão, como machismo e também travestifobia. É uma época em que mulheres e travestis estão ainda mais sujeitas à violência e à objetificação sexual. Muitos homens se montam e reforçam essas ideologias por sua atitude, que precisa ser constrangida. Mas isso não se resolve acreditando que o problema é das pessoas que se montam. Não devemos restringir o direito das pessoas a experimentarem o gênero, nem isolar ainda mais os costumes culturais das pessoas LGBTs aos guetos que nos são reservado. Também não devemos restringir esse direito apenas para quem tiver registrado a carteirinha oficial de sua identidade de gênero trans, nem mesmo de sua orientação não heterossexual. Não podemos reproduzir a mesma lógica que inferioriza as bichas pintosas, as passivas, as drags, as travestis, que busca separá-las dos homens gays higienizados e empurrá-las de volta à marginalidade.

Eu defendo as borboletas.