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sábado, 17 de janeiro de 2015

Crítica à concepção positivista de Eli Vieira

Os positivistas têm uma solução simples: o mundo deve ser dividido entre o que nós podemos dizer claramente e o resto, sobre o qual é melhor que nós permaneçamos em silêncio. Mas pode alguém conceber uma filosofia mais inútil, uma vez que o que nós dizemos claramente se reduz a quase nada? Se nós omitíssemos tudo o que é obscuro, o que restaria para nós seriam tautologias triviais e desinteressantes.

É preciso desmascarar o positivismo. Não posso deixar de comentar os absurdos ditos por Eli Vieira ao tentar desqualificar Djamila Ribeiro.

Eli começa dizendo o seguinte: 
1) Não sabe responder ao argumento de alguém nem conhece o suficiente para dar uma resposta? Diga "não concordo com seus pressupostos teóricos e bases epistemológicas". Aí você defende seus dogmas e a palavra sagrada de suas altas autoridades sem precisar dar nem um mísero argumento.
Mais abaixo, ele faz outra afirmação: 
2) Aliás, lembro que "pressuposto" não testado, ou que já nasce oco por causa de outros conhecimentos, mais merece o nome "dogma".

Acontece que a afirmação (2) é uma forma de desqualificar qualquer argumentação que não se baseie em pressupostos testáveis. Mas (2) é uma afirmação epistemológica. Ou seja: Eli Vieira critica Djamila Ribeiro por que ela não concorda com a epistemologia utilizada por ele, mas, ao mesmo tempo, ele não concorda com a epistemologia utilizada por ela e, pior, taxa-a de "dogma" sem dar qualquer justificativa senão o fato que a epistemologia de Djamila não é baseada na "testabilidade".

Em (2), Eli Vieira diz, em particular, que "um pressuposto que não é testado é um dogma". Mas isso também é um pressuposto! E o que faremos com este pressuposto, ou seja, o pressuposto dado pela afirmação (2)? Devemos testá-lo ou chamá-lo de dogma? Se tentarmos testar este pressuposto para concluir que ele é verdadeiro, estaremos cometendo a falácia do argumento circular. Se não o testarmos, não podemos concluir que ele é verdadeiro a não ser que o admitamos como um dogma.

Ironia das ironias, tudo é ironia! Eli utiliza pressupostos não-testáveis para criticar a argumentação de Djamila porque ela utiliza pressupostos não-testáveis!

O pressuposto (2) de Eli é uma versão distorcida do critério de falseabilidade de Karl Popper. Popper quis separar o que é e o que não é científico demarcando as proposições que são falseáveis (científicas) e as que não são falseáveis (não científicas, ou "dogmas"). Entretanto, apesar de reconhecer que o critério de Popper é insuficiente, Eli simplesmente muda "falseável" para "testável" e acha que, assim, o problema está resolvido!

Uma observação sobre Karl Popper: ao formular seu critério de falseabilidade, ele usa implicitamente, como pressuposto, a lógica clássica aristotélica, mais explicitamente, as "Leis Clássicas do Pensamento".

Entre essas leis, encontram-se o Princípio da Não-Contradição, que afirma que uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo, e também o Princípio do Terceiro Excluído, que afirma que uma proposição, ou é verdadeira, ou é falsa. Em outras palavras, as Leis Clássicas do Pensamento são uma forma extremamente binária de se conceber a verdade e a falsidade.

Entretanto, a partir de métodos empíricos e de proposições falseáveis, a Física chegou às leis da Mecânica Quântica. Tais leis, paradoxalmente, mostram que proposições sobre o estado de partículas subatômicas não seguem esses princípios.

Ironia das ironias, tudo é ironia! O critério de falseabilidade de Popper foi falseado!

