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quinta-feira, 20 de maio de 2021

Sobre o regime de apartheid israelense

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Foto: Na pintura "Santa's Ghetto" ("Gueto do Papai Noel"), do artista Bansky, Maria e José estavam a caminho de Belém, mas seu caminho foi bloqueado por uma muralha de cimento.


Muitas pessoas acreditam que “Israel é a única democracia do Oriente Médio” e que “respeita os direitos humanos”. Vejo essas ideias surgirem, por exemplo, em discussões nas redes sociais e até misturadas com notícias que são sobre alguma pessoa LGBTQIA+ israelense. Na contramão disso, cada vez mais instituições (como a Human Rights Watch [1], a instituição israelense B’Tselem [2] e o Conselho de Direitos Humanos da ONU [3]) estão reconhecendo que Israel está sob um regime de apartheid. É verdade que existem leis em Israel que reconhecem direitos LGBTQIA+ e isso é uma boa notícia, mas não se pode utilizar isso para defender que Israel é uma democracia e que respeita os direitos humanos – porque isso não é verdade.

Por outro lado, muitas vezes essas discussões recaem numa responsabilização individual das pessoas israelenses que aparecem nas notícias, como se cada uma delas pudesse ser classificada como corresponsável pela limpeza étnica ou pelo regime de apartheid. Essa ideia, no limite, segue uma lógica individualista. Pessoas que vivem e/ou trabalham em um país não podem ser responsabilizadas pelos crimes cometidos pelos governos.

Essa confusão não é à toa: afinal, muitas notícias que, a princípio, são sobre judeus israelenses comuns são utilizadas para reproduzir uma propaganda estatal israelense.



Não confunda alhos com bugalhos

Muitas pessoas dizem que denunciar o regime de apartheid em Israel é uma forma de preconceito contra judeus. Em nenhuma hipótese afirmar que um Estado é antidemocrático pode ser confundido como uma acusação contra o povo que vive no país que é controlado por esse Estado. Povo é povo, Estado é Estado.



O que é B’Tselem?

Em 1987, ocorreram uma série de protestos palestinos conhecidos como a Primeira Intifada. Cerca de 80 mil soldados foram enviados para reprimir os protestos, militarizando a repressão ao movimento e causando um massacre. Entre o início dos protestos até meados 28 de setembro de 2000, ao todo, 1.972 pessoas foram mortas, sendo 1.551 palestinas, 271 cidadãs israelenses e 150 membros do exército israelense. Do total, 322 eram menores de 17 anos. [4]

Diante da escalada de violência, um grupo de pessoas israelenses (na maioria advogados, doutores e acadêmicos) fundou a ONG B’Tselem em 1989 com o objetivo de documentar as violações de direitos humanos nos territórios militarmente ocupados por Israel. O nome da organização, “B’Tselem”, significa “à sua imagem” em hebraico e é uma alusão a Gênesis 1:27, que diz que Deus criou o ser humano à sua imagem. [5]

Inicialmente, a B’Tselem enviava denúncias às Forças de Defesa de Israel (IDF). Em 2016, no entanto, o grupo desistiu dessa política, pois as IDF simplesmente ignoravam as cartas. [6]



O que é um apartheid?

B’Tselem criou uma apresentação ilustrada (com versões em hebraico, inglês e árabe), explicando, de maneira didática, por que consideram que Israel está sob um apartheid. [7]

Hoje, existem cerca de 4,6 milhões de pessoas que vivem nos territórios militarmente ocupados pelo exército israelense e que não têm cidadania reconhecida, nem direitos civis, religiosos ou políticos. Essa situação é oficialmente considerada temporária, o que não condiz com os fatos, pois “essa realidade ‘temporária’ persiste há mais de 50 anos” (p. 2).

O apartheid israelense se consolidou dividindo o povo palestino em 4 grupos. É a velha estratégia conhecida como “dividir e conquistar”.

  1. Palestinos com cidadania, oficialmente chamados “árabes israelenses”: cerca de 1,6 milhão de pessoas que têm certos direitos civis – mas não os mesmos direitos que cidadãos judeus. (p. 4)

  2. Palestinos de Jerusalém Oriental, que foi oficialmente anexada ao território soberano de Israel. Cerca de 350 mil pessoas que têm os direitos civis dos “árabes israelenses”, exceto o direito a votar em eleições nacionais. Seus direitos, no entanto, podem legalmente ser revogados a qualquer momento. (p. 5)

  3. Palestinos da Cisjordânia. Cerca de 2,6 milhões de pessoas vivendo em dezenas de enclaves desconexos murados e fortemente vigiados pelo exército israelense, sem cidadania nem direitos – nem mesmo o de sair de um enclave para entrar em outro. (p. 6, 14)

  4. Palestinos da Faixa de Gaza. Cerca de 2,0 milhões de pessoas sem cidadania nem direitos. Desde 2007, “Israel têm mantido Gaza sob bloqueio enquanto controla, de fora, quase todos os aspectos da vida.” (p. 7)

“Em cada uma dessas unidades territoriais, Israel decide quais direitos conceder aos palestinos. Em nenhum deles eles têm os mesmos direitos que os judeus.” (p. 8)

Na verdade, existe também um quinto grupo que B’Tselem não cita: palestinos refugiados ou descendentes de refugiados que vivem nos países vizinhos sem cidadania reconhecida. Isso porque, desde a Primeira Guerra Árabe-Israelense em 1948, centenas de milhares de pessoas que viviam no atual território israelense foram expulsas de suas casas pelo exército israelense – para que fosse possível criar “um país para o povo judeu”.

Esses países vizinhos, de maioria islâmica, e Israel têm muitos conflitos políticos, mas nenhum deles está disposto a reconhecer a cidadania dos palestinos refugiados.



É impossível negar os fatos – seria possível justificá-los?

Os fatos acima citados preencher todos os requisitos da definição de apartheid. Muitas pessoas negam que Israel seja um apartheid, mas não negam os fatos acima listados, pelo contrário: tentam justificá-los. Se uma pessoa cria justificativas para um apartheid, isso não faz com que o apartheid deixe de ser um apartheid. Só quem tem um coração de pedra tem coragem de inventar justificativas para um apartheid.



