sábado, 23 de setembro de 2023

Cleópatra e o mito do “sangue puro grego” da dinastia ptolemaica

 

À esquerda, escultura de Cleópatra VII em basalto, Museu Hermitage, em São Petesburgo, Rússia. À direita, busto em granito exibido no Museu Real de Ontário, Toronto, Canadá. Versões de Cleópatra em estilo egípcio que destoam de suas retratações em estilo grego.

O rei veio a Memphis em um dia de festa. Ele navegou para cima e para baixo em seu navio para poder contemplar os dois lados do lugar. Assim que desembarcou no bairro da cidade chamado Onkhtawy, ele entrou no templo escoltado por seus magnatas, suas esposas e seus filhos reais, com todas as coisas preparadas para a festa; sentado no navio, ele navegou para cima, a fim de celebrar a festa em honra de todos os deuses que habitam em Memphis, de acordo com a grandeza da boa vontade no coração do senhor da terra, e a coroa branca estava em seu testa.”

Inscrição na estela sepulcral de Pshereni-ptah relatando um evento sobre o faraó Ptolemeu XII, pai da famosa Cleópatra [1]

Jéssica Inanna, também publicado no Esquerda Online.

Anunciado o docudrama sobre Cleópatra VII, a famosa faraó, seguiu-se uma enorme “polêmica”. No filme da Netflix, atriz principal é negra, o que supostamente a “proíbe” de interpretar o papel. “Cleópatra”, dizem muitos comentários, “era puro sangue grego” (sic), “portanto era branca, branquíssima, até loira” (sic!). Ora, na verdade há “furos” na árvore genealógica ptolemaica. Mesmo considerando apenas os casamentos “oficiais”, a dinastia ptolemaica continha 12,5% de seu DNA herdados de um rei persa, 15,6% de uma mulher iraniana e 12,5% de uma mulher desconhecida. Afirmar que os ptolemaicos se preocupavam em manter um “puro sangue grego” não passa de um anacronismo que reproduz ideologias pseudocientíficas sobre “raças humanas” que surgiram no século XVI.

Sobre o docudrama da Netflix, verdade seja dita: a “revolta” não é porque a Cleópatra esteja supostamente sendo retratada com fenótipo “anacrônico”. Pelo contrário: há várias dezenas de retratações históricas de Cleópatra, mas poucas (talvez nenhuma) a retrate de maneira fidedigna em sua aparência. Além disso, filmes sobre acontecimentos históricos raramente deixam de ser anacrônicos. A questão é uma mulher que ganhou destaque na História ser interpretada por uma atriz “negra”. Aliás, Adele James, a atriz, não se declara “negra”, mas miscigenada. [2]



A descendência de Apama I, sogdiana, e Mithradates II, de uma dinastia persa

É lógico que a família ptolemaica, como qualquer dinastia, era muito seletiva em relação aos seus matrimônios. A endogamia (casamentos consanguíneos) era muito frequente, assim como na dinastia selêucida e em outras de origem na Macedônia. Há, no entanto, duas notáveis exceções: Berenice II, cuja mãe, Apama II, era selêucida; e Cleópatra I, que era princesa selêucida e neta de Mithradates II, rei persa do Reino do Ponto. Ambas eram descendentes de Apama I, mulher nobre da Sogdia (um antigo reino iraniano) que se tornou a primeiríssima rainha selêucida.

Apama I e Mithradates II, de fato, eram parentes distantes de Cleópatra I, ainda mais de Cleópatra VII! Isso é uma característica da prática de endogamia: preservar, por muitas gerações, uma fração considerável do DNA de ancestrais mais antigos.



Vamos fazer as contas!

Mithradates II era avô materno de Cleópatra I, portanto 1/4 (25%) do DNA dela originou-se nele.

Apama I era avó paterna de Apama II, portanto 1/8 (12,5%) do DNA de Berenice II (filha de Apama II) foi herdado de Apama I.

Ora, Berenice II casou-se com Ptolemeu III, seu meio-primo, e o casal gerou Ptolemeu IV e Arsinoe IV. Ambos, portanto, herdaram 1/16 (6,25%) do DNA de Apama I. Os dois se casaram e seu filho, Ptolemeu V, também herdou 1/16 do DNA de Apama I (1/32 do pai e 1/32 da mãe). Ptolemeu V casou-se com Cleópatra I.

Finalmente, voltamos a Cleópatra I. Vamos de cima para baixo: [3] Seleucus I, o rei fundador da dinastia selêucida, casou-se com Apama I e o casal gerou Antiochus I (o herdeiro do trono) e Achaeus. Este, por sua vez, casou-se com uma mulher desconhecida. Bem, estou supondo que foi apenas uma – vamos chamá-la de Maria Joana. Achaeus e Maria Joana tiveram duas filhas, Laodice I e Laodice II. [4] Ambas herdaram, obviamente, 1/4 do DNA de Apama I e 1/2 de Maria Joana.

Antiochus II, por ser filho de Antiochus I, herdou 1/4 do DNA de Apama I. Ao casar-se com Laodice I, seus filhos (Seleucus II e Laodice do Ponto) também herdariam 1/4 do DNA de Apama I (1/8 pelo pai e 1/8 pela mãe) e 1/4 de Maria Joana (pela mãe).

Seleucus II casou-se com Laodice II (isso mesmo, a irmã da mãe!) e seus filhos, Seleucus III e Antiochus III, também herdaram as mesmas frações: 1/4 de Apama I (1/8 pelo pai, 1/8 pela mãe) e 1/4 de Maria Joana (pela mãe).

Voltemos à Laodice do Ponto: por que ela tem esse nome? É porque ela se casou com Mithradates II e teve, com ele, a filha Laodice III, que herdou, portanto, 1/4 de Apama I e 1/4 de Maria Joana (ambas pela mãe).

Finalmente chegamos a Cleópatra I! Seu pai, Antiochus III, e sua mãe, Laodice III, ambos tinham 1/4 de Apama I e 1/4 de Maria Joana.

O veredito final. Cleópatra I herdou 1/4 do DNA de Apama I, 1/4 de Maria Joana e 1/4 de Mithradates II. Ao casar-se com Ptolemeu V (que tinha 1/4 de Mithradates II), seus filhos e filhas (Ptolemeu VI, Ptolemeu VIII, Cleópatra IV) herdariam 1/8 (15,6%) de Apama I, 1/8 (12,5%) de Maria Joana e 5/32 (12,5%) de Mithradates II.