Eli Vieira também mostra como está preso aos velhos princípios aristotélicos ao citar um trecho de Susan Haack:
"Descrevemos o mundo às vezes de forma verdadeira, às vezes de forma falsa. Se uma descrição sintética é verdadeira ou falsa depende do que ela diz (o que diz respeito à convenção humana) e de como as coisas no mundo descritas por ela são."
Se há uma coisa universal sobre o conhecimento humano é que ele foi historicamente produzido por seres humanos. Isso não quer dizer que o conhecimento foi retirado pelos seres humanos unicamente a partir de seus próprios cérebros, a partir de suas subjetividades, como quem cria ideias a partir das ideias. Não sou pós-moderna. Mas também não quer dizer que a "Ciência" tenha sido retirada da natureza da mesma forma que se tira uma foto de uma paisagem estática, de forma que todas as fotos tiradas mostram essencialmente a mesma imagem.

O conhecimento humano foi produzido no meio do processo vivo em que a própria sociedade trabalhava a natureza ao seu redor para retirar dela seu sustento e aquilo que lhe era útil, transformando a natureza e a própria sociedade, descobrindo a natureza e a si mesma, abstraindo cada vez mais seu próprio conhecimento e até mesmo sobre seu próprio modo de pensar. Tal conhecimento nunca foi livre de imprecisões, polêmicas, inconsistências, contradições, etc. Muito pelo contrário: o conhecimento humano se desenvolveu e se aperfeiçoou ao longo do tempo por causa de suas contradições internas e também de suas contradições com o mundo concreto, com a sociedade humana, etc.

Nem tudo no conhecimento humano tem caráter puramente subjetivo. Algumas partes desse conhecimento (como a Física) adquiriram um caráter bastante objetivo e conseguem hoje se desenvolver de forma independente das subjetividades (ao menos na aparência - voltarei a esse assunto em outro momento). Entretanto, não podemos negar, por exemplo, o papel central e decisivo que as subjetividades têm no desenvolvimento da nossa compreensão sobre as opressões, sua natureza e sua essência.

Essa concepção positivista que pretende criar critérios práticos, mecânicos e absolutos para separar a "Ciência" e a "Não-Ciência" como alguém que separa frutos bons e ruins num supermercado, não serve para o desenvolvimento nem do conhecimento humano nem da própria Ciência. Mas serve para Eli Vieira desqualificar toda a argumentação de Djamila Ribeiro baseando-se apenas em algumas questões superficiais e pontuais desta argumentação. Isso não se chama objetividade científica, pelo contrário, é mais um reflexo de uma subjetividade machista e racista que é típica da arrogância elitista academicista.

Thomas Kuhn, um semi-marxista da Filosofia da Ciência

Eli Vieira escreveu um texto mostrando algumas limitações do critério de Karl Popper. Ele afirma:
O desenvolvimento posterior da filosofia da ciência é onde eu buscaria respostas mais sofisticadas para um critério de demarcação entre ciência e não-ciência. Uma conciliação entre o pensamento de Thomas Kuhn (particularmente o pensamento de Kuhn reformado após as críticas ao "Estrutura das Revoluções Científicas", como pode ser visto no posfácio à segunda edição deste livro) e a teoria da ciência de Imre Lakatos é um ponto de partida.
Se tudo é ironia, aqui vai mais uma. Eli Vieira, que demoniza o marxismo como anticientífico neste mesmo texto, acaba sugerindo superar as limitações de Popper com a epistemologia de Kuhn. Entretanto, para desenvolver uma epistemologia da Ciência, Thomas Kuhn começa fazendo o mesmo que qualquer marxista faria: pesquisar nos livros de história para compreender o processo de mudança, de evolução pelo qual passou a própria ciência, ou as ciências. Kuhn redescobre, em parte, o método dialético empregado por Hegel e depois por Marx.

Kuhn afirma que toda ciência contém contradições que vão se acumulando e se desenvolvendo ao longo do tempo, até o ponto em que ocorre uma crise, o que faz com que a ciência entre em uma revolução, onde são construindo novos paradigmas científicos que substituirão os velhos paradigmas, e a ciência volta à estabilidade. Parece até uma paródia da descrição das revoluções que está no Manifesto Comunista!

Infelizmente, Thomas Kuhn não utiliza o método marxista em todo seu potencial. Ele não parece ter estudado como as instituições estatais e a classe dominante interferem na própria evolução da ciência, inclusive interferindo fisicamente para impedir que certas revoluções ocorram, por exemplo como aconteceu com Giordano Bruno e Galileu Galilei quando propuseram a teoria heliocêntrica: Giordano foi condenado à morte, Galileu teve que se retratar e recusar sua teoria para não ser condenado à morte.

