sexta-feira, 17 de julho de 2020

A questão LGBTQIA+ é sobre sexualidade ou sobre gênero?


A natureza é ilimitada em suas criações. Entre todos os opostos existem transições, e isso também é verdade sobre os sexos. Portanto, além do homem e da mulher, existem também homens com traços físicos e psicológicos femininos, assim como mulheres com todo tipo de características masculinas.

Magnus Hirschfeld no filme ‘Diferente dos Outros’ (Anders als die Andern), 1919.

De volta a 2012, o tema LGBT fervilhava na Argentina, onde a Parada LGBT crescia ano a ano e conquistou leis como a de casamento igualitário (em 2010) e a de identidade de gênero (em 2012). Os fundamentalistas do Brasil estavam de cabelo em pé. Feliciano lançou um projeto de lei de ‘cura gay’, mas o tiro saiu pela culatra. Até a Globo foi obrigada a se posicionar indiretamente – e assim nasceu Félix e o primeiro beijo gay numa novela da emissora. Em 2014, os fundamentalistas adotaram o conceito de ‘ideologia de gênero’, apoiando-se nos preconceitos populares contra as travestis e obtiveram grande sucesso em sua empreitada maliciosa. Eles mudaram o chip, mas a esquerda não. Por quê?


Como a sexualidade tornou-se o centro do debate?

Permitam-me digressar um pouco e voltar ao começo do século XX, quando o tema da homossexualidade (na época ‘homossexualismo’) fervilhava na Alemanha e dali começou a fervilhar em diversos países da Europa. Magnus Hirschfeld, médico e homossexual não-assumido, começou a estudar e elaborar sobre o tema. Magnus fundou o Instituto Científico-Humanitário, que se tornou o maior movimento da época pelas liberdades sexuais não somente de homens e mulheres homossexuais, como também das mulheres em geral.

A teoria de Hirschfeld não estudou somente a atração sexual, como também uma série de características do comportamento humano, a maneira de ser, o uso de roupas, a identidade de gênero, etc. O sexólogo já havia percebido que esses comportamentos não estavam necessariamente vinculados à orientação sexual. Como resultado, ele teorizou que essas várias formas de existir eram gêneros intermediários. Ele categorização 64 tipos de gênero intermediário.

E hoje há quem reclame pelo ‘excesso de letras’ em nossa sigla. Ora, se dependesse de Hirschfeld, teríamos de emprestar letras do alfabeto grego e do cirílico!

Sim, estou sendo intencionalmente anacrônica aqui, pois o conceito de gênero só viria a ser concebido nas teorias feministas décadas depois de Hirschfeld. Em vez de gênero, este falava em sexo. Entretanto, atualizando a sua teoria para conhecimentos mais atuais, concluímos que o que define a existência LGBTQIA+ é a variação do comportamento humano em relação às normas de gênero. Resumindo em um conceito, diversidade de gênero.

Essa perspectiva, infelizmente, não se desenvolveu devido, por um lado, ao nazismo na Alemanha e, por outro, ao stalinismo na União Soviética. Ambos movimentos políticos tinham profunda aversão à diversidade de gênero. Enquanto os nazistas acusavam os comunistas de serem todos homossexuais, os stalinistas repetiam o lema “extermine os homossexuais e o fascismo desaparecerá”. Prenderam e assassinaram ativistas, queimaram livros, o Instituto fundado por Hirschfeld foi reduzido ao pó das cinzas. Até mesmo os países supostamente democráticos intensificaram a perseguição à comunidade LGBTQIA+ nas décadas seguintes.

O movimento LGBTQIA+ voltou a revigorar a partir da Revolta de Stonewall, em 1969, que foi protagonizada principalmente por pessoas negras e latinas das periferias, grande parte delas pessoas trans (ou ‘drag kings e drag queens’) profissionais do sexo ou de shows (muito mal pagos). O movimento que dali surgiu, a GLF (Gay Liberation Front – Frente de Liberação Gay), refletia essas características. Entretanto, a GLF de Nova Iorque implodiu logo ao fim de 1970 e deu lugar a GAA (Gay Activists Aliance – Aliança de Ativistas Gays), que tinha caráter muito mais reformista e ‘apolítico’.