Os casamentos oficiais entre descendentes desse casal foram endogâmicos. Pressupondo que não há nenhum “furo” na árvore genealógica, todos os descendentes teriam as mesmas frações do DNA herdadas dessas três pessoas.

De Apama I a Cleópatra I, 5 gerações. De Cleópatra I a Cleópatra VII, outras 4. Ao todo 9 gerações, mas a hereditariedade é típica de 3 gerações de distância.



Os “furos” na dinastia ptolemaica

Pressupor que não há nenhum “furo” na árvore genealógica inclui pressupor que:

  • Ptolemeu XII era filho (biológico) de Ptolemeu IX e Cleópatra IV.

  • Cleópatra V também era filha do mesmo casal, ou então, de Cleópatra Selene com Ptolemeu VIII (alguns historiadores dizem uma coisa, outros dizem outra).

  • Cleópatra VII era filha (biológica) de Ptolemeu XII e Cleópatra V.

Há, no entanto, razões para duvidar das três hipóteses acima, por exemplo:

  • Não há nenhuma fonte primária [5] que afirme qualquer uma das três hipóteses acima. Em particular, não há relato que diga o nome do pai nem da mãe de Cleópatra V Triphaena. A única possível fonte indireta é um relato de que Ptolemeu X e Cleópatra Selene tinham uma filha – cujo nome não é dado.

  • três fontes primárias de que Ptolemeu XII era filho “ilegítimo”: dois textos dizem que ele era conhecido como Ptolemeu Nothos (ou Ptolemeu, o bastardo) e outro que Ptolemeu IX, pai de Ptolemeu XII, tinha apenas uma filha legítima, Berenice III. [6]

  • Há um relato de Strabo muito interessante. [7] Houve uma revolta em Alexandria (capital do Egito) e os rebeldes expulsaram Ptolemeu XII do Egito. Como ele “teve três filhas, das quais uma, a mais velha, era legítima, proclamaram-na rainha” – a filha era Berenice IV. Como seus irmãos eram infantes, procuraram “um marido para ela da Síria, um certo Cybiosactes”, que seria um impostor; mas “em seu lugar veio um homem que também fingiu ser filho de Mithradates Eupator – quero dizer Archelaus”. Eventualmente, Berenice é executada pelo próprio pai que então declara Cleópatra VII como corregente.

  • Veja que curioso: além de afirmar que Berenice era única filha legítima (implicitamente: Cleópatra VII não era), o relato é que Berenice tentou se casar com um príncipe sírio (da dinastia selêucida) e depois com um príncipe filho de Mithradates VI, da mesma dinastia de Mithradates II.

  • Historiadores supõem que Strabo, ao afirmar que Cleópatra VII era ilegítima, estava cometendo alguma confusão (seráo?). De qualquer forma, a tentativa de golpe mostra que, ao menos, ela se dispunha a se casar com um príncipe estrangeiro e que, ao menos para os revoltosos, o casamento com Berenice, por si só, tornaria seu marido legítimo herdeiro do trono faraônico.

  • Finalmente, um relato de Apiano [8] afirma que os irmãos Ptolemeu XII e Ptolemeu do Chipre se tornaram noivos de duas filhas de Mithradates VI, Mitrhadatis e Nyssa. Muitos historiadores afirmam que tais casamentos não ocorreram, afinal, Ptolemeu XII casou-se com Cleópatra V. Isso ignora que, na Macedônia e no Egito, casamentos poligâmicos eram permitidos.

Na poligamia do Egito, uma das esposas do faraó era considerada a principal e se tornava faraó (e corregente). Os filhos e filhas das outras esposas do faraó entravam na linha sucessória após filhos e filhas da esposa principal. Romanos denominavam como concubinas essas “esposas menores” dos ptolemaicos e não citavam seus nomes, porque não reconheciam a legitimidade desses casamentos. Para um exemplo disso, pesquise sobre as 4 esposas e 12 filhos de Ptolemeu I.

Ou esse caso mais exemplar. Ptolemeu II casou-se com Arsinoe II, sua irmã. Mais de 15 anos depois, ele se casou com Arsinoe I, princesa da Trácia, com quem teve dois filhos e uma filha. Após a morte de Arsinoe I, seus filhos e filha foram adotados por Arsinoe II, um deles, Ptolemeu III, herdou o trono.



Estamos realmente discutindo quanto pigmento a pele da Cleópatra tinha?

Acho muito interessante a discussão sobre as possíveis ancestralidades de Cleópatra. Primeiro que ela escancara que há muita gente anacronicamente projetando uma ideologia de “raça pura” sobre a família ptolemaica e, pior ainda, chamando isso de “fato histórico”.

Pensando bem, isso não é interessante, na verdade é assustador.

Segundo que isso me fez conhecer a hipótese que Cleópatra teria sido neta, por parte materna, de Mithradates VI e Hypsicratea/Hypsicrates [9]. Uma teoria que, na minha opinião, faz sentido e possivelmente diz mais sobre quem foi Cleópatra do que saber a quantidade de eumelanina produzida pelos melanócitos de sua pele.

Ora, ainda hoje, na Grécia, encontram-se pessoas que têm tom de pele oliva, até mesmo um tom próximo da atriz Adele James. Sem falar na variedade de cores de pele na Pérsia, no Irã, no Egito… Ora, a própria mãe dela pode ter sido, por exemplo, uma sacerdotisa de Memphis ou algo assim.

A discussão não seria grande problema se fosse como, sei lá, discutir qual a cor do cavalo de Napoleão. Mas, obviamente, está muito longe disso. Aponta-se, inclusive, como “evidência” as retratações de Cleópatra que evidenciam um fenótipo “grego”. Gente, o que raios o tamanho do nariz e o formato do rosto têm a ver com cor de pele?

Uma discussão atrelada é a crítica de que retratar Cleópatra como egípcia seria um equívoco, já que ela era de uma dinastia grega macedônica. Essa, sim, é uma discussão interessante, mas complexa. De toda forma, o trem descarrilha quando se apela para o argumento a suposta cor de sua pele ou de seu cabelo.

Honestamente, não assisti à série ainda, portanto não vou opinar sobre sua qualidade ou precisão histórica. Escrevo esse texto tão somente porque a discussão que estou vendo por aí está num nível ridiculamente absurdo e racista.