A própria teoria de Kuhn também é um exemplo disso: a demonização do marxismo financiada pelo imperialismo ao longo do século XX (cujos interesses eram puramente os da classe dominante, ou seja, da classe burguesa, em especial da burguesia imperialista) fez com que Kuhn não tivesse acesso ao método dialético marxista para desenvolver sua teoria em todo seu potencial. A falta de compreensão do marxismo faz também com que muita gente rejeite a teoria de Kuhn com base em interpretações errôneas ou mesmo por terem sua consciência limitada pela lógica aristotélica. E é por isso que positivistas vivem descaracterizando Kuhn.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Após as eleições, a saída é pela esquerda!

Acabou o primeiro turno das eleições de 2014. Doze anos se passaram desde que Lula foi eleito pela primeira vez e muita gente está, com justiça, indignada com o governo do PT. Percebo, entretanto, que uma parte dessas pessoas volta os olhos para a velha direita, o PSDB, como alternativa para "mudar a situação". Muita gente começa a dar ouvidos para discurso do PSDB que diz que a corrupção e a precarização dos serviços públicos são problemas exclusivos do PT. Aécio até engana com aquele sorriso simpático, não é?

[Esse texto não aborda o tema das opressões, pretendo fazer isso com mais fôlego no próximo.]

O governo do PT causou, uma boa confusão na classe trabalhadora, até o ponto que uma boa parte da classe trabalhadora não se reconhece enquanto classe. Paralelamente a isso, muitos defensores de teorias pós-modernas (em especial foucaultianas) transmitem a ideia que as classes sociais são "ideológicas", como se o problema do capitalismo fosse "preconceito contra pessoas pobres" (erroneamente chamado de "classismo"). Muita gente não sabe mais a diferença entre esquerda e direita e acha que "luta de classes" é uma invenção do marxismo.

Classes sociais existem!

O capitalismo é, a grosso modo, o sistema de produção onde uma pequena parcela da população é proprietária dos meios de produção que abastecem toda a sociedade, que é denominada classe burguesa. Outra parcela majoritária da população é teoricamente livre, mas não possui nenhum meio de sobreviver senão vendendo sua força de trabalho para a burguesia. Esta é a classe trabalhadora ou proletariado.

[Além dessas duas, existem também o campesinato e a pequena burguesia, e talvez outras variações, que não abordaremos nesse texto. Aqui tem uma boa fonte sobre a origem do Capitalismo.]

Uma pessoa que é proprietária de uma fábrica tem interesse de pagar o mínimo possível para as trabalhadoras, enquanto as trabalhadoras querem receber o máximo possível. Os interesses das duas classes são opostos. Entretanto, no sistema capitalista, quem decide o salário é a proprietária, não a trabalhadora. Se ela não aceita o salário, e se existe quem precisa deste salário, ela será substituída (isso explica porque a maior parte dos empregos nos países subdesenvolvidos recebem, no máximo, pouco mais que um salário mínimo). Se ela se revolta sozinha, ela é demitida. O único meio que a classe trabalhadora tem para defender seus interesses é a partir da organização coletiva: greves, manifestações de rua, greves gerais, revoluções, etc.

Rio de Janeiro, Junho de 2013
Essa é a luta de classes. A História e até a imprensa atual nos mostram que ela não é invenção das pessoas marxistas, nem das socialistas em geral, ela muitas vezes acontece sem que tenha ninguém lá para dirigi-la.

Na política, a distinção entre direita e esquerda não é caracterizada pela defesa do Estado mínimo ou máximo, da privatização ou estatização, pela "liberdade" ou "controle estatal absoluto". O que distingue a direita da esquerda é a defesa dos interesses que pertencem principalmente à classe burguesa (ou a uma parte dela) ou que pertence principalmente à classe trabalhadora (ou a uma parte dela), respectivamente. O conflito entre a direita e a esquerda é a forma concreta que a luta de classes toma na política.