Sobre a geopolítica de colonização

Desde 1918, quando o território era conhecido como Mandato Britânico da Palestina, centenas de milhares de pessoas judias imigraram para a região, fugindo do racismo antissemita ou da intolerância religiosa, da perseguição nazista ou stalinista, ou buscando de melhores condições de vida, ou por motivação religiosa, etc.

É lógico que essa colonização foi realizada a partir de políticas nefastas da ONU, dos governos do Reino Unido, dos Estados Unidos e de Israel. Só para dar um exemplo: em 1947, a ONU votou um plano de partilha do Mandato Britânico da Palestina, no qual a maior parte do território ficaria com Israel. Ora, até então, as pessoas judias eram minoria (cerca de 1/3 da população total) e ocupavam uma pequena fração do território. Qualquer pessoa sensata imaginaria o resultado disso – uma guerra civil. Os líderes da ONU não era estúpidos, portanto a guerra civil era parte do plano.

Pelo menos no que tange aos Estados que dominavam a ONU, seu principal objetivo era estabelecer, num local estratégico (o Oriente Médio), um Estado que fosse aliado dos EUA na Guerra Fria.

No entanto, é incorreto colocar um sinal de igual entre a geopolítica e as pessoas que imigram. Estados são Estados, pessoas são pessoas.



Ninguém pode se libertar oprimindo o outro

A propaganda estatal, em qualquer lugar do mundo, é uma poderosa ferramenta de persuasão, que leva inúmeras pessoas a acreditarem em coisas absurdas. Mas qualquer propaganda baseada numa falsidade, por mais poderosa que seja, nunca é absoluta.

Uma pesquisa da B’Tselem deste ano (2021) aponta que 45% da população (75% entre palestinos e 25% entre judeus israelenses) considera que a definição de apartheid se aplica ao regime israelense. [8] Apenas 13% da população (12% palestinos, 14% judeus israelenses) acredita que o governo tem intenção de reconhecer a independência do Estado Palestino.

Comparado a pesquisas anteriores, o apoio à manutenção dos enclaves e da não-cidadania no território palestino caiu de 47% em 2017 para 40% em 2018 e 37% em 2021 (entre cidadãos israelenses – sejam judeus ou palestinos). A aceitação de palestinos como “atores políticos legítimos” cresceu de 35% em 2019 para 49% em 2012 (entre judeus israelenses).

A B’Tselem é a prova viva de que é possível disputar a consciência, inclusive, dos judeus israelenses. Suas denúncias não são novas – organizações palestinas já as fazem há décadas. Tudo que a B’Tselem fez foi explicar ao povo judeu o que o povo palestino já sabia. No fim das contas, tanto para os palestinos quanto para os judeus israelenses, a principal tarefa política é justamente essa: derrubar os Muros da Palestina!



Notas

[1] https://www.theguardian.com/world/2021/apr/27/israel-committing-crime-apartheid-human-rights-watch

[2] https://www.btselem.org/topic/apartheid

[3] https://www.un.org/unispal/wp-content/uploads/2020/06/AHRC43NGO185.pdf

[4] https://www.btselem.org/statistics/first_intifada_tables

[5] https://www.btselem.org/about_btselem

[6] https://www.jpost.com/Israel-News/BTselem-cuts-ties-with-IDF-over-whitewashing-454951

[7] https://thisisapartheid.btselem.org/eng

[8] https://books.google.com.br/books?id=uM_kFX6edX8C&pg=PA602

[9] https://www.btselem.org/press_releases/2021413_new_all_population_israeli_palestinian_survey



sábado, 4 de abril de 2015

Travestis e Transexuais contra o Machismo

[Texto originalmente publicado em http://mulheresemluta.blogspot.com.br/2015/03/movimento-mulheres-em-luta-travestis-e.html]

Nós, do MML, reconhecemos a identidade de gênero. Isso significa não apenas reconhecer que as pessoas pertencem ao gênero com o qual se identificam, mas também reconhecer que as pessoas trans são vítimas do mesmo machismo que atinge a todas as mulheres, ainda que de formas distintas. Infelizmente, como nossa sociedade ainda não aceita a existência das pessoas trans, ainda existe muita confusão com respeito a esse tema. Para podermos avançar na luta contra o machismo, essa confusão precisa ser desfeita.

O desafio de ser uma travesti ou uma pessoa transexual começa desde a adolescência. Em suas escolas e também em suas próprias famílias, as pessoas trans não são aceitas e são frequentemente ridicularizadas e agredidas. É muito comum os pais quererem “curar” sua filha ou seu filho, seja impondo um castigo, dando uma “surra” na criança, levando-a para algum “profissional” que promete curá-la, entre outros. Mas a identidade de gênero não é uma doença, não pode ser “curada”. Trata-se simplesmente do que a pessoa é.

Na maioria das vezes, isso faz com que a vida da criança se torne insuportável. Estima-se que 40% das pessoas trans já tentaram cometer suicídio. Muitas delas acabam fugindo ou mesmo sendo expulsas de suas casas. Entretanto, para uma travesti, por exemplo, é muito difícil conseguir um emprego, ainda mais sem ter completado seus estudos. Na maioria das vezes, a única forma de sobrevivência é a prostituição. Cerca de 90% das travestis e das mulheres transexuais se envolve com o mercado sexual e muitas delas são menores de idade. Nas periferias, elas são alvo de violência da população, dos seus clientes e também da polícia. São vítimas de assédios, estupros, agressões e assassinatos. Como consequência, a expectativa de vida de uma travesti ou de uma mulher transexual é de cerca de 35 anos.

Para poder suportar toda a violência a que estão sujeitas na prostituição, a maioria das travestis recorrem a algum tipo de droga, seja legal (como álcool e cigarro) ou ilegal (como maconha e cocaína). Numa sociedade que criminaliza o uso de drogas, isso faz com que elas estejam ainda mais sujeitas à violência policial, inclusive chantagens e assédios. Não é à toa que existem muitas travestis nas prisões.

Muita gente acredita que a maioria das travestis são prostitutas porque são “naturalmente” promíscuas, mas isso acontece porque nossa sociedade não oferece praticamente nenhuma outra opção para elas. Na maioria das vezes, a zona de prostituição é o único lugar em que elas conseguem permanecer e encontrar um grupo de pessoas que as aceitam. Nosso dever é oferecer a nossa solidariedade às travestis assim como a todas as mulheres em situação de prostituição na luta contra toda a violência e a discriminação que sofrem. Por isso, somos a favor de todas as medidas que dão a elas a oportunidade de serem reinseridas na sociedade e no mercado de trabalho formal, inclusive as bolsas de estudos.

