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sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Georgi Chicherin: homossexual, ex-aristocrata e bolchevique

[Texto originalmente publicado em http://blogconvergencia.org/?p=6518]
 
Nossa muito sofrida República Soviética passou por tanta coisa durante os últimos dois anos que, no espaço de um breve jornal de revisão, é possível apenas apontar os marcos mais importantes deste período. A história política das relações exteriores da Rússia Soviética nesses dois anos é uma trágica história de luta sem fim, inspirada por inúmeros inimigos que literalmente não deram nenhum descanso ao jovem regime dos trabalhadores e camponeses. […]
A revolução de novembro, o primeiro ato da revolução social mundial, colocou de uma vez o Governo Russo Soviético à frente do movimento revolucionário mundial como o mensageiro e a inspiração da revolução proletária.
[CHICHERIN, p. 3]
É assim que Georgi Chicherin começa o “breve” jornal (um pequeno livro de bolso). Quando ele sucedeu Leon Trotsky no posto de Comissário do Povo para as Relações Exteriores (uma espécie de Ministro do Exterior), não havia, na teoria marxista, qualquer elaboração sobre relações exteriores. Esta foi, portanto, a primeira publicação marxista dedicada ao assunto.
Chicherin mudou muito. Poucas pessoas acreditariam que ele havia sido um aristocrata religioso e moralista retornaria à Rússia em 1918 como um verdadeiro bolchevique. A complexa amizade que ele teve com Mikhail Kuzmin, o autor do primeiro romance russo sobre homossexualidade, mostra uma evolução do pensamento de Chicherin ao longo dos anos. Infelizmente, pouca atenção é dada pelos historiadores à sua homossexualidade (ou talvez bissexualidade). Os artigos e livros que citam isso se restringem a falar sobre Chicherin em um ou dois parágrafos no meio de um texto que tem outro foco. É como se sua sexualidade fosse irrelevante para sua vida política e vice-versa.
Mas não há dois “Georgis Chicherins”, isso é óbvio. Houve apenas um personagem histórico que se transformou ao longo do tempo, transformação esta que atinge tanto suas visões sociais e políticas quanto como ele encarava a sua sexualidade.

De religioso e moralista a materialista

Georgi Chicherin estudou história e linguagem na universidade de São Petesburgo a partir de 1886, onde conheceu Mikhail Kuzmin. Tornaram-se amigos íntimos. Chicherin foi uma forte influência na vida do amigo, levando-o a conhecer filosofia e aprender italiano e alemão [MALMSTAD, p. 16-8]. Após retornar à Rússia em 1897, Chicherin trabalhou no departamento de arquivos do Ministério das Relações Exteriores até 1903 [MEYENDORFF, p. 175].
Chicherin e Kuzmin “mencionam suas inclinações sexuais em suas cartas” [MALMSTAD, p. 19]. Naquele momento, Chicherin convenceu Kuzmin a confiar na “Providência Divina”, da necessidade de ter “sentimentos corretos” e da abstinência sexual, apresentando a ele o jesuíta Canon Mori [p. 33-6]. A falha de Kuzmin em encontrar uma cura o levou várias vezes a tentar cometer suicídio [cf. p. 47]. Com o tempo, Canon Mori percebeu que era incapaz de resolver as crises de seu devoto e exortou-o a buscar ajuda com um médico especializado em distúrbios nervosos [p. 41-2].
Toda pessoa LGBT que teve uma educação conservadora ou moralista carrega uma antítese dentro de si. Por um lado, sua consciência alienada que compreende que ser LGBT é pecado, doença ou anormalidade. Por outro, sua própria existência concreta, que expressa as características que são consideradas de LGBTs.
No caso de Kuzmin, essa antítese teve outros desdobramentos. A busca pela religiosidade e pela “cura” o levaria à seita dos velhos crentes, muito influente em sua região. Essa seita, que defendia os “velhos costumes” e rejeitava o presente, existia desde 1666 como uma reação à Reforma da Igreja Ortodoxa Russa. Por outro lado, como a principal inspiração de Kuzmin eram suas fortes paixões por outros homens, ele passou a entender que seu trabalho criativo era um pecado [cf. p. 66]. Essa antítese fica explícita em seu relato de 1901 [p. 63].
Já Chicherin foi para a direção oposta. Em sua carta de agosto de 1901, afirmo que, apesar de compreender como os velhos crentes atraiam a Khuzmin, este estaria enganando a si mesmo em pensar que ele poderia ser algo além de um “cidadão naturalizado”. Chicherin comparou-o a dois hegelianos russos que “viam o niilismo, o revolucionismo e o materialismo como sintomas da doença da sociedade europeia ocidental” [p. 52].
Já em 1904, Chicherin escreveu uma carta que mostrava que sua concepção deu um passo adiante. Chicherin percebia que a busca de Khuzmin por uma “nova arte” era uma rejeição dos valores de sua época. Isso fazia parte do contexto social em que emergia na Rússia o movimento social democrático, que buscava o fim da ditadura czarista e que também ansiava, segundo ele, por uma “reavaliação dos valores” [p. 51].
Os registros dos anos seguintes mostram que Chicherin abandonou a visão moralista sobre a homossexualidade. Foi em 1906, quando estava em Berlim, que Chicherin fez uma crítica à obra “Asas”, que retratava um jovem homossexual que “saiu do armário”, como se tivesse ganhado asas. A crítica era sobre o excesso de disquisição “sempre sobre o mesmo assunto” e foi aceita pelo autor, que, em consequência, fez várias mudanças na obra [p. 96]. No mesmo ano, este publicou também as “Canções Alexandrinas”, que foram baseadas na coleção de poesias lésbicas e eróticas “Les Chansons de Bilitis” e retratava romances entre homens. Chicherin exaltou-as por sua grandiosa maestria e por retratar “o mais puro Kuzmin” [cf. p. 100].