Sociedade capitalista, Estado capitalista

Estamos em uma sociedade capitalista. O Estado não é neutro, ele tem um objetivo: garantir que a sociedade "funcione", ou seja, que o capitalismo continue a existir. De maneira geral, isso se traduz na defesa do direito à propriedade acima de qualquer outro direito, até mesmo do direito à vida. Um exemplo concreto: no Pinheirinho, o direito à propriedade privada de um burguês (Naji Nahas) se sobrepôs a vários direitos de mais de seis mil pessoas.

Existe o direito à propriedade, mas não existe o direito a um emprego com salário digno. Isso por si só já coloca a proprietária e a trabalhadora em uma relação desigual: a proprietária continuará tendo sua propriedade, caso a trabalhadora não aceite o salário, mas esta pode não ter um emprego garantido caso não aceite as condições daquela. Muitas vezes, sua própria sobrevivência depende disso.

O Estado pertence à classe economicamente dominante. No capitalismo, o Estado é burguês. São inúmeras as leis que, em maior ou menor grau, beneficiam a classe burguesa em detrimento da classe trabalhadora. As leis trabalhistas (carga horária, férias, aposentadoria, seguro desemprego, salário mínimo, etc) existem porque os partidos de esquerda trouxeram a luta de classes para o campo político. E é esta luta política que Dilma, Aécio e Marina abafaram nos debates eleitorais.

Partido dos trabalhadores?

O governo do PT não foi um governo da classe trabalhadora. Cumprindo o que estava escrito na Carta ao Empresariado Povo Brasileiro, o governo do PT manteve, em essência, o tripé econômico neoliberal iniciado pelo governo do PSDB: a preservação das metas inflacionárias, o superávit fiscal e o câmbio flutuante. Ou seja, ainda que o PT tenha criado ou ampliado algumas medidas de compensação (como o Bolsa Família e a valorização do salário mínimo), o governo teve centralmente uma política neoliberal.

Isso significa, em particular, preservar o constante pagamento da "dívida pública", que nada mais é do que um mecanismo de transferência de dinheiro para os banqueiros. Essa "dívida" já foi paga dezenas de vezes, o governo está pagando juros sobre juros. Como a experiência demonstra, esta dívida cresce exponencialmente e não pode ser paga. Isso significa que mais de 40% dos nossos impostos são transferidos como uma "Bolsa Banqueiro", não para os miseráveis como acontece com o Bolsa Família, mas sim para quem já têm dinheiro de sobra.

Durante esses doze anos, foram realizadas privatizações, aumento da precarização e da terceirização, reforma da previdência, escândalos de corrupção, parcerias público-privadas, entre outras políticas de direita.

O governo gasta, por ano, 800 bilhões com a dívida pública, empresta centenas de bilhões em subsídios para empresas pelo BNDES e gasta apenas 24 bilhões no Bolsa Família. Resultado: até 08/09, Dilma havia recebido 68% do dinheiro que veio das dez maiores empresas financiadoras da campanha eleitoral deste ano. Ou seja, Dilma é a candidata preferida da alta burguesia.

O fato que houve a implementação de alguns programas para combater a desigualdade social não mudam que, de conjunto, o governo do PT foi de direita, pois nada disso supera os 800 bilhões que são gastos todos os anos no Bolsa Banqueiro.
Não importa o tamanho da montanha, ela não pode tapar o sol.

Mas o PSDB não pretende mudar nada disso, muito pelo contrário, o Aécio Neves defende todas essas políticas descritas aqui.

Totalitarismo e corrupção são de esquerda?

Corre solto o mito que comunistas são comedores de criancinhas. O stalinismo causou um enorme retrocesso quando transformou a URSS em uma ditadura, revogando direitos, reprimindo manifestações e greves que incomodavam sua posição. Não só isso, como, a partir do enorme poder político que conseguiu, fez com que todas as revoluções socialistas posteriores também fossem baseadas na teoria stalinista.

Hoje, a direita refere-se à esquerda como aquela que defende um grande Estado corrupto e totalitário que controla a tudo e a todos e "faz qualquer coisa" para permanecer no poder. Esse é o estereótipo, o espantalho criado pelo imperialismo a respeito do comunismo na época da Guerra Fria.