Nós também não podemos nos esquecer dos homens transexuais. Os homens transexuais, em especial quando são adolescentes, são vítimas do estupro corretivo, que é um crime cometido com a intenção de “curar” a transexualidade, ou seja, de fazer ele “voltar” a ser mulher. O estupro causa trauma, medo e fragilidade, mas não faz com que um homem transexual deixe de ser um homem.

As pessoas trans são nossas aliadas na luta contra o machismo e a exploração que atinge a nossa classe. 

Nenhum direito a menos, as pessoas trans da classe trabalhadora não vão pagar pela crise!

Mal começou o segundo mandato de Dilma e já foram realizados ataques aos direitos trabalhistas, cortes de verbas para a educação,etc. O governo do PT quer colocar a crise econômica nas costas das trabalhadoras e dos trabalhadores enquanto continua entregando o dinheiro para as empresas e os bancos na forma de “incentivos fiscais” e de pagamento da “dívida pública”.
 
Enquanto isso, o Congresso Nacional está ainda mais reacionário. O Presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, do PMDB, ressuscitou o projeto de lei que cria o “Dia do Orgulho Hétero”, uma provocação nefasta contra todas as pessoas LGBTs. Eduardo Cunha já mostrou que será uma barreira para a aprovação de leis que garantam os direitos básicos das mulheres e das LGBTs e que será contra as medidas de combate à violência homofóbica e transfóbica.
 
Ainda este ano, o PLC 122, projeto de lei que visa criminalizar a homofobia, foi definitivamente arquivado. Enquanto isso, os assassinatos homofóbicos e transfóbicos continuam acontecendo e são marcados com muita violência, sendo que as travestis são as vítimas mais frequentes desses assassinatos. Dilma, que prometeu criminalizar a homofobia durante sua campanha, não pronunciou uma única palavra sobre o assunto.
 
Em uma época de “ajuste fiscal”, o primeiro gasto que o governo vai querer cortar não será o dinheiro que é destinado às empresas e aos bancos, mas sim as políticas criadas para combater a violência e garantir os direitos das minorias, como a Lei Maria da Penha e a lei que criminaliza o feminicídio. Por isso, será necessária muita luta em defesa dos direitos das mulheres, pessoas negras e LGBTs.
 
No último dia 12, foi publicada no Diário Oficial da União uma série de medidas em defesa dos direitos das pessoas trans nos sistemas e nas instituições de ensino. Isso significa que travestis e transexuais poderão requisitar que sejam tratadas exclusivamente pelo nome social (por exemplo, nas listas de chamada, nos processos seletivos e nas avaliações), utilizar o uniforme escolar e o banheiro conforme sua identidade de gênero. A medida também exige que os boletins de ocorrência policial incluam campos para identificar a orientação sexual, a identidade de gênero e a nome social da pessoa atendida.
 
Muitas pessoas têm manifestado dúvidas, em especial com respeito ao uso do banheiro, dizendo que, com essa medida, “meninos” podem passar a usar o banheiro das meninas nas escolas, e vice-versa. Isso não é verdade. Segundo a medida, os banheiros devem ser usados conforme a identidade de gênero. Não é possível que, por exemplo, um menino (que não é trans) se identifique como menina e se sujeite a toda ridiculização e violência que as meninas trans sofrem cotidianamente apenas para conseguir usar o banheiro feminino.
 
Consideramos que essa medida é um avanço para o reconhecimento dos direitos das pessoas trans e para o combate à transfobia nas escolas e universidades. Entretanto, não devemos nos iludir com essa medida. Em vários estados, já existem medidas que, teoricamente, deveriam garantir o direito ao nome social, mas muitas vezes elas não são efetivadas, ou então são efetivadas de forma insatisfatória, através de muita burocracia. Para que a identidade de gênero seja reconhecida nas instituições, é preciso treinar as professoras e professores, funcionárias e funcionários da instituição. Também teremos que enfrentar muita resistência por parte das instituições, das diretorias e reitorias. Por isso, será ainda necessária muita luta para que essas medidas sejam realmente efetivadas.
 
Além disso, essa medida foi implantada justamente porque gera poucos gastos para o governo. Entretanto, para que a identidade de gênero das pessoas trans seja de fato reconhecida, é necessário que o nome social e o sexo possam ser alterados no registro civil e que os tratamentos que essas pessoas demandam (como terapia hormonal, acompanhamento psicológico e cirurgias) sejam garantidos gratuitamente pelo sistema público de saúde. Ou seja, é necessário aprovar uma Lei de Identidade de Gênero, como a Lei João Nery. Mas a aprovação dessa lei por esse congresso reacionário é improvável, ainda mais em uma época em que o governo está realizando cortes de “gastos”. Isso significa que devemos estar ao lado das pessoas trans na luta pela aprovação desta lei e para que a crise não caia sobre os ombros das travestis da periferia, das pessoas transexuais e de todas as pessoas trans da nossa classe, mas sim que os ricos paguem pela crise.

quinta-feira, 2 de abril de 2015

29 de janeiro: Dia da Visibilidade Trans

Que opção resta para a grande maioria das pessoas trans? Se elas são expulsas dos espaços públicos, do mercado de trabalho e até de suas casas, onde elas conseguem ficar? É por esse motivo que cerca de 90% das pessoas trans (na grande maioria, travestis) vivem na periferia, sobrevivem a partir da prostituição, na maioria das vezes desde a adolescência. Isso significa que elas, desde cedo, têm que se adequar a condições bastante precárias: realizar vários programas a um baixo custo, entregar uma boa parte à cafetina ou ao cafetão, submeter-se a situações de constrangimento e de agressão, etc. De outra forma, não há como sobreviver.

Texto (de minha autoria) publicado em http://www.pstu.org.br/node/21267

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Não cortem as nossas "picas"! (Transfobia nos banheiros da Unicamp)

A transfobia, uma ideologia arcaica e estúpida, continua a se manifestar com muita força na nossa sociedade e são reproduzidas pelo Estado, pela Ciência e pelos movimentos que lutam contra as opressões, sejam feministas, LGBTs ou negros. Por conta disso, não somos bem-vindas em quase nenhum lugar da sociedade. Inclusive nos banheiros femininos da Unicamp.