Ao buscar visibilidade e ‘diálogo’ com a mídia e os políticos, a GAA foi cada vez mais protagonizada por homens gays brancos e cisgêneros, o que provocou rupturas, por exemplo, com a formação da LLF (Lesbian Liberation Front – Frente de Liberação Lésbica) em 1972 e da QLF (Queen Liberation Front – Frente de Liberação Queen) em 1973.

O protagonismo dos homens gays brancos e cisgêneros refletiu-se nas pautas, cada vez mais voltadas à orientação sexual, e no discurso de que o tema que unía todo o movimento LGBTQIA+ era a sexualidade.


Heteronormatividade ou normas de gênero?

A aberração teórica chamada ‘heteronormatividade’ é um belo exemplo de como essa perspectiva contaminou todo o debate político-teórico. Pelo amor de Inanna, alguém me explique o que a cor do enxoval de um bebê tem a ver com a atração romântica ou sexual que ele vai sentir mais de uma década depois? Nada! É o contrário: tanto a cor do enxoval quanto a atração romântica e sexual são padronizadas para que sejam perpetuadas as normas de gênero. A única definição coerente é considerar como heteronormatividade apenas a norma que estabelece a atração romântica e sexual.

É verdade que a opressão à comunidade LGBTQIA+, no discurso, aparece como opressão ‘aos gays’, mas não podemos confundir aparência e essência. Na vasta maioria das vezes que alguém é ‘xingado’ de viado ou sapatão, não é devido à sua orientação sexual.

Foi fundamentalmente Michel Foucault quem preencheu o grande buraco teórico que havia sido formado pelos genocídios passados. A sua explicação para a opressão ‘homofóbica’, incluída na trilogia História da Sexualidade, não se fundamenta na padronização dos seres humanos em dois gêneros, mas, sim, na criação do regime de heterossexualidade criado no século XVII. No entanto, apenas no século XIX teriam surgido as teorias médicas sobre a ‘homossexualidade’ e daí a opressão ‘homofóbica’.

O conceito de ‘homofobia’ de Foucault é tão limitado que nele nem sequer cabe o extermínio de milhares de ‘sodomitas’ pela Santa Inquisição durante a Idade Média, nem o extermínio das bruxas acusadas de ‘abandonarem as decências de seu sexo’, como o notável exemplo da condenação de Joana D’Arc. Também não cabe nele os discursos dos ‘pais da Igreja Católica’, como os de João Crisóstomo (347 a 407 d.C.), que foi arcebispo de Constantinopla e falou sobre o tema em várias homilias, inclusive defendendo a morte por apedrejamento para um homem que fossepenetrado por outro.

João Crisóstomo, que não tinha receio de atirar a primeira pedra, com certeza era um homem sem pecados! [Aviso de ironia]

A preseguição aos ‘sodomitas’ (termo bastante próximo do conceito atual de ‘homem gay’) remonta aos discursos dos ‘pais da Igreja’ ao fim da Antiguidade, que condenavam “todo casamento ilegal, toda prática indecorosa toda união de mulher com mulher e de homem com homem” (Eusébio de Cesareia, 265 a 339), pagãos que “se poluíam ao se deitarem com outros homens” (Aristides de Atenas, século II), homens que eram “culpados de indecências com outros homens” (Basílio de Cesareia, 329 a 379), homens que “desejavam outros homens” (Gregório de Níssa, 335 a395), etc.

Na verdade, o conceito de ‘homofobia’ de Foucault refere-se apenas a um tipo de opressão à diversidade de gênero que surgiu em um determinado período da história humana. Longe de ser universal, trata-se do específico do específico do específico. Nem sequer engloba as formas anteriores de opressão aos ‘homossexuais’ – apenas porque não eram assim categorizados e denominados. Mais ainda, os inúmeros teóricos que trataram da opressão à comunidade LGBTQIA+ não conseguiram enxergar a totalidade porque se limitaram à opressão da sexualidade, sem compreender que ela é apenas um tipo de opressão à diversidade de gênero.