Desfaçamos os mitos. O stalinismo é prova de que um governo socialista pode, de fato, tornar-se ditatorial, mas o totalitarismo em si não é de esquerda nem pode sê-lo, pois ele agride muito mais a classe trabalhadora do que a burguesia. Socialismo significa uma sociedade onde o controle sobre os meios de produção é feito pela classe trabalhadora. Ao reprimir as manifestações democráticas da classe trabalhadora, o stalinismo estava fazendo a URSS andar em direção à restauração do capitalismo.

A corrupção também é parte do capitalismo, é um dos métodos pelos quais a burguesia exerce sua influência econômica para que o Estado defenda seus interesses. É verdade que a mídia burguesa e a direita tradicional, como o PSDB, apropriou-se da corrupção endêmica do capitalismo para difamar o PT e tentar derrubá-lo, mas não se pode negar que o PSDB e todos os partidos da ordem também estão afundados na lama da corrupção. A diferença é que a mídia, quando muito, divulga esses casos com bastante timidez.

Algumas pessoas de direita chegam a defender o absurdo que Hitler e Mussolini eram de esquerda. Hitler não defendia o Estado Burguês clássico, defendia abertamente um Estado totalitário, um "reino" dominado por um partido único que estivesse acima de qualquer direito individual, inclusive do direito à propriedade privada. Ele chamou a seu partido de "socialista" e usou muito a cor vermelha, mas os registros históricos mostram que isso foi uma escolha deliberada para enganar os trabalhadores, já que o socialismo estava "na moda" na época. Entretanto, Hitler tinha o apoio dos grandes monopólios internacionais, ao contrário de todos os partidos de esquerda que já existiram na História.

O grande magnata da mídia norte-americana da época, William Hearst, apoiou Hitler, criando uma boa imagem do nazismo nos EUA. Quando Charlie Chaplin decidiu criar o filme "O Grande Ditador", os capitalistas que ele conhecia tentaram convencê-lo a não lançar esse filme, pois apoiavam Hitler. O partido nazista difundia os valores morais burgueses, era a escolha da burguesia para combater o socialismo da URSS e impedir que ele se espalhasse por todo o mundo, além de criar uma guerra que seria fonte de altíssimos lucros.

    Comparação dos gastos do governo dos EUA
    À esquerda: gastos nas  áreas científicas em 2011
    No meio: gastos militares em 2011
    À direita: total dos gastos na NASA de 1958 a 2011

É estarrecedor que o modelo mundial de "liberdade" e de "democracia" seja os EUA, um país que gasta 300 vezes mais dinheiro com gastos militares do que com pesquisas científicas. Ignora-se, com isso, os registros históricos que mostram que várias multinacionais dos EUA inclusive continuaram a vender seus produtos e oferecer serviços para a Alemanha nazista em plena guerra, mesmo depois da entrada dos EUA, com o conhecimento e consentimento do presidente Roosevelt. O governo dos EUA foi diretamente responsável pela instauração de ditaduras militares por toda a América Latina nas décadas de 1960 e 70. Os EUA financiaram ditaduras no Oriente Médio e também o massacre contra o povo palestino.

As ditaduras não se instalam nos países mais miseráveis e desiguais do mundo por motivos religiosos, mas sim porque, quanto maior é a exploração, mais forte é a luta de classes e com mais violência ela precisa ser reprimida. A despeito das aparências e do jogo político, a existência de ditaduras nos países subdesenvolvidos (inclusive na China!) beneficia o imperialismo.

A propaganda deste imperialismo que diz que a ideologia comunista ou marxista é a maior causa de mortes da História não pode ser levada a sério. Em primeiro lugar, essas mortes foram decorrência dos regimes stalinistas. Em segundo, a desigualdade social gerada pelo capitalismo matou e continua matando muito mais pessoas do que estes regimes. Alguns defensores do capitalismo defendem que estes regimes mataram entre 90 e 100 milhões de pessoas. Segundo a própria ONU, 17 mil crianças abaixo de 5 anos morrem por dia no mundo. Isso significa que são necessários pouco mais de 16 anos para que morram 100 milhões de crianças abaixo de 5 anos. Enquanto isso, as 0,7% da população do mundo detém 41% da riqueza mundial.