Quem fizer uma visita a um dos banheiros femininos do PB ou do IFCH pode acabar se deparando com as pichações dessas imagens que estão espalhadas pelo texto. Dentre as prováveis milhares de mulheres que usam esses banheiros todos os dias, o fato de haverem 4 mulheres trans que os utilizam (entre mulheres transexuais e travestis) ocasionalmente incomodou a tal ponto de aparecerem 5 pichações retratando-nos como "machos" e fazendo apologia à violência.

A travestifobia no Diário Oficial da União

Vamos analisar uma nota publicada no Diário Oficial da União no dia 17 de abril deste ano. Nele, se encontram as seguintes definições:
IV - Travestis: pessoas que pertencem ao sexo masculino na dimensão fisiológica, mas que socialmente se apresentam no gênero feminino, sem rejeitar o sexo biológico; e

V - Transexuais: pessoas que são psicologicamente de um sexo e anatomicamente de outro, rejeitando o próprio órgão sexual biológico.
Essa diferença entre a travesti, aquela que (teoricamente) "não rejeita o órgão sexual", e a mulher transexual, que (teoricamente) "rejeita o órgão sexual", é utilizada para manter uma desigualdade social entre travestis e transexuais nos parágrafos seguintes:
Art. 3º Às travestis e aos gays privados de liberdade em unidades prisionais masculinas, considerando a sua segurança e especial vulnerabilidade, deverão ser oferecidos espaços de vivência específicos.

[...]

Art. 4º As pessoas transexuais masculinas e femininas devem ser encaminhadas para as unidades prisionais femininas.

Parágrafo único. Às mulheres transexuais deverá ser garantido tratamento isonômico ao das demais mulheres em privação de liberdade.
Na prática, nas prisões masculinas, são criadas alas exclusivas para LGBTs que são ocupadas na grande maioria por travestis.

Por que essa diferença de tratamento entre as mulheres transexuais e as travestis? Por que isolar e segregar as travestis a tal ponto? Qual é o crime que nós cometemos? Querem que nossa "pica" seja cortada!

Essa medida do D.O.U. foi uma síntese de diversas medidas feitas em diversos presídios ao redor do país após várias reivindicações dos movimentos LGBTs diante vários casos de agressão de travestis e transexuais nas prisões masculinas (imagine uma travesti sendo estuprada por 20 homens).

É preciso observar que há muitas travestis nas prisões. Na Unicamp existem cerca de 40 mil estudantes e 7 pessoas trans. No Presídio Central de Porto Alegre, existem cerca de 4 mil presos. Na ala exclusiva para LGBTs, existem 36 pessoas, 32 das quais são travestis! Uma travesti para cada 125 presos! Se a proporção de pessoas trans estudando na Unicamp fosse a mesma, seríamos 320 trans! E se centenas de travestis estivessem estudando na Unicamp, o que aconteceria com elas? Teriam suas "picas" cortadas à força? Seriam expulsas dos banheiros femininos para serem vítimas de assédio e possivelmente estupros nos banheiros masculinos? Seriam excluídas e marginalizadas em um "banheiro unissex", de maneira similar à medida travestifóbica no D.O.U.?

O que diz a "objetividade científica" sobre o "transexualismo" e o "travestismo"

O documentário Meu Eu Secreto apresenta a história de 4 crianças trans. Ele é bastante instrutivo por dois motivos: primeiro, porque escancara a transfobia da sociedade e, segundo, porque também escancara a estupidez de seus próprios idealizadores.

Uma das meninas dizia insistentemente para sua mãe e para seu pai: "Eu sou uma menina", ao que elas respondiam: "Não, você é um menino, veja, você tem pipi". A insistência delas é tanta que essa menina eventualmente é encontrada com uma tesoura na mão, com a qual ela tentava remover seu próprio pênis. Diante disso, elas afirmam: "Há alguma coisa errada com essa criança". Depois, chegam à conclusão que o problema é que a criança "padece" de "distúrbio de identidade de gênero".

De onde vem essa "brilhante" conclusão? De um livro de piadas? Não, de um livro de psiquiatria! E a mesma merda está escrita no site do Drauzio Varella!

Apesar de ser óbvio que a criança passou a rejeitar a genitália após ter sido incessantemente dito para ela que ela era menino "porque tinha um pipi" e apesar da nossa sociedade ensinar para absolutamente todas as crianças que o gênero é definido pela genitália, a nossa "ciência" continua a produzir infindáveis e "rigorosos" artigos científicos baseados na ideologia arcaica que reduz o gênero a uma concepção binária definida pela genitália! Esta concepção continua a ser afirmada e reafirmada com base em "evidências" encontradas em diversos países... todos capitalistas.

Entretanto, duas coisas essa "ciência" é incapaz de responder: por que existem tantas sociedades não-capitalistas (por exemplo, indígenas, africanas, aborígenes) que aceitam a existência de mais de dois gêneros, respeitam a identidade de gênero, e em algumas delas inclusive não existe nenhum tipo de mutilação genital ou castração? E com qual critério objetivo se define que identidade de gênero seja um distúrbio?

O que nos mostram as sociedades "primitivas"?

Existem centenas (talvez milhares) de sociedades que admitem social e culturalmente a existência de um terceiro gênero, talvez até quarto ou quinto. Para o horror da "ciência" e daquelas que fizeram essas pichações, tais sociedades estão espalhadas pelo mundo todo! Para muitas delas, identidade de gênero não é distúrbio nem doença, mas pura e simplesmente uma característica humana.

Na verdade, onde existe o (cis)gênero, também existe o transgênero, mesmo que as sociedades em que ele existe não admitam este fato.

Apresento como exemplo a tribo norte-americana Zuni, uma tribo matrilinear, ou seja, onde as mulheres encabeçam as famílias. Em um estudo feito na década de 1950, por exemplo, quando aos garotos era perguntado quem eles gostariam de ser se eles pudessem se transformar em outras pessoas, um a cada 10 respondeu que deseja ser como a mãe ou uma irmã (não era observado o fenômeno inverso entre as meninas). Ou seja, as mulheres zunis têm bastante prestígio.