Notas

[1] Tradução e negrito nosso. Disponível em:

https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Gazetteer/Places/Africa/Egypt/_Texts/BEVHOP/12*.html


[2] Vale destacar que, no Reino Unido, a autodeclaração racial segue regras distintas do Brasil. Aqui, qualquer pessoa que se autodeclare com cor/etnia/raça preta ou parda é considerada negra, inclusive em questões legais envolvendo cotas. No Reino Unido, existe autodeclaração de pessoa miscigenada. Note que, pelos dados deste texto, Cleópatra era miscigenada – ao menos do ponto de vista de nacionalidade – e talvez isso inclusive se refletisse na cor da sua pele. Isso tudo depende muito, é lógico, da pergunta que vale ouro: quem era, afinal de contas, a mãe de Cleópatra VII Philopator?


[3] Você pode acompanhar a árvore genealógica selêucida pelo link. Note que apenas a parte cima será usada. Além disso, há um erro na árvore: Laodice II era irmã de Laodice I.

https://www.instonebrewer.com/TyndaleSites/Egypt/ptolemies/affilates/aff_seleucids.htm


[4] Algumas fontes afirmam que Laodice II era filha de Andromacus, portanto neta de Achaeus. Creio que isso é apenas uma confusão: Polybius, historiador da antiguidade, afirma que Andromacus era irmão das duas Laodices:

http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Plb.+4.51


[5] Por “fonte primária”, consideramos textos da antiguidade (por exemplo, de geógrafos ou historiadores romanos), ou ainda inscrições arqueológicas vindas daquela época. Não consideramos, por razões óbvias, por exemplo, a peça teatral de Shakespeare sobre Cleópatra – afinal, ele, um dramaturgo da Idade Média, não tinha acesso a fontes históricas e nem mesmo o interesse de retratar eventos históricos de maneira objetiva.


[6] Pausanias, Descrição da Grécia [1.9.3]. Disponível em:

https://www.theoi.com/Text/Pausanias1A.html


[7] Strabo, Geografia [XVII.11]. No link abaixo, o primeiro parágrafo:

https://penelope.uchicago.edu/Thayer/E/Roman/Texts/Strabo/17A2*.html


[8] Apiano, Guerras Mitridáticas [XVI.113]. Disponível em:

http://www.perseus.tufts.edu/hopper/text?doc=Perseus%3Atext%3A1999.01.0230%3Atext%3DMith.%3Achapter%3D16%3Asection%3D111


[9] Hewitt Freiburg, From Amazon to Pharaoh – Following a Trail from Hypsicratea to Cleopatra VII. Disponível em:

https://www.academia.edu/13591257/From_Amazon_to_Pharaoh_Following_a_Trail_from_Hypsicratea_to_Cleopatra_VII?fbclid=IwAR0EGprkDTaSwf00uyoLQ40jvNkjUp8b1rqFHBi-GUb5jK_kgDOFlOTxN1U


quinta-feira, 20 de maio de 2021

Sobre o regime de apartheid israelense

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Foto: Na pintura "Santa's Ghetto" ("Gueto do Papai Noel"), do artista Bansky, Maria e José estavam a caminho de Belém, mas seu caminho foi bloqueado por uma muralha de cimento.


Muitas pessoas acreditam que “Israel é a única democracia do Oriente Médio” e que “respeita os direitos humanos”. Vejo essas ideias surgirem, por exemplo, em discussões nas redes sociais e até misturadas com notícias que são sobre alguma pessoa LGBTQIA+ israelense. Na contramão disso, cada vez mais instituições (como a Human Rights Watch [1], a instituição israelense B’Tselem [2] e o Conselho de Direitos Humanos da ONU [3]) estão reconhecendo que Israel está sob um regime de apartheid. É verdade que existem leis em Israel que reconhecem direitos LGBTQIA+ e isso é uma boa notícia, mas não se pode utilizar isso para defender que Israel é uma democracia e que respeita os direitos humanos – porque isso não é verdade.

Por outro lado, muitas vezes essas discussões recaem numa responsabilização individual das pessoas israelenses que aparecem nas notícias, como se cada uma delas pudesse ser classificada como corresponsável pela limpeza étnica ou pelo regime de apartheid. Essa ideia, no limite, segue uma lógica individualista. Pessoas que vivem e/ou trabalham em um país não podem ser responsabilizadas pelos crimes cometidos pelos governos.

Essa confusão não é à toa: afinal, muitas notícias que, a princípio, são sobre judeus israelenses comuns são utilizadas para reproduzir uma propaganda estatal israelense.



Não confunda alhos com bugalhos

Muitas pessoas dizem que denunciar o regime de apartheid em Israel é uma forma de preconceito contra judeus. Em nenhuma hipótese afirmar que um Estado é antidemocrático pode ser confundido como uma acusação contra o povo que vive no país que é controlado por esse Estado. Povo é povo, Estado é Estado.



O que é B’Tselem?

Em 1987, ocorreram uma série de protestos palestinos conhecidos como a Primeira Intifada. Cerca de 80 mil soldados foram enviados para reprimir os protestos, militarizando a repressão ao movimento e causando um massacre. Entre o início dos protestos até meados 28 de setembro de 2000, ao todo, 1.972 pessoas foram mortas, sendo 1.551 palestinas, 271 cidadãs israelenses e 150 membros do exército israelense. Do total, 322 eram menores de 17 anos. [4]

Diante da escalada de violência, um grupo de pessoas israelenses (na maioria advogados, doutores e acadêmicos) fundou a ONG B’Tselem em 1989 com o objetivo de documentar as violações de direitos humanos nos territórios militarmente ocupados por Israel. O nome da organização, “B’Tselem”, significa “à sua imagem” em hebraico e é uma alusão a Gênesis 1:27, que diz que Deus criou o ser humano à sua imagem. [5]

Inicialmente, a B’Tselem enviava denúncias às Forças de Defesa de Israel (IDF). Em 2016, no entanto, o grupo desistiu dessa política, pois as IDF simplesmente ignoravam as cartas. [6]



O que é um apartheid?

B’Tselem criou uma apresentação ilustrada (com versões em hebraico, inglês e árabe), explicando, de maneira didática, por que consideram que Israel está sob um apartheid. [7]

Hoje, existem cerca de 4,6 milhões de pessoas que vivem nos territórios militarmente ocupados pelo exército israelense e que não têm cidadania reconhecida, nem direitos civis, religiosos ou políticos. Essa situação é oficialmente considerada temporária, o que não condiz com os fatos, pois “essa realidade ‘temporária’ persiste há mais de 50 anos” (p. 2).

O apartheid israelense se consolidou dividindo o povo palestino em 4 grupos. É a velha estratégia conhecida como “dividir e conquistar”.