Qual é a saída?

Deveria ser óbvio, mas é preciso dizer que, para serem livres, as pessoas precisam permanecer vivas. Elas precisam ter alimentação, moradia, vida social e cultural, enfim, direitos básicos garantidos. A "liberdade" que a direita defende tem como base o direito à propriedade privada e à acumulação do capital e, portanto, não aponta a saída para os problemas que incomodam a maioria da população brasileira. A mudança só poderá ocorrer na luta por uma sociedade livre de exploração e de opressão, para que a prioridade do governo sejam os problemas sentidos pela maioria da população, e não que seja um aliado dos bancos e das empresas. Um governo da classe trabalhadora para a classe trabalhadora.

Nem Dilma nem Aécio representam qualquer avanço nesse sentido e, por isso, no segundo turno, meu voto é nulo.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Não à transfobia, venha de quem vier!

Por que as pessoas trans são invisíveis? Por que todo mundo, mesmo dentro dos próprios movimentos que teoricamente deveriam entender alguma coisa sobre opressões, não entende quase nada sobre a nossa própria existência? E quando finalmente temos condições de anunciar nossa existência, ainda tentam nos dizer quem nós somos e do que nós precisamos. Temos a impressão que as pessoas tentam o tempo todo nos empurrar de volta à inexistência. Não, engano meu, não é impressão, isso realmente acontece. É isso que a humanidade "aprendeu" durante milênios.

A inexistência social das pessoas trans*

A criminalização da "homossexualidade" (antes denominada "sodomia") significou, durante milênios, o genocídio de LGBTs. Na verdade, alteraram a própria História para tentar apagar a nossa existência, mas não conseguiram. Durante a Idade Média, a perseguição a LGBTs impossibilitava que sua existência fosse conhecida senão por um setor minoritário da sociedade. A nossa sociedade ficou alienada a tal ponto que não sabia sequer que LGBTs existem e sempre existiram dentro dela. Ainda que esta alienação foi revertida em parte pela luta do movimento LGBT, ela continua a existir em todos os países capitalistas e, na maioria deles, continua a atingir mais fortemente as pessoas trans*.

Quando os comunistas do século 19, mesmo o próprio Marx, se depararam com os homossexuais que apareciam na imprensa ou lançavam livros, acreditaram que a homossexualidade era uma degeneração burguesa, já que estes homossexuais eram todos burgueses. Mesmo na década de 1920, a maioria dos comunistas que defendiam a descriminalização da homossexualidade (como ocorreu na Revolução Russa) acreditavam que não existia homossexualidade na classe operária.

No campo da (pseudo-)esquerda, o troféu de burrice vai para as seitas stalinistas que acreditam que as pessoas trans são uma degeneração burguesa pós-moderna. Marx, apesar de ter estudado inúmeros livros, ao menos tinha duas desculpas para sua burrice: (1) ele vivia no século 19 e (2) não existia identidade LGBT antes do surgimento do capitalismo, mas, ah, esses stalinistas! Em que mundo vivem? As centenas de tribos africanas e indígenas em que travestis e transexuais são aceitos socialmente mandaram lembranças.

A invisibilidade lésbica, bissexual e trans também são expressões desta mesma alienação. Quando homens gays rejeitam a travestilidade porque acreditam que um "homem" não precisa vestir-se ou comportar-se "como se fosse" uma mulher, isso nada mais é do que a conclusão precipitada de alguém que se depara com uma travesti pela primeira vez na vida. Quando uma pessoa é expulsa de uma balada gay porque beija alguém do gênero oposto, é porque os gays não sabem que existem pessoas bissexuais. O mais curioso é quando homens gays ficam em roda conversando sobre sexo entre homens e outras coisas masculinas e ainda por cima reclamam quando as mulheres lésbicas não se interessam com essas conversas! Eles por acaso são burros? Sim, são alienados!

Foram as travestis as primeiras que se revoltaram com a polícia em Nova Iorque em 1969, dando origem à Revolta de Stonewall. É triste, muito triste, que hoje o aniversário desta revolta seja popularmente conhecido como "Parada Gay". Gay? Ai, ai...