O caso de Nancy, da tribo Zuni, é resumido neste texto, do qual reproduzirei alguns trechos (com grifos meus):
Nancy, que nasceu no sexo feminino [female] (sic) mas que se comportava à maneira dos homens, é brevemente mencionado pelo antropólogo Elsie Clews Parsons em sua pesquisa de campo conduzida na década de 1910. Pouco é conhecido sobre Nancy a não ser sua preferência a uma identidade mais masculina e a aceitação que Nancy recebeu de sua comunidade. Nancy era um(a) lhamana zuni [...] que era, por brincadeira, chamada de katsotsi, uma mulher masculina, variação de otsotsi ou "masculino".

Lhamana pode performar uma combinação de traços de gênero em vez de aderir a um ou outro. Em termos de lhamanas do sexo masculino [male lhamana], o indivíduo será frequentemente citado em terceira pessoa como uma mulher, mas ainda assim reconhecido como do sexo masculino, como era o caso de We'wha. Por outro lado, Nancy aparentemente era citada como "ela" e "dela", mas ainda assim vista como uma katsotsi.
Mais abaixo encontra-se a história da indígena We'Wha.
We’wha nascem em 1849 na povoado Zuni, Novo México. [...] Como era o costume, a preferência de um menino [sic] pelas coisas definidas pelos zunis como femininas colocava a criança no status de lhamana, e esse muito provavelmente era o caso de We'wha.

Tendo construído seu nome como ceramista, tecelã e líder da comunidade, We'wha ganhou a atenção da antropóloga Matilda Cox Stevenson, que tinha ido a Zuni para conduzir uma pesquisa de camp. We'wha acompanhou Stevenson para sua casa perto de Dupont Circle em Washington, DC, onde We'wha foi aclamada a "Princesa Zuni" (alternativamente, "Sacerdotisa Zuni", "Madame Zuni" e "Garota Zuni"), tornou-se uma celebridade entre a elite de Washington e permaneceu alguns dias na Casa Branca como hóspede do presidente Grover Cleveland.

[...]
We'wha ganhou a atenção da mídia nacional devido à ignorância americano europeia das identidades de gênero e hierarquias políticas do povo Zuni. A revelação do sexo biológico masculino [male biological sex] dela foi um escândalo para estes europeus americanos que pensavam que We'wha era do sexo feminino [female], uma vez que We'wha teve acesso garantido aos cômodos privados das mulheres onde quer que ela fosse. Para o povo Zuni, entretanto, não havia escândalo algum.

[...]

Se We'wha tivesse sido apresentada aos americanos europeus como uma mulher Zuni do sexo masculino [male Zuni woman] desde o começo, entretanto, nunca teria sido permitido que ela fizesse as coisas que ela fez em Washington. Ela não teria sido aclamada como uma "Princesa Zuni" pela imprensa, e certamente não teria sido hóspede que ficou dias na Casa Branca. Seja por acidente ou intencionalmente por sua patrocinadora, Matilda Stevenson, a classificação incondicional de We'wha como uma mulher Zuni abriu portas para ela e deu a ela a exposição nacional que seria difícil para um homem Zuni.

Que escândalo é esse?

O que escandalizou a nossa sociedade arcaica é um fato bastante simples: We'wha ocupava os espaços femininos. O que escandalizaria a tribo Zuni, pelo contrário, seria entrar no banheiro feminino e encontrar essas pichações transfóbicas feitas por feministas intituladas "radicais" que querem "combater o patriarcado", uma estrutura de opressão que a tribo Zuni simplesmente desconhece. Talvez o que mais incomoda a toda transfobia na universidade é que os coletivos estudantis daqui que lutam contra qualquer tipo de opressão escolheram não excluir mulheres por causa de pessoas transfóbicas.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Morte e Vida Travesti

[Baseado na obra prima de João Cabral de Melo Neto, Morte e Vida Severina]

A AUTORA EXPLICA À LEITORA QUEM É E A QUE ESCREVE


— O meu nome é feminino,
mas eu tenho outro de pia.
Como há muitos femininos
que o registro repudia,
permita me apresentar:
eu sou Jéssica, amiga.
Como há muitas travestis,
(mas não no seu dia a dia)
fico sendo a que mora
nesta terra de Campinas.

Mas isso ainda diz pouco:
há muitas na freguesia
que se encontram no Sucão
ou então lá no Itatinga
que é bairro conhecido
de esquina e periferia.
Como então dizer quem fala
ora a Vossa Senhoria?
Vejamos: é a travesti
a Jéssica de Campinas
mas que vive em Barão
e não na periferia.

Mas isso ainda diz pouc...
Ai... Droga...
Que me perdoe o João,
arruinei sua poesia!
Ao contrário de outras tantas
travestis nas avenidas,
eu não estou na prisão
e nem na periferia,
nem na esquina, nem no palco,
estou viva quase aos trinta!

Somos muitas travestis
iguais em muito na vida,
no mesmo corpo mal visto,
na aparência feminina,
nos olhares que encaram
nossos corpos, noite e dia,
nos machões que nos maltratam:
"É minha carne, uma vadia!"
Na mídia, somos piada
e pra polícia, bandidas.

E se somos travestis,
iguais em tudo na vida,
morremos da mesma morte,
a invisível transfobia:
que é a morte que se morre
de velhice antes dos trinta,
de crime de ódio até os vinte,
de tristeza um pouco ao dia,
(da piada à agressão
toda essa transfobia
ataca em qualquer idade,
até gente não nascida).

Somos todas travestis
iguais em tudo e na sina:
de viver fora da rua,
fábricas e sesmarias,
de viver sem nossa mãe
quando esta ainda está viva,

de um dia ir parar
viva ou morta numa esquina,
e de enfim se questionar
sempre alguma vez na vida:
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
do que viver travesti,
nunca ser reconhecida.

A RAZÃO ENSINA A TRAVESTI AFLITA, QUE AINDA NÃO FEZ PARTE DA HISTÓRIA


— Travesti, a blogueirante,
deixe agora que lhe diga:
eu não sei bem a resposta
da pergunta tão aflita:
se não vale mais saltar
fora da ponte e da vida
do que todo dia morrer
nessa vida travestina
pois sei ver, não sei sentir,
pro sofrer não há medida;
mas posso a razão dizer:
não é eterna esta sina:
o que nasce um dia morre
e assim é a transfobia.

Há milênios que nos caçam,
nos perseguem todo dia
com suas leis, sua repressão,
e aqui estamos, de pé, vivas!
Não puderam extinguir
essa chama, a poesia,
que é a vida travesti
travestindo a própria vida.
E se riem nossos corpos
a ousada transfobia
dirijamos nossos risos
a todos esses machistas
e à bancada piadista:
se milhões não nos venceram,
hoje, quem nos venceria?