De aristocrata a menchevique e, mais tarde, a bolchevique

Boris Chicherin, tio de Georgi, faleceu em 1904 e suas propriedades foram herdadas pelo sobrinho, que tornou-se muito rico. Entretanto, Georgi Chicherin envolveu-se com o Partido Socialista Revolucionário (que era muito influente entre os camponeses) e, por repúdio à riqueza e à propriedade privada, doou o que tinha em nome da Revolução. No mesmo ano, sua prisão iminente o obrigou a fugir para Berlim [ANDREYED, p. 76]. Em 1905, Chicherin tornou-se menchevique e inimigo de Lenin, assim permanecendo até 1914 [DEBO, p. 651].
No começo do conflito, Chicherin acreditava que a principal necessidade eram as revoluções democráticas nos países monarquistas e na Rússia czarista. Baseando-se na teoria marxista que explica que, em tempos de guerra, os socialistas deveriam apoiar o Estado cuja vitória mais ajudasse na causa da revolução socialista, defendia o apoio à Grã-Bretanha e à França, que eram, segundo ele, os países mais progressistas. Entretanto, os socialistas não deveriam apoiar o regime czarista, mas, pelo contrário, atuar para sua derrubada [p. 653].
Os artigos de do final de 1915 e começo de 1916 mostram uma mudança de posição. Conforme suas próprias palavras: “No curso da guerra defensiva, o capital inglês aproveitou-se dos sindicatos de trabalhadores para manter o poder em suas próprias mãos, enquanto mantinha-o longe das classes trabalhadoras. A política inglesa, com clareza ofuscante, revelou a ele [Chicherin] o papel da democracia, a forma mais refinada de dominação do capital” [p. 653]. Segundo ele, a guerra tinha origem imperialista e era mantida por capitalistas e monarquistas feudais para os seus próprios interesses de classe. A única forma de evitar esta guerra e as guerras futuras era a destruição do capitalismo e da monarquia feudal pelas classes dominadas dirigidas pelo proletariado. Entretanto, os imperialistas se apropriaram das organizações da classe trabalhadora e dos partidos social-democratas, que se tornaram “burocracias partidárias”. Com esta posição política, o velho menchevique já era um bolchevique em espírito [p. 653-4]. Do outro lado da Europa, num memorando de março de 1916, Lenin comentou que seu antigo adversário estava realizando um “grande serviço” a favor da causa internacionalista [p. 655].
A atuação política de Chicherin que obteve maior sucesso foi entre centenas de imigrantes russos, na maioria foragidos da ditadura czarista e da conscrição, contando com o apoio da militante suffragette Mary Jane Bridges-Adams em algumas ocasiões. Houve um acordo em 1916 entre os governos russo e britânico para que esses imigrantes fossem enviados de volta à Rússia ou que fossem conscritos ao exército britânico. A partir de um protesto em 13 de março de 1916, foi criado o Comitê dos Delegados dos Grupos Socialistas Russos em Londres. A partir da denúncia do czarismo e do governo britânico, campanha alcançou um público amplo não só na comunidade russa, mas também na população britânica. Como resultado, o governo suspendeu a decisão por seis meses [p. 656].
Por causa da crescente influência dos sovietes e de Chicherin, o governo britânico decidiu prendê-lo. Preso, teve contato limitado com conhecidos e as visitas de Bridges-Adams foram proibidas [p. 660].
Leon Trotsky, que era o Comissário do Povo para as Relações Exteriores, no dia 26 de novembro, enviou uma mensagem ao embaixador britânico George Buchanan, exigindo a libertação dos prisioneiros bolcheviques Chicherin e Petrov, afirmando que haviam ingleses engajados em atividades contrarrevolucionárias na Rússia e avisando que “a democracia revolucionária não pode aceitar que heróis valorosos definhem em campos de concentração na Inglaterra enquanto cidadãos ingleses não sofrem qualquer restrição no território da República Russa” [p. 660]. Diante da negativa do governo inglês, Trotsky emitiu uma ordem proibindo todos os ingleses que estavam na Rússia de saírem do país. Seu primeiro deputado, Ivan Zalkind, disse certa vez a um inglês que desejava um visto de saída: “Para lhe fornecer um visto nós precisamos consultar o camarada Chicherin – sem Chicherin, sem visto!” [p. 660-1]
Essa pressão política obteve sucesso. O acordo foi firmado em 10 de dezembro, mas foi apenas em 2 de janeiro de 1918 que Georgi foi notificado das negociações feitas por Leon Trotsky. No dia seguinte, após uma pequena festa de despedida feita por seus amigos, Chicherin embarcou no trem. Depois de 13 anos de exílio, finalmente retornaria pra casa.