Somente compreendendo a opressão à diversidade de gênero de uma forma total que é possível enxergar, ao longo da História e das inúmeras sociedades humanas, diversas formas de padronização dos seres humanos em dois gêneros e, consequentemente, várias formas de opressão às pessoas que não se adequavam a ela.

Afinal, antes do patriarcado estabelecer a opressão de gênero, era necessário estabelecer a própria existência de dois gêneros. Se não existirem homens e mulheres, é impossível que exista a opressão machista. Portanto, a opressão à diversidade de gênero não é apenas um produto do patriarcado, é também um pressuposto deste.


Resgatar as cores do movimento!

Ao hegemonizarem o movimento LGBTQIA+, os homens cis brancos e gays impuseram as discussões sobre sexualidade como sendo universais para esse setor da população. Seria uma ofensa para eles que o que lhes perturba é apenas uma pequena parte da normatização do gênero, porque isso faria com que eles deixassem de ser o centro e os ‘legítimos representantes’ do movimento.

A esquerda e o movimento LGBTQIA+ precisam mudar de chip e parar de usar as distintas identidades do movimento apenas como ‘token’, como símbolo usado meramente para mostrar que o movimento é colorido. A preciso alterar as cores por dentro, e não apenas por fora, na aparência. Para isso, é preciso trazer o gênero e o patriarcado de volta ao centro do debate.


domingo, 12 de julho de 2020

J. K. Rowling, nós somos mulheres, sim!

A autora da série de livros ‘Harry Potter’, Joanne K. Rowling, escreveu um texto em seu blog [1] tentando justificar uma série de comentários que desautorizam a identidade de gênero das pessoas trans, particularmente das mulheres. O texto revela que Joanne não apenas se opõe a que nós sejamos consideradas mulheres do ponto de vista social e legal, mas também a uma série de direitos fundamentais que nós conquistamos com muita luta. Em última instância, o que ela quer é que nós, pessoas trans, abramos mãos de nossos direitos. Vamos a seus argumentos.

Antes de iniciar o debate, quer deixar bem explícito que sou crítica aos xingamentos misóginos e às ameaças recebidas pela autora. Posiciono-me absolutamente contra todo tipo de violência, inclusive a verbal. Esse tipo de comportamento é condenável e inaceitável em qualquer tipo de debate, por mais absurdas que sejam os argumentos sendo utilizados.


Ser mulher não é menstruar nem ter útero ou vagina

Comecemos pelo tweet sarcástico de J. K. Rowling:

“‘Pessoas que menstruam.’ Tenho certeza que havia uma palavra para essas pessoas. Alguém me ajude. Wumben? Wimpund? Woomud? [Em referência a palavra ‘women’, mulheres em inglês.”
“‘People who menstruate.’ I’m sure there used to be a word for those people. Someone help me out. Wumben? Wimpund? Woomud?”[2]

Devo lembrar a Rowling que nem todas as mulheres menstruam – e não estou falando apenas das pessoas trans. Esse comentário sarcástico acaba desautorizando a identidade de gênero de mulheres cis que estão na menopausa, que usam anticoncepcionais ou que, por qualquer condição biológica, não menstruam. Bem, ao menos com essa afirmação, os homens trans que se hormonizam seriam reconhecidos como homens!

Brincadeiras à parte, não importa qual característica biológica Rowling queira utilizar para definir o que é ser mulher, ela inevitavelmente vai acabar excluindo uma parte das mulheres, inclusive de mulheres cis. Mas não são características biológicas que definem o que é ser mulher. O gênero, como explicou Simone de Beauvoir, é social.

Se Joanne cita Beauvoir no seu texto, por que não a ouve?


Relatos pessoais que não são relevantes ao debate

Como é muito comum, J. K. Rowling faz relatos pessoais sobre como ela via seu gênero e fazendo suposições acerca de como seria se ela tivesse tido acesso ao debate sobre identidade de gênero em sua adolescência. Não vou responder a tais relatos porque, primeiro, são pessoais e, segundo, são irrelevantes. Afinal, não se pode defender a retirada de direitos conquistados por pessoas trans com base em problemas que pessoas cis enfrentaram ao longo de sua vida em relação ao seu próprio gênero.