Muitas feministas radicais, por incrível que pareça, dizem que as mulheres trans são homens que dizem que são mulheres porque querem ocupar os movimentos feministas e os espaços públicos ocupados pelas mulheres. Se nossa história não tivesse sido apagada, essas feministas saberiam que, pelo contrário, as pessoas trans existem desde "sempre" e que foram expulsas dos espaços públicos da mesma forma que as mulheres.

Fazem questão de excluir as mulheres trans de seus espaços porque elas têm "sexo masculino". Muitas vezes dizem que as mulheres trans têm privilégios masculinos. Oi? Privilégios masculinos?

Quem são as travestis?

Uma vez que existe um esforço constante para apagar as travestis da história e da sociedade, existem poucos dados sobre a vida social das travestis. Mas temos alguns poucos dados.

Gabriela Monelli, presente!
Segundo o GGB, dos assassinatos documentados de LGBTs em 2013, 35% eram travestis. A estimativa do GGB de 2011 é que existem 50 mil travestis e 2 mil transexuais no Brasil. Ou seja, ano passado, cerca de uma travesti a cada 460 foi assassinada em 2013. Comparando os dados do GGB de forma relativa à população (considerando que 7,8% dos homens se declararam homossexuais num estudo do Instituto de Psiquiatria do HC da USP em 2009), concluímos que a probabilidade de uma travesti ser vítima fatal de um crime de ódio é cerca de 90 vezes maior que a de um homem gay. Um estudo feito nos EUA aponta que 46% dos homens transexuais e 43% das mulheres transexuais já tentaram cometer suicídio em sua vida. Temos também alguns dados sobre as travestis na Argentina: lá, a expectativa de vida de uma travesti é de 35 anos, 90% delas vive em situação de prostituição e 16% não concluíram o ensino fundamental.

A conclusão inevitável é que a grande maioria das travestis (que começam a se identificar, em média, entre 10 e 12 anos de idade) é expulsa das escolas e é arrastada à prostituição por não encontrarem nenhum espaço no mercado de trabalho formal. Um dos únicos espaços sociais que não expulsam sistematicamente as travestis de seu interior são as casas de prostituição. Saúde pública, transporte público, polícia, sistema judiciário e universidades são apenas alguns exemplos das instituições nas quais as travestis são constantemente hostilizadas. Entre as travestis, são também comuns os relatos de estupro, assédio e agressões físicas e psicológicas, desmoralizações, etc.

A exploração sexual de travestis é bastante lucrativa. O tráfico humano associado à prostituição também atinge as travestis ainda crianças. Existem, inclusive, especialistas em procurar as travestis jovens que ainda estão dentro do armário. Só como um exemplo, imagine um "menino" de 12 anos que sonha constantemente em "tornar-se" uma menina, que é hostilizada na escola e em sua casa, quando não é expulsa. Este(a) especialista, no momento oportuno, lhe faz uma oferta: ela pode ganhar um corpo de mulher, mas terá que "trabalhar" para pagá-lo. Para quem não sabe, para as travestis da periferia, este "corpo de mulher" é criado a partir de pesadas doses de hormônios e pela aplicação clandestina de silicone industrial em seu corpo, o que denominam de bombadeiras. É desnecessário dizer o quanto isso é arriscado para a saúde e a própria vida destas adolescentes. Esta travesti, ainda adolescente, não terá escolha senão ser vítima de exploração sexual até pagar sua "dívida".

Resumindo, a posição social mais comum das travestis está muito longe de serem as posições privilegiadas de alguns homens: os empregos mais bem remunerados, os postos administrativos e políticos ou entre os capitalistas. Algumas travestis podem ser encontradas nos postos típicos ocupados pela maioria das mulheres, mas a maioria das travestis não são professoras e pedagogas mal remuneradas, nem cozinheiras, faxineiras, terceirizadas, etc. A condição mais comum das travestis é muito parecida com a das mulheres mais oprimidas, mais pobres e marginalizadas da nossa sociedade, assim como acontece com muitas mulheres negras.