De volta à Rússia Soviética

No começo do século XX, a criminalização da homossexualidade era comum entre quase todos os Estados Burgueses. O movimento homossexual ainda incipiente concentrava-se no Instituto Científico-Humanitário, na Alemanha, que reivindicava a revogação do parágrafo 175 que criminalizava a “sodomia”. Naquela época, a consciência sobre a necessidade de se combater o preconceito e a violência contra LGBTs era quase inexistente.
A Revolução de Outubro colocou a Rússia Soviética à frente de todos os principais países imperialistas com respeito aos direitos das mulheres e LGBTs. Logo nos primeiro meses, todo o Código Penal russo, com uma visão moralista herdada do czarismo e do catolicismo ortodoxo, foi descartado. O novo governo soviético pôs-se imediatamente a elaborar um novo Código Penal, promulgado em 1922, baseado em concepções mais modernas de criminalidade. No novo código penal, a criminalização da “sodomia” consensual entre adultos foi intencionalmente deixada de lado. A política bolchevique era a absoluta não-interferência do Estado Soviético nas questões sexuais. Tudo isso durou até 1933-34, quando a “sodomia” consensual foi novamente criminalizada pelo stalinismo como parte da política de perseguição aos homossexuais que já havia se iniciado sorrateiramente na segunda metade da década de 1920 [cf. HEALEY, 1993].
Lenin tinha muito respeito pelo novo Comissário para as Relações Exteriores. São inúmeras as cartas entre eles. Em 1919, ocorreu o Primeiro Congresso da Terceira Internacional Comunista, no qual Chicherin foi um dos cinco delegados russos. Ou seja, o fato de que Chicherin era homossexual não parece ter afetado essa relação de confiança.
No tempo em que permaneceu como Comissário, Chicherin manteve uma política contra o imperialismo e da opressão nacional. Defendia a “autodeterminação dos trabalhadores de toda nacionalidade”, abolição da “diplomacia secreta, rompendo de uma vez com as tradições imperialistas através da publicação dos tratados secretos como também pela renúncia de todos os acordos ditados pela política imperialista do regime czarista” [CHICHERIN, p. 3-4]. Com essa concepção, conseguiu criar acordos com países muçulmanos, em especial com o Afeganistão. Com isso, ele colocou em prática a máxima de Marx: “Um povo que oprime outros povos não pode ser livre”. Outro aspecto inédito das relações exteriores da recém-formada Rússia Soviética era o apelo para que os trabalhadores dos outros países se mobilizassem contra a intervenção militar imperialista no novo país soviético.
[O] movimento revolucionário gradual e crescente continuou avançando nos países da Entente e, por toda a Europa, as classes dominantes estão tomadas pelo medo conforme elas sentem a aproximação da revolução mundial. A imagem maravilhosa do ataque da reação mundial sobre a Rússia Soviética, a luta desesperada da última e sua defesa bem-sucedida inspira as classes trabalhadoras de todos os países. Este ano (1919), nós escrevemos menos notas aos governos, mas mais apelos às massas trabalhadoras. […] A cena da presente batalha entre dois mundo não tem precedentes na imensidade de suas proporções. […] A política externa da Rússia Soviética conforma-se mais e mais à batalha universal entre a revolução e o velho mundo.
[CHICHERIN, p. 35-36]
Durante seu trabalho como diplomata, Chicherin deparou-se com um grande obstáculo: a homofobia de Maxim Litvinov, um dos membros do Comissariado para as Relações Exteriores. Boris Bazhanov, secretário de Stalin de 1923 a 1928, relata que Chicherin e seu principal deputado, Maxim Litvinov, constantemente enviavam memorandos secretos ao Comitê Central do Partido Bolchevique criticando e xingando um ao outro. Litvinov afirmava que seu adversário era “pederasta, idiota, maníaco e anormal” [BAZHANOV, 1930 apud KOTKIN, 2014, p. 152]. Além de invejar seu adversário pelo seu posto e também das divergências políticas, Litvinov tinha especial aversão porque era homofóbico. Apesar disso, Maxim Litvinov permaneceu no posto e sucedeu Chicherin como Comissário para as Relações Exteriores em 1930.