Eles não podem vencer
mas nós venceremos
um dia...

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

João Donati, presente! - A LGBTfobia nossa de cada dia

João Donati, presente!
Os hematomas no rosto, as pernas quebradas, os papéis e a sacola plástica em sua boca apontam que João Donati, um jovem gay de apenas 18 anos, foi morto com a crueldade típica de um crime de ódio contra LGBTs. Não foi a primeira vítima letal de um crime LGBTfóbico, neste ano 205 já foram noticiados na imprensa e nos boletins de ocorrência em todo o Brasil, e não sabemos quantos ocorreram sem serem visibilizados. Um assassinato por dia, pelo menos.

No nosso dia-a-dia, sentimos a mesma violência que caiu sobre João. Quando estamos em um espaço público e demonstramos quem nós somos, seja pelas nossas roupas, maquiagem, modo de ser ou identidade de gênero, vemos várias as pessoas ao nosso redor nos olhando com desprezo ou ódio. Muitas vezes, sem motivo algum, tiram sarro de nós ou nos ameaçam. É como se nos dissessem que não deveríamos estar ali, que não deveríamos existir. Podemos responder em voz alta ou então fingir que não vemos nem escutamos e seguir o nosso caminho, mas no fundo sentimos medo porque nunca sabemos se nós seremos o próximo João Donati.
Este assassinato ocorreu seis dias depois da chamada “selfie do ano”, a foto tirada pela jovem Murielle que ficou famosa nas redes sociais, que aparece abaixo. O título é mais do que merecido. A expressão do Silas Malafaia é impagável. Nas notícias sobre a morte de João, um conhecido também segurava um cartaz com as mesmas palavras: "Abra sua mente, gay também é gente!"

Sem dúvida, a "selfie do ano"!
Nas redes sociais, Malafaia reclamou que tinha sido vítima de preconceito contra evangélicos por Murielle. Entretanto, na mesma rede, entre 16 de agosto e 2 de novembro de 2013, Malafaia citou quase nove vezes mais a palavra “gays” do que “Jesus”. A maior preocupação desse pastor é perseguir ideologicamente “os gays”, inclusive usando “figuras de linguagem” que denotam a mesma violência com que João foi assassinado. A jovem Murielle apenas expressou a justa indignação que sente contra a homofobia de Malafaia, o que nada tem a ver com o fato de ele ser evangélico. Se Malafaia não gosta da má fama que recebeu, sugiro que ele pare de pregar o ódio contra LGBTs.

A bancada fundamentalista LGBTfóbica do Congresso Nacional, que estava aliada ao PT e agora se alia a Marina, barrou o projeto de criminalização da homofobia espalhando a mentira que pretendemos tirar o direito deles à “liberdade de expressão”. Enquanto isso, jovens como João perdem seu direito à vida. Em 2011, diante das ameaças dessa bancada de abrir uma CPI contra o ministro Palocci, Dilma vetou o kit “Escola Sem Homofobia”, trocando a vida de João e de tantas(os) outras(os) LGBTs pelo cargo do Palocci, mas isso não será escrito no atestado de óbito do pobre rapaz. Este ano, Dilma, de forma oportunista, para ocupar um espaço político aberto por Marina Silva, fingiu ter mudado de lado, mas ela teria coragem de vir a público dizer que a morte de João também é sua responsabilidade? Marina Silva também demonstrou que está do mesmo lado que Dilma quando rebaixou o programa LGBT de sua candidatura. Marina Silva está com João ou com Malafaia?

A “governabilidade” do PT não é diferente da “nova política” da Marina, que pretende fazer alianças com todos os partidos da ordem, incluindo PT, PSDB e até a bancada LGBTfóbica. Essas são duas versões da mesma moral burguesa, que diz que “vale tudo” para manter-se ou para chegar ao governo. Uma sociedade livre de exploração e opressão não pode ser construída pelo Congresso Nacional, nem por ninguém que faça parte desse governo, mas somente pela ação direta das pessoas exploradas contra toda forma de opressão e exploração. Um governo que esteja do nosso lado não pode aceitar um cargo em um ministério em troca da vida das pessoas mais oprimidas e exploradas do nosso povo, pelo contrário, deve servir como ferramenta para que elas sejam as primeiras a decidir como deve ser a sociedade e quais as mudanças necessárias para construir um mundo livre de todo tipo de injustiça e desigualdade social.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O Templo do Capital

Foto da mansão de Edir Macedo
Por que o templo de R$680 milhões foi construído? Simples: segundo o IBGE, o número de fiéis da IURD caiu de 2,102 milhões para 1,873 milhão em 2012. Mesmo que a chamada "Igreja Universal do Reino de Deus" (IURD) esteja perdendo seus clientes, quer dizer, seus fiéis, para outras igrejas evangélicas, Edir Macedo está muito satisfeito com esta obra, pois ano passado entrou para a lista dos bilionários da revista Forbes. Ele tem orgulho de dizer que é o pastor mais rico do mundo. Isso não tem nada a ver com fé. Este é o mundo dos negócios.

Este grande negócio se baseia em utilizar a fé das pessoas de maneira oportunista para convencê-las a venderem suas casas, seus carros e doarem seus salários pela construção do templo em troca de uma "bênção". E Edir Macedo, por acaso vendeu seus carros? Seus aviões particulares? Suas mansões banhadas em ouro? Se tivesse feito, ele, sozinho, já teria arcado com um Templo de Salomão e meio.

Aliás, convenhamos, Salomão não tem nada a ver com essa construção. Quem saiu faturando com ela foi a empreiteira paulista Sobrosa.

A Igreja Universal teve um rápido crescimento. Não é nenhum segredo que Edir Macedo ensina a seus pastores técnicas para arrancar dinheiro de seus fiéis. Uma das armas que ele utiliza é o racismo, dizendo que a Umbanda, a Quimbanda e o Candomblé são "seitas demoníacas" responsáveis pelo subdesenvolvimento do país e pelo uso de drogas. Tudo isso, evidentemente, para fazer com que o povo tenha medo da "concorrência". Outra arma é o machismo: ele teve a pachorra de recomendar a seus fiéis homens não se casarem com mulheres mais velhas "para não se deixarem influenciar por elas" e também que não se casem com mulheres de outras raças "para evitar o racismo". Ainda mais, o texto todo é escrito como se apenas os homens se casassem com as mulheres, como se as mulheres não se casassem com os homens.