Portanto, do ponto de vista social, as travestis não são homens, mas mulheres, mulheres oprimidas, pobres e marginalizadas. Elas não são vítimas apenas dos crimes de ódio direcionados a LGBTs, mas também da naturalização da violência contra a mulher, da objetificação e sexualização da mulher, da exploração sexual, da expulsão dos espaços públicos e de quase todo tipo de marginalização e violência que as mulheres sofrem (exceto aqueles relacionados à gravidez e à reprodução). Mesmo as travestis que não se identificam como mulheres, na maior parte das vezes estão socialmente mais próximas das mulheres do que dos homens. É verdade que as pessoas dizem que as travestis são homens disfarçados como mulheres, mas, ao mesmo tempo, as travestis são tratadas como aberrações da natureza e como mulheres indesejadas.

Invisíveis.

Quem determina nossa existência?

Parece ser óbvio, deveria ser óbvio, mas ainda precisamos dizer pra todo mundo que nós somos quem nós somos. Quem determina quem nós somos e quem nós deveríamos ser não é a sociedade, nem os capitalistas da mídia, da imprensa e das religiões que mais parecem empresas, nem as teorias acadêmicas absurdas que reduzem o nosso gênero à nossa genitália, nem os psicólogos e endocrinólogos, muito menos as pessoas que nos chamam de pirocos, mas sim nós mesmas.

sábado, 19 de julho de 2014

Uma pequena palavra sobre este inusitado blog

Olá! Meu nome é Jéssica e eu tenho uma coisa a dizer.

Há até cerca de um ano atrás, eu tinha um blog, que continua no ar, mas está abandonado. Sim, abandonei o blog junto com as ideias absurdas que ele carrega. Não que eu o negue: poderia eu negar minha própria história, minha própria existência? Mas ah! Sim, tem muita merda ali!

Minhas ideias mudaram, minha concepção de mundo mudou, minha vida mudou, eu mudei. Mas nem tanto assim.

Aquele outro blog, eu o criei por uma razão muito simples, porém crucial para a minha própria existência, para minha própria identidade, direito ao qual me foi negado e continua sendo negado dia após dia, quando eu ando na rua, quando eu apareço publicamente, quando eu tento conversar. No começo de 2011, um "escândalo" familiar me abriu os olhos: eu precisava ter minha própria opinião, urgente. O constrangimento, a intimidação, a violência, a opressão tinham me domesticado a não dizer nada até o ponto que me fez explodir para fora tudo o que já existia do lado de dentro. Mas explodir para fora... para onde? Aonde explodir tudo aquilo, se não aprendi a falar? Eu só sei escrever!

Estava em um planeta estranho, em um mundo confuso e queria sair dali, como a Alice, no país das maravilhas medonhas.
Podes dizer-me, por favor, que caminho devo seguir para sair daqui?
Isso depende muito de para onde queres ir - respondeu o gato.
Preocupa-me pouco aonde ir - disse Alice.
Nesse caso, pouco importa o caminho que sigas - replicou o gato.
Lewis Carrol

Desorientada como uma cega no meio de um tiroteio, no fundo eu já sabia que, para ter uma opinião própria, precisava construir uma. Fui assim construindo minha própria identidade a partir do que me foi ensinado, construindo novas ideias e pouco tempo depois deixando elas pelo caminho. Todo mundo pensa, mas ninguém pensa sem um modo de pensar e ninguém muda o modo de pensar sem mudar, ao mesmo tempo, sua própria vida, sua própria existência.

Para explicar de onde saí, por onde percorri e aonde cheguei, precisaria mais do que uma pequena palavra. Por ora, resta-me dizer que não cheguei em lugar algum porque ainda não morri. Sei falar mais do que sabia em 2011, o mundo ao meu redor mudou em muitos sentidos, mas a necessidade de escrever permanece. Sem blog, não deixei de escrever, mas voltou o sufoco e com ele o desespero. Precisei chegar à mesma conclusão que antes: preciso escrever, preciso de um blog, antes que eu me afogue. Um novo blog para uma nova pessoa:

uma travesti marxista.


P.S.: Melhor deixar aqui este aviso antes que alguém venha reclamar.