Somos mulheres vítimas da violência machista

O texto de Joanne Rowling revela, pela primeira vez, seu passado como vítima de violência sexual, quando a autora tinha cerca de 20 anos. Eu me solidarizo com a autora e sinceramente gostaria que seu ex-marido respondesse judicialmente pelos crimes que cometeu. Entretanto, devo dizer, obviamente, que nós, mulheres trans, não temos nada a ver com tal crime e nem podemos pagar o preço por ele.

Joanne diz reconhecer que as mulheres trans também são vítimas de violência. O que ela parece não reconhecer é que nós somos vítimas da violência machista. Se ela reconhecesse tal fato, teria de concordar que nós somos mulheres ou que, no mínimo, também precisamos de espaços que nos protejam minimamente dessa violência tanto quanto as mulheres.

Existe uma evidente contradição na sociedade: enquanto a sociedade se nega a reconhecer que nós, mulheres trans, somos mulheres, ela nos trata com a mesma violência da qual são comumente vítimas as mulheres. Um exemplo nítido dessa contradição foi a detenção da travesti Indianare Siqueira por andar sem camisa com os “peitos de fora” [3] – exatamente como qualquer mulher seria. No tribunal, a defesa de Indianare argumentou que, se o tribunal a condenasse, estaria reconhecendo que seus documentos estavam errados, uma vez que legalmente ela era homem.

Alguém precisa lembrar a Rowling que mulheres trans também somos vítimas de violência sexual. Numa pesquisa feita com 498 pessoas trans pela Fundación Huésped na Argentina [4], cerca de 80% das 452 mulheres trans (travestis e mulheres transexuais) relataram que já haviam sido detidas pela polícia. Entre estas, 62% relataram ter sofrido violência psicológica, 48%, violência física e 43%, abuso sexual dos agentes de segurança.

Resumindo, cerca de 34% das mulheres trans nessa pesquisa já haviam sido detidas e foram vítimas de violência sexual, ou seja, violência machista da polícia. O estudo, infelizmente, não inclui outras formas de violência sexual comumente relatadas por mulheres trans. Uma delas é a violência por outros detentos nas prisões masculinas. É por isso, por exemplo, que foi determinado, no Brasil, o direito das mulheres transexuais (e também homens transexuais) detidas de cumprirem sua pena em detenções femininas, bem como o de travestis permanecerem em uma cela separada [5]. Essa diferenciação entre mulheres transexuais e travestis foi contestada em um processo, onde o juiz determinou o direito de uma travesti de permanecer na ala feminina [6].

Esse direito (o de nós permanecermos nos espaços femininos) não é apenas para o reconhecimento de nossa identidade, como também uma questão de segurança. Não são raros, por exemplo, os relatos de assédio sexual sofrido por mulheres trans quando somos forçadas a ir ao banheiro masculino. Afinal, é o que aconteceria com qualquer mulher que frequentasse esse banheiro.

É por isso que nós, mulheres trans, insistimos em dizer à sociedade: se vocês nos violentam como mulheres, ao menos tenham a decência de reconhecer que nós somos mulheres.


Não somos criminosas

Embora não seja essa sua intenção, os argumentos de Rowling se alinham com o estereótipo de que nós, travestis, somos pessoas desequilibradas, barraqueiras, criminosas. Esse estereótipo tem uma razão de existir. Uma vez que as pessoas trans são violentadas e expulsas de suas casas, das escolas e dificilmente conseguem inserção no mercado de trabalho, é muito comum que travestis acabem recorrendo ao trabalho sexual para se sustentar. É o mesmo que acontece com uma boa parte das mulheres cis negras.

Na mesma pesquisa feita pela Fundación Huésped, por exemplo, 61% das mulheres trans relataram que exerciam trabalho sexual e 23% relataram que já tinham exercido esse tipo de trabalho. Por não ser reconhecida legalmente, essa é uma atividade altamente criminalizada. Não é curioso, Rowling, que a maioria das mulheres trans sejam empurradas pela sociedade à prostituição da mesma forma que muitas mulheres cis? Não é curioso que a mesma sociedade que nos empurra para essa atividade acabe por criminalizar aquelas que a exercem?