Sua igreja também é responsável por enviar missionários homofóbicos pelo mundo (esta empresa está em mais países do mundo que o McDonalds). Vários povos nativos da África, por exemplo, tinham (e ainda têm) costumes que envolvem homossexualidade e transgeneridade. A grande "missão" declarada de Macedo é convencê-los de que isso é tudo "coisa do demônio". Não é diferente no Brasil, onde 1 LGBT é vítima fatal de crimes de ódio todos os dias e onde as travestis têm expectativa de cerca de 35 anos e Edir Macedo milita contra nosso direito à igualdade. A igualdade não interessa a um burguês bilionário porque ele lucra com a desigualdade.

Recentemente, a Universal lançou um texto ainda mais bizarro. O título já diz tudo: "O que vestir para ir ao Templo de Salomão? - Confira dicas do que usar e não usar neste dia especial". Esse é um texto parecido com um artigo numa revista de moda, voltado especificamente às mulheres, apelando para o estereótipo feminino. Isso já demarca o caráter do próprio templo: um lugar de gente "elegante", um edifício turístico para fazer propaganda de sua igreja, onde as pessoas que têm algum dinheiro possam visitar e gastar seus cartões de crédito (seja na visita, seja depois na forma de doação para o Edir).

Esse templo está longe de ser um lugar para as pessoas mais pobres, exploradas e oprimidas do país. Será que as travestis vão sequer conseguir entrar?

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não à transfobia, venha de quem vier!

Por que as pessoas trans são invisíveis? Por que todo mundo, mesmo dentro dos próprios movimentos que teoricamente deveriam entender alguma coisa sobre opressões, não entende quase nada sobre a nossa própria existência? E quando finalmente temos condições de anunciar nossa existência, ainda tentam nos dizer quem nós somos e do que nós precisamos. Temos a impressão que as pessoas tentam o tempo todo nos empurrar de volta à inexistência. Não, engano meu, não é impressão, isso realmente acontece. É isso que a humanidade "aprendeu" durante milênios.

A inexistência social das pessoas trans*

A criminalização da "homossexualidade" (antes denominada "sodomia") significou, durante milênios, o genocídio de LGBTs. Na verdade, alteraram a própria História para tentar apagar a nossa existência, mas não conseguiram. Durante a Idade Média, a perseguição a LGBTs impossibilitava que sua existência fosse conhecida senão por um setor minoritário da sociedade. A nossa sociedade ficou alienada a tal ponto que não sabia sequer que LGBTs existem e sempre existiram dentro dela. Ainda que esta alienação foi revertida em parte pela luta do movimento LGBT, ela continua a existir em todos os países capitalistas e, na maioria deles, continua a atingir mais fortemente as pessoas trans*.

Quando os comunistas do século 19, mesmo o próprio Marx, se depararam com os homossexuais que apareciam na imprensa ou lançavam livros, acreditaram que a homossexualidade era uma degeneração burguesa, já que estes homossexuais eram todos burgueses. Mesmo na década de 1920, a maioria dos comunistas que defendiam a descriminalização da homossexualidade (como ocorreu na Revolução Russa) acreditavam que não existia homossexualidade na classe operária.

No campo da (pseudo-)esquerda, o troféu de burrice vai para as seitas stalinistas que acreditam que as pessoas trans são uma degeneração burguesa pós-moderna. Marx, apesar de ter estudado inúmeros livros, ao menos tinha duas desculpas para sua burrice: (1) ele vivia no século 19 e (2) não existia identidade LGBT antes do surgimento do capitalismo, mas, ah, esses stalinistas! Em que mundo vivem? As centenas de tribos africanas e indígenas em que travestis e transexuais são aceitos socialmente mandaram lembranças.

A invisibilidade lésbica, bissexual e trans também são expressões desta mesma alienação. Quando homens gays rejeitam a travestilidade porque acreditam que um "homem" não precisa vestir-se ou comportar-se "como se fosse" uma mulher, isso nada mais é do que a conclusão precipitada de alguém que se depara com uma travesti pela primeira vez na vida. Quando uma pessoa é expulsa de uma balada gay porque beija alguém do gênero oposto, é porque os gays não sabem que existem pessoas bissexuais. O mais curioso é quando homens gays ficam em roda conversando sobre sexo entre homens e outras coisas masculinas e ainda por cima reclamam quando as mulheres lésbicas não se interessam com essas conversas! Eles por acaso são burros? Sim, são alienados!

Foram as travestis as primeiras que se revoltaram com a polícia em Nova Iorque em 1969, dando origem à Revolta de Stonewall. É triste, muito triste, que hoje o aniversário desta revolta seja popularmente conhecido como "Parada Gay". Gay? Ai, ai...

Muitas feministas radicais, por incrível que pareça, dizem que as mulheres trans são homens que dizem que são mulheres porque querem ocupar os movimentos feministas e os espaços públicos ocupados pelas mulheres. Se nossa história não tivesse sido apagada, essas feministas saberiam que, pelo contrário, as pessoas trans existem desde "sempre" e que foram expulsas dos espaços públicos da mesma forma que as mulheres.

Fazem questão de excluir as mulheres trans de seus espaços porque elas têm "sexo masculino". Muitas vezes dizem que as mulheres trans têm privilégios masculinos. Oi? Privilégios masculinos?

Quem são as travestis?

Uma vez que existe um esforço constante para apagar as travestis da história e da sociedade, existem poucos dados sobre a vida social das travestis. Mas temos alguns poucos dados.

Gabriela Monelli, presente!
Segundo o GGB, dos assassinatos documentados de LGBTs em 2013, 35% eram travestis. A estimativa do GGB de 2011 é que existem 50 mil travestis e 2 mil transexuais no Brasil. Ou seja, ano passado, cerca de uma travesti a cada 460 foi assassinada em 2013. Comparando os dados do GGB de forma relativa à população (considerando que 7,8% dos homens se declararam homossexuais num estudo do Instituto de Psiquiatria do HC da USP em 2009), concluímos que a probabilidade de uma travesti ser vítima fatal de um crime de ódio é cerca de 90 vezes maior que a de um homem gay. Um estudo feito nos EUA aponta que 46% dos homens transexuais e 43% das mulheres transexuais já tentaram cometer suicídio em sua vida. Temos também alguns dados sobre as travestis na Argentina: lá, a expectativa de vida de uma travesti é de 35 anos, 90% delas vive em situação de prostituição e 16% não concluíram o ensino fundamental.