  1. Palestinos com cidadania, oficialmente chamados “árabes israelenses”: cerca de 1,6 milhão de pessoas que têm certos direitos civis – mas não os mesmos direitos que cidadãos judeus. (p. 4)

  2. Palestinos de Jerusalém Oriental, que foi oficialmente anexada ao território soberano de Israel. Cerca de 350 mil pessoas que têm os direitos civis dos “árabes israelenses”, exceto o direito a votar em eleições nacionais. Seus direitos, no entanto, podem legalmente ser revogados a qualquer momento. (p. 5)

  3. Palestinos da Cisjordânia. Cerca de 2,6 milhões de pessoas vivendo em dezenas de enclaves desconexos murados e fortemente vigiados pelo exército israelense, sem cidadania nem direitos – nem mesmo o de sair de um enclave para entrar em outro. (p. 6, 14)

  4. Palestinos da Faixa de Gaza. Cerca de 2,0 milhões de pessoas sem cidadania nem direitos. Desde 2007, “Israel têm mantido Gaza sob bloqueio enquanto controla, de fora, quase todos os aspectos da vida.” (p. 7)

Em cada uma dessas unidades territoriais, Israel decide quais direitos conceder aos palestinos. Em nenhum deles eles têm os mesmos direitos que os judeus.” (p. 8)

Na verdade, existe também um quinto grupo que B’Tselem não cita: palestinos refugiados ou descendentes de refugiados que vivem nos países vizinhos sem cidadania reconhecida. Isso porque, desde a Primeira Guerra Árabe-Israelense em 1948, centenas de milhares de pessoas que viviam no atual território israelense foram expulsas de suas casas pelo exército israelense – para que fosse possível criar “um país para o povo judeu”.

Esses países vizinhos, de maioria islâmica, e Israel têm muitos conflitos políticos, mas nenhum deles está disposto a reconhecer a cidadania dos palestinos refugiados.



É impossível negar os fatos – seria possível justificá-los?

Os fatos acima citados preencher todos os requisitos da definição de apartheid. Muitas pessoas negam que Israel seja um apartheid, mas não negam os fatos acima listados, pelo contrário: tentam justificá-los. Se uma pessoa cria justificativas para um apartheid, isso não faz com que o apartheid deixe de ser um apartheid. Só quem tem um coração de pedra tem coragem de inventar justificativas para um apartheid.



Sobre a geopolítica de colonização

Desde 1918, quando o território era conhecido como Mandato Britânico da Palestina, centenas de milhares de pessoas judias imigraram para a região, fugindo do racismo antissemita ou da intolerância religiosa, da perseguição nazista ou stalinista, ou buscando de melhores condições de vida, ou por motivação religiosa, etc.

É lógico que essa colonização foi realizada a partir de políticas nefastas da ONU, dos governos do Reino Unido, dos Estados Unidos e de Israel. Só para dar um exemplo: em 1947, a ONU votou um plano de partilha do Mandato Britânico da Palestina, no qual a maior parte do território ficaria com Israel. Ora, até então, as pessoas judias eram minoria (cerca de 1/3 da população total) e ocupavam uma pequena fração do território. Qualquer pessoa sensata imaginaria o resultado disso – uma guerra civil. Os líderes da ONU não era estúpidos, portanto a guerra civil era parte do plano.

Pelo menos no que tange aos Estados que dominavam a ONU, seu principal objetivo era estabelecer, num local estratégico (o Oriente Médio), um Estado que fosse aliado dos EUA na Guerra Fria.

No entanto, é incorreto colocar um sinal de igual entre a geopolítica e as pessoas que imigram. Estados são Estados, pessoas são pessoas.



Ninguém pode se libertar oprimindo o outro

A propaganda estatal, em qualquer lugar do mundo, é uma poderosa ferramenta de persuasão, que leva inúmeras pessoas a acreditarem em coisas absurdas. Mas qualquer propaganda baseada numa falsidade, por mais poderosa que seja, nunca é absoluta.

Uma pesquisa da B’Tselem deste ano (2021) aponta que 45% da população (75% entre palestinos e 25% entre judeus israelenses) considera que a definição de apartheid se aplica ao regime israelense. [8] Apenas 13% da população (12% palestinos, 14% judeus israelenses) acredita que o governo tem intenção de reconhecer a independência do Estado Palestino.

Comparado a pesquisas anteriores, o apoio à manutenção dos enclaves e da não-cidadania no território palestino caiu de 47% em 2017 para 40% em 2018 e 37% em 2021 (entre cidadãos israelenses – sejam judeus ou palestinos). A aceitação de palestinos como “atores políticos legítimos” cresceu de 35% em 2019 para 49% em 2012 (entre judeus israelenses).

A B’Tselem é a prova viva de que é possível disputar a consciência, inclusive, dos judeus israelenses. Suas denúncias não são novas – organizações palestinas já as fazem há décadas. Tudo que a B’Tselem fez foi explicar ao povo judeu o que o povo palestino já sabia. No fim das contas, tanto para os palestinos quanto para os judeus israelenses, a principal tarefa política é justamente essa: derrubar os Muros da Palestina!



Notas

[1] https://www.theguardian.com/world/2021/apr/27/israel-committing-crime-apartheid-human-rights-watch

[2] https://www.btselem.org/topic/apartheid

[3] https://www.un.org/unispal/wp-content/uploads/2020/06/AHRC43NGO185.pdf

[4] https://www.btselem.org/statistics/first_intifada_tables

[5] https://www.btselem.org/about_btselem

[6] https://www.jpost.com/Israel-News/BTselem-cuts-ties-with-IDF-over-whitewashing-454951

[7] https://thisisapartheid.btselem.org/eng

[8] https://books.google.com.br/books?id=uM_kFX6edX8C&pg=PA602

[9] https://www.btselem.org/press_releases/2021413_new_all_population_israeli_palestinian_survey



quarta-feira, 28 de abril de 2021

As sacerdotisas gala de Inanna e o desatino de Fírmico Materno

 

Destruir e construir,
levantar e abaixar,
são seus, Inanna.
Transformar um homem em uma mulher,
uma mulher em um homem,
são seus, Inanna.”

Enheduana, séc. 23 AEC

Travesti Socialista, colunista do Esquerda Online.

Eles dizem que não são homens, e não são. Querem que se acredite que são mulheres, mas um certo aspecto de seu corpo atesta o contrário”. Isso está no capítulo 4 do livro ‘O Erro das Religiões Profanas’ (entre 343 e 350 EC), onde Júlio Fírmico Materno descreve uma crença na Assíria e em parte da África (sic). Há uma hipótese plausível que ele confundiu Assíria com Síria, e que, portanto, trata-se de uma descrição das gallae que adoravam Atargatis e Átis na Síria. Penso que, pelo contrário, são as gala da Mesopotâmia que adoravam Inanna.