Devido a esse estereótipo, as pessoas em geral – e as mulheres cis em particular – são levadas a acreditar que é inseguro dividir o mesmo espaço que nós. O banheiro feminino, por exemplo. J. K. Rowling se apoia nessa insegurança para determinar que o ativismo trans é inseguro às mulheres. Por exemplo, em um momento, Rowling diz que nós, pessoas trans, não somos um perigo:

Eu acredito que a maioria das pessoas que se identificam como trans (sic) não só não representam nenhum perigo às demais, como são vulneráveis por todas as razões que eu explicitei. As pessoas trans precisam de e merecem proteção.
“I believe the majority of trans-identified people not only pose zero threat to others, but are vulnerable for all the reasons I’ve outlined. Trans people need and deserve protection.”

Curioso é que, ao mesmo tempo em que ela afirma, da boca pra fora que nós precisamos de proteção, ela se opõe a todas as políticas que nós conquistamos, com muita luta, e que servem para a nossa proteção. Ao mesmo tempo, em outro ponto do texto, ela afirma que nós não somos mais inofensivas, pelo contrário, representamos um perigo às mulheres cis:

“Um grande número de mulheres estão aterrorizadas, e com razão, por ativistas trans; eu sei disso porque muitas delas entraram em contato comigo para compartilhar suas histórias. Elas estão com medo de ‘doxxing’ [7], de perder seus trabalhos ou suas moradias, e de violência.”
“Huge numbers of women are justifiably terrified by the trans activists; I know this because so many have got in touch with me to tell their stories. They’re afraid of doxxing, of losing their jobs or their livelihoods, and of violence.”

Sou absolutamente contra a prática de ‘doxxing’ e de violência. Ainda assim, por que essas mulheres estão com medo de perderem o emprego por serem transfóbicas? Ora, e quando uma pessoa perde o trabalho por ter sido racista ou preconceituosa em relação a outros grupos minoritários? Não é justo quando isso acontece? E por que estariam elas com medo de sofrer violência? Não foi a própria Rowling que disse que a maioria de nós, pessoas trans, não somos um perigo? Então por que aqui ela está dizendo o oposto?

A razão para isso é simples. Se ela não se apoiar no senso comum de que nós, pessoas trans, somos violentas, ela não conseguiria se opor às políticas que servem para nos proteger da violência, porque todas elas reconhecem nosso gênero, que é social.

Eu me solidarizo com as mulheres cis que temem perder seus empregos, mas devo lembrar a Rowling que nós, pessoas trans, temos muito mais medo de perdermos os nossos, e com muito maior razão! Até porque, para muitas de nós, perder o emprego muitas vezes significa não ter alternativa senão recorrer à prostituição. Muitas mulheres trans somos aterrorizadas pela ideia de sermos obrigadas a viver do trabalho sexual, como Grabiela Monelli que cometeu suicídio em 2013 justamente por isso.


Identificar-se como mulher estaria fácil demais?

Uma reclamação constante de Rowling ao longo do texto é que estaria ‘fácil demais’ para uma mulher trans atualmente identificar-se como mulher.

Tomarei como referência a política que existe aqui no Brasil. Segundo decisão do STF de 2018 [8], pessoas transgêneras podem alterar o nome e o sexo no registro civil por autodeclaração diretamente no cartório. Para isso, a pessoa deve levar uma série de documentos e assintar um termo que diz que a alteração não pode ser revertida, a não ser por decisão judicial.

J. K. Rowling afirma que a política de autodeclaração da identidade de gênero permitiria aos homens facilmente identificarem-se como mulheres. Não parece ser o caso. Não ouvi falar de nenhum caso de um homem que tenha usado essa decisão do STF para fins maliciosos. Se um deles fizesse isso, seria obrigado a carregar documentos que dizem que ele é uma mulher para o resto de sua vida, a não ser que se dispusesse a entrar em um tribunal para reverter a decisão. Neste caso, teria de se explicar para o juiz.

Não parece terrível que um homem tenha que explicar para o juiz que ele é mesmo um homem? Sim, isso é terrível. Felizmente, as pessoas trans do Brasil não têm mais de passar por isso. Mesmo assim, para muitas das travestis no Brasil, o processo de alteração de nome e sexo no registro civil ainda é muito difícil.