A visita do velho amigo

Ao que tudo indica, as divergências políticas entre Chicherin e Khuzmin mantiveram-nos bastante distantes. Mikhail Khuzmin diversas vezes se opôs aos movimentos revolucionários, apesar de ter apoiado a Revolução de Outubro quando ela ocorreu.
Apesar da política bolchevique de não interferência nas questões sexuais, o clima homofóbico a partir de 1923-24 era crescente. Em junho de 1926 na “Gazeta Vermelha” (Krasnaya Gazeta), um longo artigo de Mikhail Padvo retratava a arte de Khuzmin como “burguesa” por causa das “poses e gestos eróticos” que foram emprestados das “operetas negras” [MALMSTAD, p. 337]. Sua carreira praticamente chegou ao fim nesse ano, junto com a política de liberdade artística que havia sido defendida por Lenin e também por Trotsky. Tudo isso representa um retrocesso gradual na política bolchevique que prevalecia no começo da década de 1920 [cf. HEALEY, 1993].
Chicherin não sabia disso. Em novembro de 1926, chegou em Leningrado e mandou avisar Khuzmin que queria que ele fosse visitá-lo. “Mieux veut tard que jamais,” começou dizendo. Eles conversaram sobre “artes, polêmicas, amizade, talento, diplomacia” e também sobre a fama que Khuzmin havia adquirido na Alemanha. Chicherin indagou Khuzmin sobre por que seu amigo estava escrevendo e publicando pouco [p. 340].
Desse relato, podemos tirar duas conclusões. Como Chicherin sabia sobre a fama que Khuzmin tinha nos grupos de homossexuais que estavam florescendo na Alemanha, significa que ele tinha algum contato com esses grupos, talvez também com o Instituto Científico-Humanitário. É possível que esse contato inclusive tenha ocorrido antes de 1917, quando viveu entre a Alemanha, a França e a Inglaterra. A outra conclusão é que Chicherin acompanhou, em alguma medida, os trabalhos de Khuzmin. Não vemos aqui um julgamento moral, muito menos uma repreensão como a que foi feita por Padvo. Muito pelo contrário, o velho diplomata queria que seu amigo continuasse a produzir.