Utilizo as traduções de Richard Oster Jr. (1971) e Clarence Forbes (1970), bem como a edição de Matthias Flacius Illyricus (Firmici Materni, 1952), que é a mais antiga.

Sobre as gallae, ver meu artigo anterior. https://esquerdaonline.com.br/2020/12/24/as-gallae-sacerdotisas-transgenero-e-a-opressao-do-imperio-romano/



Capítulo 4

“[A1] Os assírios e parte dos africanos desejam que o ar tenha a liderança dos elementos e veneram ele com uma representação alegórica imaginária. [A2] Pois eles consagraram essa mesma coisa – isto é, o ar – com o nome de Juno ou a Virgem Vênus, supondo que em algum momento a virgindade era satisfatória para Vênus. [A3] Naturalmente, eles transformaram Juno (para que nem mesmo aqui falte incesto) de irmã de Júpiter em sua esposa. [A4] Na verdade, eles afeminaram esse elemento, tendo sido influenciados por uma devoção que eu desconheço.
“[B1] Porque o ar é colocado entre os mares e o céu, eles se dirigem a ele com vozes afeminadas dos sacerdotes. [B3] Conte-me! É uma divindade que busca o feminino no masculino? [B4] É uma divindade a quem o coro de seus próprios sacerdotes não pode servi-la, a não ser que façam seu rosto parecer o de uma mulher, polindo sua pele e envergonhando o sexo masculino com ornamentos femininos? [B5] Pode-se ver zombarias miseráveis, com lamentação pública, nesses mesmos templos. [B6] Os homens toleram coisas femininas e revelam essa mácula de um corpo impuro e impudico com uma exibição orgulhosa. [B7] Eles tornam públicas suas próprias más ações e confessam com a máxima mácula de deleite o crime de seu corpo contaminado.
“[C1] Eles arrumam o cabelo bem cuidado como o de uma mulher e, tendo-se vestido com mantos delicados, é com dificuldade, com o pescoço cansado, que erguem a cabeça. [C2] E então, quando eles se tornaram totalmente diferentes dos homens, tendo sido inspirados por uma canção das flautas, eles chamam a sua própria deusa para que, tendo sido preenchidos com um espírito hediondo, predizem o futuro, por assim dizer, para os homens crédulos. [C3] O que é esse monstro ou o que é essa besta? [C4] Eles negam que são homens, e não são. [C5] Eles desejam que se acredite que são mulheres, mas um certo aspecto do corpo atesta o contrário. [C6] Deve-se considerar também que tipo de divindade é aquela que se encanta pela associação de um corpo impuro, que segue os membros impudicos e que se agrada da contaminação poluída do corpo.
“[D1] Envergonhem-se perante o Maior, ó miseráveis! [D2] Deus os fez diferentes disso. [D3] Quando o seu grupo se aproxima do tribunal do Deus examinador, vocês não trarão nada que o Deus que os criou possa reconhecer. [D4] Abandone o erro de tal calamidade e abandone de uma vez por todas a inclinação de uma mente ímpia! [D5] Não condene o corpo, que Deus fez, com a lei profana do diabo! [D6] Venha em auxílio do seu desastre enquanto o tempo ainda permite! [D7] Deus perdoa gratuitamente e sua misericórdia é rica.
[E1] Depois de deixar as noventa e nove ovelhas, ele procura a que está perdida. [E2] Quando o filho pródigo retorna, o pai dá roupas e prepara o jantar. [E3] Não quero que o grande número de crimes faça vocês se desesperarem. [E4] O Deus Maior, por meio de seu próprio Filho Jesus Cristo nosso Senhor, absolve os que o desejam e perdoa gratuitamente os que se arrependem. [E5] Ele não exige muito para perdoar. [E6] Com apenas fé e arrependimento você poderão redimir tudo o que vocês destruíram por causa da perversa persuasão do diabo.”

(Oster, p. 15-8; Forbes, p. 50-1; Firmici Materni, n. 27-8)



O que Fírmico queria?

Júlio Fírmico Materno, um senador cristão, escreveu esse livro entre 343 e 350 EC (Forbes, p. 9), pedindo aos imperadores Constante (em Roma) e Constâncio (em Constantinopla) que exterminassem as ‘religiões profanas’, com foco nas religiões asiáticas e africanas. Ao criticar crenças greco-romanas, jogava a culpa nas “superstições estrangeiras com seus costumes relaxados” que apenas iludiam “os homens velhos e as mulheres inebriadas”, elogiava reis, imperadores e o Senado porque reprimiam com violência os rituais, investigando pela tortura e aplicando uma “punição digna do nome romano” – a pena capital (Oster, p. 29-33).

Resumindo, Fírmico é um dos idealizadores da Santa Inquisição.



As sacerdotisas do capítulo 4 seriam as gallae?

O capítulo 3 do livro (Oster, p. 10-4; Forbes, p. 47-8; Firmici Materni, n. 23-6) critica os “frígios que habitam Pessino às margens do rio Gallus”. Resumindo, a crença que ele critica é uma mistura de uma versão da história de Cibele e Átis (tão distorcida e confusa que parece ser um boato que ele ouviu bêbado) com o Hino Homérico 30, uma homenagem à deusa Terra (ou Gaia), “a mãe de tudo”. Tanto a história que ele conta quanto a associação de Cibele a Gaia são invenções romanas (Lucker, p. 26-8). Isso e um trecho do capítulo 18 (Oster, p. 99; Forbes, p. 81) mostram que Fírmico não conhecia às gallae, provavelmente nem de Roma.

O capítulo 4, pelo contrário, parece o relato de uma testemunha ocular. Não é inventado, pois há características de cultos da época das gallae e das gala: os rituais de lamentação, [B5] o canto [B4] com vozes agudas [B1] e flautas [C2], o uso de roupas femininas [C1], cuidado da pele [B4] e dos cabelos, que eram descoloridos [C1], os romanos não as consideravam homens [C4] nem mulheres [C5], mas tinham papel e aparência feminina [C5].

Considero plausível a tese de que esse capítulo é sobre as gallae que adoravam Atargatis (Forbes, p. 150), mas há detalhes que não se encaixam bem. Atargatis era associada ao mar, não ao ar, e era muito associada a Reia ou Cibele (Lucker, p. 30), o que provavelmente levaria Fírmico associar essas sacerdotisas às gallae. Símbolos muito associados às gallae estão ausentes (Átis, tímpano, leões, natureza, coroa com torres – Lucker, p. 31) e não há menção a frenesi ou barulho.