Já relatei, por exemplo, que a maioria delas exerce trabalho sexual. Outros problemas muito frequentes são o analfabetismo e a falta de acesso à Internet. Ora, para alterar o nome e o sexo no registro civil, é necessário retirar alguns documentos pela Internet que dizem respeito à nossa ficha criminal e a processos judiciais em andamento. Isso significa que, para fazer essa alteração, temos de ter nossa ‘ficha limpa’.

Entretanto, como eu disse, a maioria das travestis têm passagem pela polícia. São criminalizadas por serem prostitutas, por usarem drogas, por se defenderem de uma violência (a polícia nunca acredita que a travesti é a vítima), por crimes de seus companheiros, etc. E veja só, uma vez tendo passagem pela polícia, elas automaticamente perdem o direito de terem sua identidade reconhecida! Não é absurdo?

Ainda mais absurdo que isso é que a maioria delas precisa de ajuda de uma assistente social para conseguir alterar seu registro, mesmo quando não tem uma ficha criminal nem processos judiciais contra ela.

Mas, para J. K. Rowling, isso não é o bastante. Ela defende que nós tenhamos de passar por um longo processo judicial se nós quisermos ter nossas identidades reconhecidas. Se, para mim, que tenho um diploma de pós-graduação, a ideia de ter de passar por um processo judicial é assustadora, imagine para uma travesti analfabeta que frequentemente sofre violência da sociedade e da polícia e que nunca teve acesso a um emprego formal com carteira assinada.

Por que Rowling quer tornar a vida delas mais difícil do que já é?


Ser contra nossos direitos é solidariedade?

Por um lado, Rowling afirma solidarizar-se com a violência da qual nós, mulheres trans, somos vítimas:

“Assim como em relação a qualquer sobrevivente de abuso doméstico e assédio sexual que eu conheço, eu não sinto nada além de empatia e solidariedade com as mulheres trans que foram abusadas por homens.”
“Like every other domestic abuse and sexual assault survivor I know, I feel nothing but empathy and solidarity with trans women who’ve been abused by men.”

Por outro, Rowling se opõe a todas as políticas públicas que foram conquistadas por décadas de luta pelas pessoas trans, pelo simples fato de que todas elas começam pelo reconhecimento social e legal da nossa identidade de gênero.

Seria muito estranho se Rowling, por exemplo, dissesse que se solidariza com o racismo do qual pessoas negras são vítimas e, ao mesmo tempo, defendesse as leis de apartheid. Ou se dissesse que se solidariza com o preconceito e a dificuldade vividas pelas pessoas com deficiência, mas se opusesse às leis e políticas de acessibilidade. Ora, da mesma forma, vejo a ‘solidariedade’ manifesta pela Joanne Rowling como mera formalidade.

Rowling afirma se sentir ofendida ao ser chamada de TERF – explicarei abaixo o significado do termo.

“Imediatamente, ativistas que claramente acreditam serem boas, gentis e progressistas infestaram minha linha do tempo, assumindo que têm o direito de policiar meu discurso, me acusar de ódio, me chamar com termos misóginos e, acima de tudo – como qualquer mulher envolvida nesses debates saberão – TERF”.
“Immediately, activists who clearly believe themselves to be good, kind and progressive people swarmed back into my timeline, assuming a right to police my speech, accuse me of hatred, call me misogynistic slurs and, above all – as every woman involved in this debate will know – TERF.”

TERF é uma sigla que significa ‘Trans-Exclusionary Radical Feminist’ (Feminista Radical Trans-Excludente). Mas o que há de ofensivo nesse termo, que foi inventado por uma sufragista, uma mulher cis, a Ethel Smyth [9]?

Esse adjetivo diz apenas que a pessoa em questão defende a exclusão de pessoas trans. É exatamente isso que J. K. Rowling faz em quase todo o seu texto – à exceção dos trechos em que ela diz formalmente se solidarizar com as pessoas trans, quase como um alívio de consciência.