Sobre a lenda de que Chicherin nunca aceitou sua homossexualidade

Existem poucas fontes sobre a homossexualidade desse importante bolchevique. Há um motivo para isso. Como parte da contrarrevolução stalinista, todas as discussões artísticas ou científicas sobre a sexualidade foram proibidas. Livros e textos sobre o assunto foram apreendidos pela NKVD (órgão que deu origem à KGB) ou queimados na década de 1930 [HEALEY, 2001]. Alguns artigos e rascunhos pessoais de Georgi Chicherin provavelmente ainda estão detidos pela polícia da Rússia [HEALEY, 1993, p. 45]. Chicherin também foi apagado da Enciclopédia da União Soviética e dos arquivos históricos do partido comunista soviético [MEDVEDEV, p. 202; MEYENDORFF, p. 173].
Devido à falta de mais evidências sobre a homossexualidade Chicherin, surgiu uma lenda entre os historiadores de que ele nunca aceitou sua sexualidade. Entretanto, existe uma única evidência, totalmente duvidosa, que aponta nesse sentido, e que inclusive entra em contradição com as evidências já apresentadas aqui. Todos os textos que fazem essa afirmação baseiam-se, direta ou indiretamente, em duas notas de rodapé do artigo de Alexander Meyendorff, primo de Chicherin. Entretanto, essas duas notas foram adicionadas pelo editor do artigo, Igor Vinogradoff, amigo pessoal de Meyendorff, e não pelo próprio autor. A primeira afirma que, na viagem de Chicherin a Berlim em 1904, “ele estava buscando uma cura para a homossexualidade que perturbava sua mãe e provavelmente distorcia sua própria personalidade” [MEYENDORFF, p. 175]. A segunda afirma que o termo “doença” no texto de Meyendorff era um eufemismo para a “homossexualidade e os sentimentos de culpa decorrentes dela” [p. 178]. O problema é que nem mesmo Meyendorff conhecia o pensamento do Chicherin, quanto mais o seu amigo, Vinogradoff. Por exemplo, em 1903, quando Chicherin apenas defendia o fim do czarismo e a renovação de valores, seu primo já o considera um “marxista radical” que já estava longe das visões da mãe [p. 174].
Como vimos, é provável que a primeira nota retrate um fato histórico, não só da homossexualidade de Chicherin, mas também de que ele tinha trejeitos (a “distorção na personalidade”). Já a segunda nota parece refletir, no máximo, uma opinião de Meyendorff. Chicherin foi à Berlim em 1926 e novamente em 1928 para tratamento de diabetes e polineurite (inflamação e degeneração dos nervos). Em seus últimos dias, passava por crises de loucura. Faleceu em 1936 de derrame cerebral [cf. POOLE, p. 90]. Esses fatos derrubam a única e frágil evidência apresentada de que Georgi Chicherin nunca aceitou sua própria sexualidade.

Bibliografia

Andreev, A. I. Soviet Russia and Tibet: The Debacle of Secret Diplomacy, 1918-1930s. Leiden: Brill, 2003.
Debo, Richard K. "The Making of a Bolshevik: Georgii Chicherin in England 1914-1918." Slavic Review 25.4 (1966): 651. Web.
Chicherin, G. Two Years of Foreign Policy the Relations of the Russian Socialist Federal Soviet Republic with Foreign Nations from November 7, 1917, to November 7, 1919. New York: Russian Soviet Government Bureau, 1920.
Healey, Daniel. "The Russian Revolution and the Decriminalisation of Homosexuality." Revolutionary Russia 6.1 (1993): 26-54.
Healey, Daniel. Homosexual Desire in Revolutionary Russia: The Regulation of Sexual and Gender Dissent. Chicago: U of Chicago, 2001.
Kotkin, Stephen. Stalin: Volume I: Paradoxes of Power, 1878-1928. N.p.: Penguin, 2014.
Malmstad, John E. e N. A. Bogomolov. Mikhail Kuzmin: A Life in Art. Cambridge, MA: Harvard UP, 1999.
Medvedev, Roy Aleksandrovich. Let History Judge: The Origins and Consequences of Stalinism. New York: Knopf, 1971.
Meyendorff, Baron Alexander. “My Cousin, Foreign Commissar Chicherin.” Russian Review 30.2 (1971), p. 173-178.
Poole, DeWitt C., Lorraine M. Lees, e William S. Rodner. An American Diplomat in Bolshevik Russia. Madison, WI: U of Wisconsin, 2014.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Após as eleições, a saída é pela esquerda!