Clarence Forbes defende também que a deusa associada a Juno era Tanit, uma deusa dos povos púnicos do Norte da África conhecida como Juno Caelestis (p. 150). Tanit era associada a Astarte, a versão grega de Inanna.



As gala de Inanna

Inanna, adorada pelas sacerdotisas gala ou gala-tur, era a principal divindade da Suméria desde pelo menos o quarto milênio AEC, quando ainda era matrilinear. Inanna era conhecida como Rainha do Céu e manteve sua importância mesmo após a transição ao patriarcado (entre 3000 e 2000 AEC, quando, por exemplo, as cidades passaram a ser governadas por reis).

Reproduzo uma tese de Collins (p. 110-1). Os povos semíticos que habitavam a Suméria cultuavam duas divindades: Ishtar (derivado de Attar, nome masculino que designava a Estrela D’Álva), e Ashtart (derivado de Attart, nome feminino que designava a Estrela Vésper). Como ambas estrelas são duas formas do planeta Vênus, as duas divindades eram associadas, causando ambiguidade de gênero. No século 23 AEC, Ishtar e Ashtart foram identificadas com Inanna, tornando-se uma deusa.

As gala de Inanna/Ishtar difundiram-se pela Mesopotâmia (região entre os rios Eufrates e Tigre, onde ficavam Suméria, Assíria, Acádia e Babilônia – os romanos chamavam toda a região de Assíria). Em acadiano, gala (ou gala-tur) era pronunciado como kalu (ou kalaturru) (Lucker, p. 22, 69) e assim eram conhecidas na Assíria (Gabbay, p. 116).

O livro Matheseos de Fírmico Materno é texto mais extenso sobre astrologia romana que se tem conhecimento e é baseado em astrologia egípcia e babilônica. Então é lógico que ele conheceria Ishtar, a principal deusa da Mesopotâmia.

Se a Vênus do capítulo 4 era Ishtar, a ridicularização da “Virgem Vênus” [A2] era uma polêmica com as cristãs que associavam Ishtar com a Virgem Maria e que transformaram os poemas que retratavam a agonia Ishtar pela morte de Tammuz em lamentos da Virgem Maria pela morte de seu filho.

Ao falar em incesto [A3], Fírmico pressupõe que Juno e Júpiter, adoradas por essas sacerdotisas, são as mesmas divindades romanas. As divindades associadas a Juno e Júpiter, na Mesopotâmia, eram Antu e An e, nos povos púnicos, Tanit e Baal-Hamon. Em ambos os casos, eram consortes, não irmã e irmão. Essa confusão era comum devido a séculos de sincretismo religioso romano.



A explicação mais simples

Ishtar era conhecida por ser capaz de transformar homens em mulheres e mulheres em homens (Lucker, p. 52). As crenças religiosas não existem no vácuo, elas são parte da vida social (Lucker, p. 72-3). Há, por exemplo, um texto relatando um ritual de iniciação de um kurgarru (uma mulher que se transforma num homem) e de uma pili-pili (um homem que se transforma numa mulher) (Lucker, p. 20-1).

Se, conforme a crença, Inanna tinha o poder de transformar o gênero das pessoas e isso se expressava em rituais religiosos, é de se esperar que o ritual de iniciação das gala (ou de uma parte delas) as transformasse em mulheres. Elas desempenhavam um papel feminino, uma função religiosa feminina, cantavam lamentos em eme-sal, um dialeto feminino, e uma parte delas adotavam nomes femininos (Lucker, p. 21, 51-2).

Era dissimilar à época um cristão romano afirmar que sacerdotisas transgênero eram não-homens [C3,C4], e que elas “querem que se acredite que são mulheres” [C5]. Fírmico está embaraçado de ter de afirmar isso. Se ele o diz, é porque era necessário polemizar. Seria uma polêmica com ninguém?

Podemos fazer uma interpretação improvável para a estranha escolha de palavras. Assim como é possível dar centenas de explicações distintas a centenas de evidências, o que faríamos desejássemos sustentar o dogma que todas as pessoas da Antiguidade eram cisgênero.

Há uma explicação mais simples e racional. Fírmico está polemizando com crenças populares de sua época (Oster, p. i). Faz sentido que fosse relativamente popular considerar as gala de Inanna (ou uma parte delas) como mulheres. Logicamente, isso significa que elas (ou uma parte delas) se consideravam mulheres. Se o critério de dissimilaridade tem algum valor como argumento histórico, é difícil encontrar melhor exemplo que um cristão ter de admitir, em pleno patriarcado romano, que se acreditava que as sacerdotisas transgênero da Assíria e do norte da África eram mulheres.

E o mais curioso: o livro é escrito num contexto de polêmicas dentro do cristianismo.



Referências

[1] Oster Jr., Richard E, 1971. Julius Firmicus Maternus: De Errore Profanarum Religionum. Introduction, Translation And Commentary. Houston, Texas: Rice University. Acessado em 29/12/2020. Disponível em: https://scholarship.rice.edu/bitstream/handle/1911/89943/RICE0978.pdf

[2] Forbes, Clarence A., 1970. Firmicus Maternus: the error of the pagan religions. New York, NY: Newman Press. Acessado em 29/12/2020. Disponível em: https://archive.org/details/firmicus-maternus/page/49/mode/2up

[3] Firmici Materni V.C., Iulij, 1562. De Errore Profanarum Religionum Ad Constantium & Constantem Augustos Liber: Nunquam Antehac In Lucem Editus. Matthias Flacius Illyricus. Apud Paulum Machaeropoeum: Argentina. Acessado em 31/12/2020. Disponível em: http://access.bl.uk/item/viewer/ark:/81055/vdc_100031064402.0x000001#?c=0&m=0&s=0&cv=26&xywh=-52%2C-1%2C2552%2C1824

[4] Lucker, K. A, 2005. The Gallae: Transgender Priests Of Ancient Greece, Rome, And The Near East. Bacharel Thesis. Sarasota: New College of Florida. Acessado em 22/12/2020. Disponível em: https://s3.amazonaws.com/arena-attachments/539632/d6348aa09f4510eb5704b6da501f9e7d.pdf

[5] Martin, Dale B., 2009. The Greco-Roman World [vídeo]. Acessado em 22/12/2020. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Ecpn3bkVvv0&list=PL279CFA55C51E75E0&index=3