O termo TERF surgiu justamente porque, na época, grande parte das feministas radicais não era a favor da exclusão de pessoas trans. A defesa feita por algumas feministas radicais de excluir as mulheres trans dos eventos feministas e até das Paradas do Orgulho Gay dividiu águas dentro do movimento feminista radical e causou até mesmo confrontos físicos [10].

Tenho certeza que pessoas racistas consideram ofensivo quando são chamadas de racistas e que aquelas que têm preconceito contra pessoas com deficiência também se ofendem ao serem caracterizadas como capacitistas. A reclamação de Joanne Rowling de se sentir ‘ofendida’ ao ser chamada de ‘TERF’ não gera em mim nenhuma simpatia. É bizarro ela explicitamente defender a exclusão de pessoas trans e, ao mesmo tempo, criticar que isso seja dito.

Não tenho solidariedade em relação a tal ofensa da mesma forma que, no fundo, Rowling não tem solidariedade com a transfobia da qual nós somos vítimas, uma vez que se opõe aos nossos direitos mais básicos. Se ela acha ofensivo que alguém diga que ela é trans-excludente, isso tem uma solução muito simples: basta que ela deixe de ser… trans-excludente.


Referências

[1] https://www.jkrowling.com/opinions/j-k-rowling-writes-about-her-reasons-for-speaking-out-on-sex-and-gender-issues/

[2] https://twitter.com/jk_rowling/status/1269382518362509313

[3] http://www.revistalatinoamericana-ciph.org/wp-content/uploads/2018/02/RLCIF-3-Entrevista-com-Indianara-Siqueira.pdf

[4] https://www.huesped.org.ar/noticias/informe-situacion-trans/

[5] https://www.justica.gov.br/news/resolucao-define-novas-regras-para-acolhimento-da-comunidade-glbt-em-unidades-prisionais

[6] https://www.nexojornal.com.br/expresso/2019/03/26/Onde-trans-e-travestis-devem-ficar-quando-s%C3%A3o-presas

[7] ‘Doxxing’ é a prática de pesquisar e divulgar informações pessoais.

[8] http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=386930

[9] https://www.theguardian.com/commentisfree/2018/nov/29/im-credited-with-having-coined-the-acronym-terf-heres-how-it-happened

[10] Ver, por exemplo, o relato de Robin Morgan: http://transadvocate.com/that-time-terfs-beat-radfems-for-protecting-a-trans-woman-from-assault_n_14382.htm



Em defesa de Alexya Salvador, mulher trans, negra, reverenda e socialista

“Fundamentalismo. Substantivo masculino.
1. [RELIGIÃO] movimento religioso e conservador, nascido entre os protestantes dos E.U.A. no início do século XX, que enfatiza a interpretação literal da Bíblia como fundamental à vida e à doutrina cristãs [Embora militante, não se trata de movimento unificado, e acaba denominando diferentes tendências protestantes do sXX.].
2. [POR EXTENSÃO] qualquer corrente, movimento ou atitude, de cunho conservador e integrista, que enfatiza a obediência rigorosa e literal a um conjunto de princípios básicos; integrismo.”

Definição de fundamentalismo numa pesquisa pelo Google.

Alexya Salvador, mulher trans, negra e reverenda anunciou sua pré-candidatura a vice-prefeita na chapa com Sâmia Bonfim na cidade de São Paulo pelo PSOL. Uma grande quantidade de pessoas se opuseram a essa escolha, muitas com bastante ódio. Os fundamentalistas cristãos consideram que é uma afronta à sua fé que uma mulher trans se declare cristã, ainda mais reverenda. Alguns militantes de esquerda consideram que não deveríamos aceitar uma pré-candidata trans, porque isso afastaria votos. Nada mais parecido com a transfobia de direita do que a transfobia de esquerda.


De quem é a contradição?
“Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto porque eles são pobres, chamam-me de comunista.”

Dom Hélder Câmara.

Confesso que, mesmo sendo ateia, sou fascinada pela história de Jesus de Nazaré, esse homem que teria vivido dois mil anos atrás nas terras do atual Oriente Médio. Fico imaginando como era, provavelmente se parecia como qualquer galileu de sua época – pele marrom, cabelo crespo, nariz grosso – e ia andando de cidade em cidade, apenas com a túnica do corpo e as sandálias dos pés, castigado pelo Sol numa terra bastante árida, batendo de porta em porta, pedindo comida, um lugar para ficar e água. Que situação vulnerável: se as pessoas não atendessem, ele poderia morrer pelo caminho!