Acabou o primeiro turno das eleições de 2014. Doze anos se passaram desde que Lula foi eleito pela primeira vez e muita gente está, com justiça, indignada com o governo do PT. Percebo, entretanto, que uma parte dessas pessoas volta os olhos para a velha direita, o PSDB, como alternativa para "mudar a situação". Muita gente começa a dar ouvidos para discurso do PSDB que diz que a corrupção e a precarização dos serviços públicos são problemas exclusivos do PT. Aécio até engana com aquele sorriso simpático, não é?

[Esse texto não aborda o tema das opressões, pretendo fazer isso com mais fôlego no próximo.]

O governo do PT causou, uma boa confusão na classe trabalhadora, até o ponto que uma boa parte da classe trabalhadora não se reconhece enquanto classe. Paralelamente a isso, muitos defensores de teorias pós-modernas (em especial foucaultianas) transmitem a ideia que as classes sociais são "ideológicas", como se o problema do capitalismo fosse "preconceito contra pessoas pobres" (erroneamente chamado de "classismo"). Muita gente não sabe mais a diferença entre esquerda e direita e acha que "luta de classes" é uma invenção do marxismo.

Classes sociais existem!

O capitalismo é, a grosso modo, o sistema de produção onde uma pequena parcela da população é proprietária dos meios de produção que abastecem toda a sociedade, que é denominada classe burguesa. Outra parcela majoritária da população é teoricamente livre, mas não possui nenhum meio de sobreviver senão vendendo sua força de trabalho para a burguesia. Esta é a classe trabalhadora ou proletariado.

[Além dessas duas, existem também o campesinato e a pequena burguesia, e talvez outras variações, que não abordaremos nesse texto. Aqui tem uma boa fonte sobre a origem do Capitalismo.]

Uma pessoa que é proprietária de uma fábrica tem interesse de pagar o mínimo possível para as trabalhadoras, enquanto as trabalhadoras querem receber o máximo possível. Os interesses das duas classes são opostos. Entretanto, no sistema capitalista, quem decide o salário é a proprietária, não a trabalhadora. Se ela não aceita o salário, e se existe quem precisa deste salário, ela será substituída (isso explica porque a maior parte dos empregos nos países subdesenvolvidos recebem, no máximo, pouco mais que um salário mínimo). Se ela se revolta sozinha, ela é demitida. O único meio que a classe trabalhadora tem para defender seus interesses é a partir da organização coletiva: greves, manifestações de rua, greves gerais, revoluções, etc.

Rio de Janeiro, Junho de 2013
Essa é a luta de classes. A História e até a imprensa atual nos mostram que ela não é invenção das pessoas marxistas, nem das socialistas em geral, ela muitas vezes acontece sem que tenha ninguém lá para dirigi-la.

Na política, a distinção entre direita e esquerda não é caracterizada pela defesa do Estado mínimo ou máximo, da privatização ou estatização, pela "liberdade" ou "controle estatal absoluto". O que distingue a direita da esquerda é a defesa dos interesses que pertencem principalmente à classe burguesa (ou a uma parte dela) ou que pertence principalmente à classe trabalhadora (ou a uma parte dela), respectivamente. O conflito entre a direita e a esquerda é a forma concreta que a luta de classes toma na política.

Sociedade capitalista, Estado capitalista

Estamos em uma sociedade capitalista. O Estado não é neutro, ele tem um objetivo: garantir que a sociedade "funcione", ou seja, que o capitalismo continue a existir. De maneira geral, isso se traduz na defesa do direito à propriedade acima de qualquer outro direito, até mesmo do direito à vida. Um exemplo concreto: no Pinheirinho, o direito à propriedade privada de um burguês (Naji Nahas) se sobrepôs a vários direitos de mais de seis mil pessoas.

Existe o direito à propriedade, mas não existe o direito a um emprego com salário digno. Isso por si só já coloca a proprietária e a trabalhadora em uma relação desigual: a proprietária continuará tendo sua propriedade, caso a trabalhadora não aceite o salário, mas esta pode não ter um emprego garantido caso não aceite as condições daquela. Muitas vezes, sua própria sobrevivência depende disso.