[6] Collins, P., 1994. The Sumerian Goddess Inanna (3400-2200 BC). Papers from the Institute of Archaeology, 5, pp.103–118. Acessado em 31/12/2020. Disponível em: http://doi.org/10.5334/pia.57

[7] https://www.academia.edu/10083707/The_kalu_Priest_and_kalutu_Literature_in_Assyria_Orient_49_2014_

sexta-feira, 23 de abril de 2021

Não foram os aliens – um debate sobre o conhecimento de sociedades antigas

 De acordo com o conhecimento atual, há seis regiões consideradas “berços da civilização”: Mesopotâmia (atual Iraque), Egito, China, Mesoamérica (povo maia), Vale do Indo (atual Paquistão e norte da Índia) e Peru (povos andinos) [1]. Isso porque, de maneira mais ou menos independente e em diferentes épocas, povos dessas regiões inventaram a agricultura e a escrita. Alguns “estudiosos” afirmam que o “avançado conhecimento” dessas sociedades (em matemática, astronomia, engenharia, etc) só se explica com a “ajuda dos aliens”. Será que elas não eram “inteligentes o bastante” para desenvolver seu próprio conhecimento?

Este texto não é uma crítica ao estudo da História e da elaboração de interpretações diversas. Minha crítica é à forma como isso é feito e com os pressupostos implícitos nessas teorias que são preconceituosos em relação aos povos não-europeus.

A discussão deste texto é sobre formas de conhecimento que pressupõem a invenção da escrita, mas há formas de conhecimento das sociedades áglifas (sem escrita) e que estão ausentes na nossa. Os maiores problemas existentes na sociedade capitalista – acumulação descontrolada de capital, exploração do trabalho, descontrole do poder político, desigualdade social, destruição dos recursos naturais, individualismo e desrespeito à coletividade, etc – são causados pela ausência de conhecimentos que são comuns em sociedades áglifas.



O racismo velado

Note que os povos dessas regiões eram não-europeus. A partir de uma visão de mundo eurocêntrica de mundo, pressupõe-se que todas as grandes descobertas só poderiam ter acontecido na Europa. Parece espantoso, talvez assustador, considerar que, na Antiguidade, as civilizações europeias se desenvolveram de forma tardia.

Na verdade, a Antiga Suméria (sul da Mesopotâmia) e o Egito se desenvolveram de maneira relativamente rápida. Formou-se uma rota comercial da Suméria ao Egito na chamada Crescente Fértil, o que favoreceu a disseminação dos saberes, levando ao surgimento de civilizações ao longo dessa rota, que se desenvolveram de maneira desigual e combinada. Os povos europeus não precisaram ‘reinventar’ essas tecnologias porque tinham com quem aprender.



Sociedades que nos parecem estranhas

Nós, que fomos criadas numa cultura europeia, temos bastante contato com as antigas Roma e Grécia. Nas aulas de História. Na nossa língua, que é latina e com muitas palavras de origem grega. Na arte, no direito, na “democracia”.

Por outro lado, raramente temos contato com os povos considerados berços da civilização. Seus valores, histórias, religiões e culturas nos parecem estranhas, esquisitas, bizarras – como se viessem de outro mundo.

Isso é um prato cheio para os pseudo-historiadores. Há muitas histórias que eles podem ‘traduzir’ e ‘interpretar’ de maneira forçada para ‘provar’ suas teses. Se os alienólogos defendessem que os anjos na Bíblia eram alienígenas e Iavé era o seu líder, não teriam tanta audiência. Tem mais apelo dizer que os Annunaki eram alienígenas e que Anu era seu líder – porque quase ninguém conhece as histórias da Suméria.



Agricultura, cidade, escrita, matemática

Para que a agricultura seja inventada, as únicas condições absolutamente necessárias são os recursos naturais (água, terra fértil, sementes) e a racionalidade humana. Ambas as condições já existiam, há dezenas de milhares de anos, em todo o globo – daí a razão de sua invenção por diversos povos, em locais e épocas distintas. [2] Esta permitiu que povos antes nômades formassem assentamentos que, em alguns casos, cresceram e se tornaram cidades. [3] A contabilidade necessária para lidar com a logística da produção e das relações comerciais favoreceu o surgimento da escrita por volta de 3.000 AEC. [4]

Esses povos passaram milhares de anos fazendo contas, logicamente ficaram muito bons nisso. Não à toa, a Matemática Babilônica é bastante conhecida por sua forte aritmética e pelas várias tabelas que utilizavam para fazer contas e resolver variados tipos de problema. Por exemplo, na Babilônia, já se conhecia:

  • O método da diagonal (ou “Teorema de Pitágoras”) 1.000 anos antes de Pitágoras; [5]

  • O método da raiz (ou “Método de Heron”) 1.500 anos antes de Heron; [6]

  • A raiz de 2, com 3 dígitos sexagesimais (ou 5 dígitos decimais); [7]

  • Resolução de “equações quadráticas” 2.500 anos antes de Bháskara; [8]

  • Resolução de alguns tipos de “equações cúbicas”; [9]

  • Um tipo do método do trapezóide 1.400 anos antes do mesmo ser (re)descoberto na Europa; [10]

  • Uma tabela trigonométrica 1.000 anos antes de Hipparchus. [11]



As pirâmides do Egito e a tecnologia egípcia

Comparativamente ao mesopotâmico, o povo egípcio tinha maior acesso a recursos minerais. Isso os permitiu desenvolver diversas ferramentas, possibilitando construções cada vez mais complexas, como as famosas pirâmides. Sem dúvida, são impressionantes, ainda mais considerando a época em que foram construídas. Eu, por exemplo, nunca estudei engenharia, então não sei como eram feitas. Mas é lógico que no Egito Antigo havia especialistas com conhecimento muito maior que o meu para encontrar soluções que, do meu ponto de vista, parecem impossíveis.

De fato, há evidências históricas de algumas soluções engenhosas. Uma delas é sobre o transporte de enormes estátuas de pedra pelo deserto – há pinturas que mostram estátuas sobre trenós de madeira sendo transportadas enquanto alguém derrama água à frente dos trenós. Cientistas, a partir de experiências, verificaram que isso facilita o transporte de objetos pesados sobre a areia. [12]

Há o lado negativo, como mostra a pintura: centenas ou milhares de pessoas escravizadas. É lógico que, se o povo egípcio tivesse uma tecnologia alienígena para transportar as enormes estátuas, isso não seria necessário.