A conclusão inevitável é que a grande maioria das travestis (que começam a se identificar, em média, entre 10 e 12 anos de idade) é expulsa das escolas e é arrastada à prostituição por não encontrarem nenhum espaço no mercado de trabalho formal. Um dos únicos espaços sociais que não expulsam sistematicamente as travestis de seu interior são as casas de prostituição. Saúde pública, transporte público, polícia, sistema judiciário e universidades são apenas alguns exemplos das instituições nas quais as travestis são constantemente hostilizadas. Entre as travestis, são também comuns os relatos de estupro, assédio e agressões físicas e psicológicas, desmoralizações, etc.

A exploração sexual de travestis é bastante lucrativa. O tráfico humano associado à prostituição também atinge as travestis ainda crianças. Existem, inclusive, especialistas em procurar as travestis jovens que ainda estão dentro do armário. Só como um exemplo, imagine um "menino" de 12 anos que sonha constantemente em "tornar-se" uma menina, que é hostilizada na escola e em sua casa, quando não é expulsa. Este(a) especialista, no momento oportuno, lhe faz uma oferta: ela pode ganhar um corpo de mulher, mas terá que "trabalhar" para pagá-lo. Para quem não sabe, para as travestis da periferia, este "corpo de mulher" é criado a partir de pesadas doses de hormônios e pela aplicação clandestina de silicone industrial em seu corpo, o que denominam de bombadeiras. É desnecessário dizer o quanto isso é arriscado para a saúde e a própria vida destas adolescentes. Esta travesti, ainda adolescente, não terá escolha senão ser vítima de exploração sexual até pagar sua "dívida".

Resumindo, a posição social mais comum das travestis está muito longe de serem as posições privilegiadas de alguns homens: os empregos mais bem remunerados, os postos administrativos e políticos ou entre os capitalistas. Algumas travestis podem ser encontradas nos postos típicos ocupados pela maioria das mulheres, mas a maioria das travestis não são professoras e pedagogas mal remuneradas, nem cozinheiras, faxineiras, terceirizadas, etc. A condição mais comum das travestis é muito parecida com a das mulheres mais oprimidas, mais pobres e marginalizadas da nossa sociedade, assim como acontece com muitas mulheres negras.

Portanto, do ponto de vista social, as travestis não são homens, mas mulheres, mulheres oprimidas, pobres e marginalizadas. Elas não são vítimas apenas dos crimes de ódio direcionados a LGBTs, mas também da naturalização da violência contra a mulher, da objetificação e sexualização da mulher, da exploração sexual, da expulsão dos espaços públicos e de quase todo tipo de marginalização e violência que as mulheres sofrem (exceto aqueles relacionados à gravidez e à reprodução). Mesmo as travestis que não se identificam como mulheres, na maior parte das vezes estão socialmente mais próximas das mulheres do que dos homens. É verdade que as pessoas dizem que as travestis são homens disfarçados como mulheres, mas, ao mesmo tempo, as travestis são tratadas como aberrações da natureza e como mulheres indesejadas.

Invisíveis.

Quem determina nossa existência?

Parece ser óbvio, deveria ser óbvio, mas ainda precisamos dizer pra todo mundo que nós somos quem nós somos. Quem determina quem nós somos e quem nós deveríamos ser não é a sociedade, nem os capitalistas da mídia, da imprensa e das religiões que mais parecem empresas, nem as teorias acadêmicas absurdas que reduzem o nosso gênero à nossa genitália, nem os psicólogos e endocrinólogos, muito menos as pessoas que nos chamam de pirocos, mas sim nós mesmas.

sábado, 19 de julho de 2014

Uma pequena palavra sobre este inusitado blog

Olá! Meu nome é Jéssica e eu tenho uma coisa a dizer.

Há até cerca de um ano atrás, eu tinha um blog, que continua no ar, mas está abandonado. Sim, abandonei o blog junto com as ideias absurdas que ele carrega. Não que eu o negue: poderia eu negar minha própria história, minha própria existência? Mas ah! Sim, tem muita merda ali!

Minhas ideias mudaram, minha concepção de mundo mudou, minha vida mudou, eu mudei. Mas nem tanto assim.

Aquele outro blog, eu o criei por uma razão muito simples, porém crucial para a minha própria existência, para minha própria identidade, direito ao qual me foi negado e continua sendo negado dia após dia, quando eu ando na rua, quando eu apareço publicamente, quando eu tento conversar. No começo de 2011, um "escândalo" familiar me abriu os olhos: eu precisava ter minha própria opinião, urgente. O constrangimento, a intimidação, a violência, a opressão tinham me domesticado a não dizer nada até o ponto que me fez explodir para fora tudo o que já existia do lado de dentro. Mas explodir para fora... para onde? Aonde explodir tudo aquilo, se não aprendi a falar? Eu só sei escrever!

Estava em um planeta estranho, em um mundo confuso e queria sair dali, como a Alice, no país das maravilhas medonhas.
Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.
Lewis Carrol

Desorientada como uma cega no meio de um tiroteio, no fundo eu já sabia que, para ter uma opinião própria, precisava construir uma. Fui assim construindo minha própria identidade a partir do que me foi ensinado, construindo novas ideias e pouco tempo depois deixando elas pelo caminho. Todo mundo pensa, mas ninguém pensa sem um modo de pensar e ninguém muda o modo de pensar sem mudar, ao mesmo tempo, sua própria vida, sua própria existência.

Para explicar de onde saí, por onde percorri e aonde cheguei, precisaria mais do que uma pequena palavra. Por ora, resta-me dizer que não cheguei em lugar algum porque ainda não morri. Sei falar mais do que sabia em 2011, o mundo ao meu redor mudou em muitos sentidos, mas a necessidade de escrever permanece. Sem blog, não deixei de escrever, mas voltou o sufoco e com ele o desespero. Precisei chegar à mesma conclusão que antes: preciso escrever, preciso de um blog, antes que eu me afogue. Um novo blog para uma nova pessoa:

uma travesti marxista.


P.S.: Melhor deixar aqui este aviso antes que alguém venha reclamar.