O Estado pertence à classe economicamente dominante. No capitalismo, o Estado é burguês. São inúmeras as leis que, em maior ou menor grau, beneficiam a classe burguesa em detrimento da classe trabalhadora. As leis trabalhistas (carga horária, férias, aposentadoria, seguro desemprego, salário mínimo, etc) existem porque os partidos de esquerda trouxeram a luta de classes para o campo político. E é esta luta política que Dilma, Aécio e Marina abafaram nos debates eleitorais.

Partido dos trabalhadores?

O governo do PT não foi um governo da classe trabalhadora. Cumprindo o que estava escrito na Carta ao Empresariado Povo Brasileiro, o governo do PT manteve, em essência, o tripé econômico neoliberal iniciado pelo governo do PSDB: a preservação das metas inflacionárias, o superávit fiscal e o câmbio flutuante. Ou seja, ainda que o PT tenha criado ou ampliado algumas medidas de compensação (como o Bolsa Família e a valorização do salário mínimo), o governo teve centralmente uma política neoliberal.

Isso significa, em particular, preservar o constante pagamento da "dívida pública", que nada mais é do que um mecanismo de transferência de dinheiro para os banqueiros. Essa "dívida" já foi paga dezenas de vezes, o governo está pagando juros sobre juros. Como a experiência demonstra, esta dívida cresce exponencialmente e não pode ser paga. Isso significa que mais de 40% dos nossos impostos são transferidos como uma "Bolsa Banqueiro", não para os miseráveis como acontece com o Bolsa Família, mas sim para quem já têm dinheiro de sobra.

Durante esses doze anos, foram realizadas privatizações, aumento da precarização e da terceirização, reforma da previdência, escândalos de corrupção, parcerias público-privadas, entre outras políticas de direita.

O governo gasta, por ano, 800 bilhões com a dívida pública, empresta centenas de bilhões em subsídios para empresas pelo BNDES e gasta apenas 24 bilhões no Bolsa Família. Resultado: até 08/09, Dilma havia recebido 68% do dinheiro que veio das dez maiores empresas financiadoras da campanha eleitoral deste ano. Ou seja, Dilma é a candidata preferida da alta burguesia.

O fato que houve a implementação de alguns programas para combater a desigualdade social não mudam que, de conjunto, o governo do PT foi de direita, pois nada disso supera os 800 bilhões que são gastos todos os anos no Bolsa Banqueiro.
Não importa o tamanho da montanha, ela não pode tapar o sol.

Mas o PSDB não pretende mudar nada disso, muito pelo contrário, o Aécio Neves defende todas essas políticas descritas aqui.

Totalitarismo e corrupção são de esquerda?

Corre solto o mito que comunistas são comedores de criancinhas. O stalinismo causou um enorme retrocesso quando transformou a URSS em uma ditadura, revogando direitos, reprimindo manifestações e greves que incomodavam sua posição. Não só isso, como, a partir do enorme poder político que conseguiu, fez com que todas as revoluções socialistas posteriores também fossem baseadas na teoria stalinista.

Hoje, a direita refere-se à esquerda como aquela que defende um grande Estado corrupto e totalitário que controla a tudo e a todos e "faz qualquer coisa" para permanecer no poder. Esse é o estereótipo, o espantalho criado pelo imperialismo a respeito do comunismo na época da Guerra Fria.

Desfaçamos os mitos. O stalinismo é prova de que um governo socialista pode, de fato, tornar-se ditatorial, mas o totalitarismo em si não é de esquerda nem pode sê-lo, pois ele agride muito mais a classe trabalhadora do que a burguesia. Socialismo significa uma sociedade onde o controle sobre os meios de produção é feito pela classe trabalhadora. Ao reprimir as manifestações democráticas da classe trabalhadora, o stalinismo estava fazendo a URSS andar em direção à restauração do capitalismo.

A corrupção também é parte do capitalismo, é um dos métodos pelos quais a burguesia exerce sua influência econômica para que o Estado defenda seus interesses. É verdade que a mídia burguesa e a direita tradicional, como o PSDB, apropriou-se da corrupção endêmica do capitalismo para difamar o PT e tentar derrubá-lo, mas não se pode negar que o PSDB e todos os partidos da ordem também estão afundados na lama da corrupção. A diferença é que a mídia, quando muito, divulga esses casos com bastante timidez.