Um estudo de Akyo Kato apresenta uma teoria factível sobre o processo de construção da Grande Pirâmide de Giza. A maioria das pedras (internas) eram cortadas em formato octagonal, o que facilitaria seu transporte (eram roladas). Os pedaços removidos formavam prismas trapezoidais que seriam utilizados para rolar as pedras cúbicas da parte externa. Um sistema de polias (encontrados em estudos anteriores) seria utilizado para construir um tipo de elevador, com a ajuda de contrapesos para levantar as pedras aos níveis mais altos. [13]



Milhares de anos de História

Sintetizar milênios de História em um texto deste tipo é bastante difícil e falar de todas as sociedades que são utilizadas nas teorias dos alienólogos seria impossível. O enfoque desse texto (no Egito e na Mesopotâmia) não é o único possível, e talvez não seja o melhor. De qualquer forma, espero que esse texto ajude a mostrar quantos diversos povos da antiguidade tinham avançados conhecimentos em diversas áreas – e que não precisamos de alienígenas para explicar essa inteligência.



Notas

[1] https://mapscaping.com/blogs/geo-candy/mapped-the-6-cradles-of-civilization

[2] Algumas condições ambientais (como a escassez de fontes naturais de alimentos) ajudam a explicar a invenção da agricultura em alguns casos. No entanto, essa não é condição absoluta – o povo maia, por exemplo, inventou a agricultura vivendo em uma floresta.

[3] https://www.nationalgeographic.org/article/development-agriculture/

[4] No período de 3.500 a 3.000 AEC, aparecem tablets de argila com pictogramas (pequenos desenhos) e marcas dos tokens que representavam números. Em cerca de 3.000 AEC, os sinais passaram a ser utilizados para representar sons (como sílabas) para formar nomes, o que originou a escrita. Recomendo a explicação de Irving Finkel sobre a escrita cuneiforme e sua decifração:

https://www.youtube.com/watch?v=PfYYraMgiBA

[5] O método da diagonal aparece em alguns problemas envolvendo largura, altura e diagonal de retângulos. O conceito ‘teorema’ não existia na Babilônia, mas o procedimento de resolução dos problemas é matematicamente equivalente ao Teorema de Pitágoras. Alguns exemplos:

https://mathshistory.st-andrews.ac.uk/HistTopics/Babylonian_Pythagoras/

[6] O método da raiz, utilizado para calcular aproximadamente a raiz de um número, aparece em problemas didáticos sobre calcular uma raiz ou envolvendo o método da diagonal, que são citados no artigo em [11].

[7] Numa lista de constantes, há uma linha com a frase “a diagonal do quadrado é 1;24.51.10”. Essa é a melhor aproximação possível de √2 com três dígitos sexagesimais. O mesmo valor num cálculo para encontrar a diagonal de um quadrado de lado 30 – que dá 42;25.35. Como não havia vírgula sexagesimal na Babilônia, então é possível interpretar isso como 1/√2, que, em base sexagesimal, é 0;42.25.35.

https://arxiv.org/ftp/arxiv/papers/1305/1305.0865.pdf

https://www.maa.org/press/periodicals/convergence/the-best-known-old-babylonian-tablet

[8] Não havia, na Babilônia, o conceito ‘equação’. Mas há resolução de problemas sobre encontrar um retângulo dada sua área e a diferença (ou soma) entre a largura e a altura – isso, na ponta do lápis, dá uma equação quadrática.

https://mathshistory.st-andrews.ac.uk/HistTopics/Babylonian_mathematics/

[9] Há problemas resolvidos sobre descobrir as dimensões de um poço a partir do volume de terra removida e relações entre largura, altura e profundidade do poço – isso dá um tipo de equação cúbica. Não há evidências de resolução de uma equação cúbica no caso geral.

https://arxiv.org/ftp/arxiv/papers/1905/1905.08034.pdf

[10] O assiriólogo Mathieu Ossendrijver traduziu um texto encontrado recentemente que contém um procedimento de cálculo em Matemática Astronômica Babilônica. O procedimento tinha como objetivo prever a posição da estrela Júpiter no céu ao longo de 60 dias, a contar do dia em que ela aparece como Estrela da Manhã. Isso envolve o cálculo da área de um trapézio.

https://phys.org/news/2016-01-babylonian-astronomers-position-jupiter-geometric.html

[11] Trata-se de uma complicada tabela chamada Plimpton 322. Existem divergências, porque só temos uma parte dela (ela se quebrou e o lado esquerdo se perdeu), além de danos e de alguns erros (de cálculo e de cópia). Só sobrou uma parte da tabela (ela se quebrou e o lado esquerdo se perdeu), além de danos e de alguns erros (de cálculo e de cópia). Como não sabemos quantas colunas na parte esquerda, convencionou-se numerar as colunas I’, II’, III’ e IV’. Chegou-se a um consenso de que a tabela contém medidas de retângulos (ou, equivalentemente, de triângulos retângulos), a divergência é sobre as colunas que existiam à esquerda, o procedimento para criar a tabela e sua utilidade prática.

A melhor explicação é do estudo de Mansfield e Wildbeger, no link abaixo. Seria uma tabela trigonométrica, ou “retangulométrica”, pois contém medidas de retângulos normalizados (com comprimento 1). Haveria mais duas colunas à esquerda: uma com a base e outra com a diagonal, ambas em ordem decrescente. A coluna I’ seria a terceira, com o quadrado da diagonal, o que explica seu rótulo: “o quadrado da diagonal do qual se subtrai 1 para obter o (quadrado) da base”. As colunas II’ e III’ são escalonadas para formar números inteiros, daí o sentido dos rótulos: “resultado da base” e “resultado da diagonal”.

Portanto, seria uma tabela criada para lidar com problemas envolvendo retângulos (ou triângulos retângulos). Isso é possível, pois na Babilônia havia a noção de semelhança de retângulos (e de triângulos). Essa a teoria que melhor se encaixa nos conceitos e convenções da matemática babilônica e que melhor explica a ordem das linhas e a utilidade da tabela.

Eu diria mais: é a única teoria que se encaixa na matemática babilônica.

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0315086017300691

[12] http://g1.globo.com/mundo/noticia/2014/05/cientistas-explicam-tecnica-de-egipcios-para-construir-piramides.html

http://www.sci-news.com/physics/science-ancient-egyptians-wet-sand-01894.html

[13] A apresentação detalhada encontra-se aqui:

https://www.researchgate.net/publication/338315897_How_They_Moved_and_Lifted_Heavy_Stones_to_Build_the_Great_Pyramid