Certamente não tinha nada a ver com a caricatura que fizeram dele, a começar por sua aparência nas milhares de pinturas em que foi retratado – um europeu de pele branca e olhos claros. Se ele viajasse no tempo e no espaço até o Brasil atual, seria negro, sofreria racismo e muito provavelmente seria confundido com um mendigo. Bem, na verdade, de certa forma, ele era um mendigo, não era?

É natural que seu nome tenha sido lembrado e proferido várias vezes ao longo da história por grupos marginalizados quando se levantavam contra a opressão e a violência da qual eram vítimas. O que é realmente bizarro é o mesmo nome ter sido lembrado e proferido também pelos seus algozes! Tento imaginar como esse simples homem reagiria se visse tudo o que foi e é feito em seu nome até hoje. Quanto sangue derramado, quanta violência, quanto ódio! Será que ver tudo isso não lhe seria tortura maior que a própria cruz?

Pobre rapaz! Ser assassinado daquele jeito para depois ser assassinado de novo, de novo e de novo pela Grande Caneta da História!

Por tudo isso, não me estranha que o cristianismo seja reivindicado por pessoas como Alexya Salvador, uma ativista da luta contra a discriminação, defensora dos direitos humanos e da liberdade religiosa. E antes que alguém queira fazer uma pregação, poupe seu tempo: eu conheço as histórias, os sermões e as parábolas do nazareno. É óbvio, para qualquer pessoa com mais de dois neurônios, que nada é mais oposto aos evangelhos – inclusive aos apócrifos! – do que o fundamentalismo cristão.


Em defesa da liberdade de crença – para todas as pessoas, para todas as crenças
“VI - é inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias”

Artigo 5o, inciso VI da Constituição Federal.

Se não é surpresa que os fundamentalistas cristãos sejam incapazes de compreender uma simples frase como “Amai-vos uns aos outros” (e quem dirá a Parábola do Samaritano!), o que assusta é ver a esquerda posicionar-se contra a liberdade de crença porque confundem fundamentalismo com cristianismo.

Os fundamentalistas cristãos querem impor sua crença a todo mundo, menos a nós. Todas as crenças não-cristãs são atacadas por eles. Como a população deste país é majoriamente cristã, o cristianismo não costuma ser alvo de intolerância religiosa, mas há uma exceção a essa regra: as pessoas trans, particularmente as travestis. Para os fundamentalistas, é uma afronta à ‘moral e os bons costumes’ quando uma mulher trans negra não apenas se declara cristã, como também é nomeada reverenda – Alexya Salvador é a primeira mulher trans a receber esse título.

Nós, pelo contrário, temos o dever de defender todas as crenças: cristianismo, umbanda, candomblé, espiritismo, hinduísmo, budismo ou ateísmo.

Eu, particularmente, penso que a chapa de Boulos e Erundina para a prefeitura de São Paulo é a melhor neste momento, mas não porque Alexya vai ‘afastar votos’. Na minha opinião, o pressuposto da esquerda é ganhar corações e mentes para o projeto socialista, para a defesa de direitos e contra toda forma de discriminação. Quando isso não é possível, é melhor perder o voto e tenho certeza que será este o caso independente se a chapa do PSOL for formada por Boulos e Erundia ou por Sâmia e Alexya. Apenas considero que Boulos é, neste momento, o melhor nome para encabeçar uma frente única da esquerda independente, unindo partidos da classe trabalhadora e movimentos sociais. Para ganhar corações e mentes, um nome conhecido ajuda muito.

Independente disso, sou obrigada a criticar os argumentos, inclusive os da esquerda, que se colocam contra a liberdade de crença das pessoas trans, seja por confusão, por transfobia velada ou explícita. Considero que a liberdade de crença é um princípio e, portanto, deve ser defendida em qualquer situação. Não somos nós que abandonamos nossos princípios para ganhar votos.