Algumas pessoas de direita chegam a defender o absurdo que Hitler e Mussolini eram de esquerda. Hitler não defendia o Estado Burguês clássico, defendia abertamente um Estado totalitário, um "reino" dominado por um partido único que estivesse acima de qualquer direito individual, inclusive do direito à propriedade privada. Ele chamou a seu partido de "socialista" e usou muito a cor vermelha, mas os registros históricos mostram que isso foi uma escolha deliberada para enganar os trabalhadores, já que o socialismo estava "na moda" na época. Entretanto, Hitler tinha o apoio dos grandes monopólios internacionais, ao contrário de todos os partidos de esquerda que já existiram na História.

O grande magnata da mídia norte-americana da época, William Hearst, apoiou Hitler, criando uma boa imagem do nazismo nos EUA. Quando Charlie Chaplin decidiu criar o filme "O Grande Ditador", os capitalistas que ele conhecia tentaram convencê-lo a não lançar esse filme, pois apoiavam Hitler. O partido nazista difundia os valores morais burgueses, era a escolha da burguesia para combater o socialismo da URSS e impedir que ele se espalhasse por todo o mundo, além de criar uma guerra que seria fonte de altíssimos lucros.

    Comparação dos gastos do governo dos EUA
    À esquerda: gastos nas  áreas científicas em 2011
    No meio: gastos militares em 2011
    À direita: total dos gastos na NASA de 1958 a 2011

É estarrecedor que o modelo mundial de "liberdade" e de "democracia" seja os EUA, um país que gasta 300 vezes mais dinheiro com gastos militares do que com pesquisas científicas. Ignora-se, com isso, os registros históricos que mostram que várias multinacionais dos EUA inclusive continuaram a vender seus produtos e oferecer serviços para a Alemanha nazista em plena guerra, mesmo depois da entrada dos EUA, com o conhecimento e consentimento do presidente Roosevelt. O governo dos EUA foi diretamente responsável pela instauração de ditaduras militares por toda a América Latina nas décadas de 1960 e 70. Os EUA financiaram ditaduras no Oriente Médio e também o massacre contra o povo palestino.

As ditaduras não se instalam nos países mais miseráveis e desiguais do mundo por motivos religiosos, mas sim porque, quanto maior é a exploração, mais forte é a luta de classes e com mais violência ela precisa ser reprimida. A despeito das aparências e do jogo político, a existência de ditaduras nos países subdesenvolvidos (inclusive na China!) beneficia o imperialismo.

A propaganda deste imperialismo que diz que a ideologia comunista ou marxista é a maior causa de mortes da História não pode ser levada a sério. Em primeiro lugar, essas mortes foram decorrência dos regimes stalinistas. Em segundo, a desigualdade social gerada pelo capitalismo matou e continua matando muito mais pessoas do que estes regimes. Alguns defensores do capitalismo defendem que estes regimes mataram entre 90 e 100 milhões de pessoas. Segundo a própria ONU, 17 mil crianças abaixo de 5 anos morrem por dia no mundo. Isso significa que são necessários pouco mais de 16 anos para que morram 100 milhões de crianças abaixo de 5 anos. Enquanto isso, as 0,7% da população do mundo detém 41% da riqueza mundial.

Qual é a saída?

Deveria ser óbvio, mas é preciso dizer que, para serem livres, as pessoas precisam permanecer vivas. Elas precisam ter alimentação, moradia, vida social e cultural, enfim, direitos básicos garantidos. A "liberdade" que a direita defende tem como base o direito à propriedade privada e à acumulação do capital e, portanto, não aponta a saída para os problemas que incomodam a maioria da população brasileira. A mudança só poderá ocorrer na luta por uma sociedade livre de exploração e de opressão, para que a prioridade do governo sejam os problemas sentidos pela maioria da população, e não que seja um aliado dos bancos e das empresas. Um governo da classe trabalhadora para a classe trabalhadora.

Nem Dilma nem Aécio representam qualquer avanço nesse sentido e, por isso, no segundo turno, meu voto é nulo.